Terminal no Sertão Central do Ceará será conectado à ferrovia e ao Porto do Pecém e prepara primeira operação de cargas para outubro
Como pode existir um porto onde não há mar?
A resposta está no Sertão Central do Ceará. Em Quixeramobim, a chegada da Ferrovia Transnordestina criou as condições para a implantação de um grande complexo logístico que pretende conectar produtores, indústrias e empresas do interior aos portos do litoral.
A princípio, o Porto Seco José Dias de Macêdo foi planejado para funcionar como um terminal multimodal e multipropósito, integrando ferrovia, rodovia, armazenagem, indústria e comércio exterior.
Agora, o projeto entrou em uma nova fase. A primeira operação-teste de cargas está prevista para outubro de 2026, com um lote inicial de 10 mil toneladas de grãos. A estrutura deverá começar movimentando até 80 mil toneladas por mês e, após a conclusão das obras, poderá chegar a 36 mil toneladas por dia.
O que é o Porto Seco José Dias de Macêdo?
Apesar do nome, o empreendimento não tem relação com um porto marítimo.
O projeto funciona como um terminal multimodal de cargas instalado no interior do Ceará. A proposta é permitir que produtos cheguem por caminhão ou trem, sejam armazenados e movimentados no terminal e sigam posteriormente para outros destinos.
Em uma etapa posterior, o empreendimento deverá avançar para o alfandegamento, permitindo operações relacionadas ao comércio exterior.
Na prática, a estrutura pretende aproximar o interior do Nordeste do Porto do Pecém, no litoral cearense.
O caminho pode ser resumido assim:
Produtor → caminhão → Porto Seco → trem → Pecém → navio
E também pode funcionar no sentido contrário:
Pecém → trem → Quixeramobim → caminhão → indústria ou produtor
Essa conexão é justamente o principal diferencial do projeto.
A Transnordestina chegou a Quixeramobim
O projeto ganhou uma nova dimensão em agosto.
No dia 14 de agosto de 2026, a Transnordestina chegou oficialmente a Quixeramobim. Na ocasião, uma composição formada por locomotiva e vagões realizou uma viagem experimental no município.
A chegada da ferrovia transformou o cenário porque o Porto Seco deixa de ser apenas um projeto logístico planejado para o futuro e passa a contar com a infraestrutura ferroviária necessária para iniciar operações.
A Transnordestina terá 1.206 quilômetros de linha principal, ligando Eliseu Martins, no Piauí, ao Porto do Pecém, no Ceará. No Ceará, são 608 quilômetros, passando por 28 municípios.
Quixeramobim está entre os municípios que terão terminais de carga no trecho cearense.
Primeira operação terá 10 mil toneladas de grãos
A primeira operação comercial em fase de teste está prevista para outubro.
Segundo Ricardo Azevedo, CEO da Value Global Group, responsável pelo empreendimento, o primeiro transporte deverá movimentar 10 mil toneladas de grãos.
Assim, a operação já conta com pré-contratos envolvendo quatro empresas: duas fábricas de ração de Quixeramobim, uma empresa de Fortaleza e uma cooperativa de produtores rurais.
A empresa estima que a fase inicial possa chegar a 80 mil toneladas movimentadas por mês.
Além disso, o projeto trabalha para utilizar também os trens no sentido de retorno ao Piauí, criando uma operação de ida e volta.
Entre as cargas avaliadas estão:
- grãos;
- calcário agrícola;
- cimento;
- gesso agrícola;
- ureia;
- outros insumos industriais.
Essa estratégia é importante porque uma ferrovia precisa buscar carga nos dois sentidos para melhorar a eficiência logística.
Frete pode cair 30%
Um dos argumentos apresentados pelos responsáveis pelo projeto é a redução do custo de transporte.
Segundo a estimativa divulgada pelo CEO da Value Global ao O POVO, o custo do frete por tonelada poderá cair de R$ 500 para R$ 350, considerando a operação desde a origem da carga no Piauí até a etapa rodoviária final na Grande Fortaleza.
Entretanto, isso representa uma redução estimada de 30%. No primeiro lote, de 10 mil toneladas, a economia projetada chega a aproximadamente R$ 1,5 milhão em transporte.
É uma projeção empresarial para a operação, e não uma redução já verificada em escala comercial. Por isso, o número deve ser tratado como estimativa.
Quixeramobim já tem demanda para a ferrovia
A chegada da Transnordestina encontra uma economia local que já movimenta grandes volumes de produtos.
Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Afrânio Feitosa, Quixeramobim possui atualmente uma demanda de aproximadamente 250 mil toneladas de grãos por ano, impulsionada pela bacia leiteira e pelas agroindústrias.
O cálculo representa cerca de 20,5 mil toneladas por mês, ou aproximadamente 205 vagões.
Assim, com a expansão projetada, a estimativa municipal chega a 300 a 380 vagões por mês.
Esse fator ajuda a explicar a localização do empreendimento. A ferrovia precisa de carga. E o Porto Seco precisa de uma região capaz de gerar e receber mercadorias.
Quixeramobim tenta reunir as duas condições.
A capacidade pode chegar a 36 mil toneladas por dia
A operação inicial representa apenas uma pequena parte do potencial projetado para o complexo.
Segundo a Value Global, a capacidade poderá crescer gradualmente até alcançar 36 mil toneladas movimentadas por dia a partir de julho de 2027, quando a construção do terminal estiver concluída.
O projeto prevê a instalação de estruturas como moegas, utilizadas para carga e descarga dos vagões, além de linhas ferroviárias auxiliares.
Com a estrutura completa, a empresa estima operar composições de até 12 mil toneladas, com possibilidade de realizar até três viagens por dia.
Também está prevista a conclusão, em uma etapa intermediária, de sistemas automatizados de descarga e dos primeiros silos de armazenamento.
A evolução projetada
| Etapa | Movimentação prevista |
|---|---|
| Operação-teste — outubro de 2026 | 10 mil toneladas |
| Fase inicial | até 80 mil toneladas/mês |
| Estrutura ampliada | até 36 mil toneladas/dia |
| Composição prevista | até 12 mil toneladas |
Os números representam projeções divulgadas pela empresa responsável pelo projeto, e não volumes já movimentados em operação plena.
O projeto ficou muito maior do que o porto seco
O Porto Seco começou com uma previsão de investimento de aproximadamente R$ 1 bilhão e área superior a 362 hectares.
O projeto, entretanto, foi ampliado.
A configuração mais recente prevê R$ 1,56 bilhão em recursos próprios da Value Global até 2028 para a implantação do complexo logístico.
Além disso, estão previstos outros R$ 1,5 bilhão para a formação de um polo industrial associado.
Somados, os projetos chegam a aproximadamente R$ 3,06 bilhões, com uma área planejada de até 1.307 hectares.
É importante fazer uma distinção: esse valor representa investimentos projetados para diferentes componentes do complexo, e não recursos já aplicados.
Porto Seco, Centro Logístico e possível ZPE
A área da Fazenda Canhotinho deverá concentrar diferentes estruturas.
Entre elas estão:
Porto Seco
Terminal destinado à movimentação e armazenagem de cargas, com previsão de posterior alfandegamento.
Centro Logístico Industrial
Estrutura que permitirá integrar armazenamento, transporte e distribuição.
Polo industrial
Área destinada à instalação de empresas próximas da ferrovia e da infraestrutura logística.
ZPE
O projeto também prevê uma Zona de Processamento de Exportação, que poderá ampliar a vocação exportadora do complexo.
Com isso, a proposta deixa de ser simplesmente construir um terminal ferroviário.
A ideia passa a ser criar um ecossistema logístico e industrial no Sertão Central.
Empresas já olham para Quixeramobim
A nova infraestrutura também começou a alterar o perfil dos investimentos prospectados para o município.
Em agosto, O POVO informou que duas multinacionais dos setores de mineração e energia, com capitais australiano e chinês, negociavam projetos ligados ao Porto Seco e ao complexo industrial. Os investimentos somados poderiam superar R$ 1 bilhão.
Outro projeto envolve a Magnésio do Nordeste, que reservou uma área de 18 hectares para uma fábrica de componentes destinados à indústria automotiva, com investimento estimado em R$ 300 milhões.
O município também estuda outros empreendimentos, incluindo uma possível fábrica de drones e um aeroporto regional próximo ao complexo.
Isso mostra como a ferrovia pode produzir um efeito econômico que vai além do transporte.
Por que o Porto Seco pode mudar a logística do Sertão?
Hoje, boa parte das cargas produzidas no interior depende de caminhões para percorrer longas distâncias.
Com a nova estrutura, o sistema pode funcionar de outra maneira:
Antes
Produtor → caminhão → longas distâncias → destino
Com o complexo ferroviário
Produtor → caminhão → Porto Seco → trem → Pecém
A mesma lógica pode funcionar para cargas que chegam do litoral.
Porto do Pecém → ferrovia → Quixeramobim → rodovia → interior
Assim, o município pode se transformar em um ponto de conexão entre diferentes modais.
E isso explica por que o projeto interessa não apenas a Quixeramobim, mas também a municípios do Sertão Central e a produtores de outras regiões.
O projeto já mira cargas do Piauí e do Matopiba
A estratégia também pode ampliar a área de influência do terminal.
Segundo a empresa, há interesse em transportar grãos do Matopiba para o Ceará e utilizar os trens no retorno com outras mercadorias.
O Matopiba reúne áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e representa uma das principais fronteiras agrícolas do país.
Entre os produtos avaliados para o retorno estão calcário agrícola, cimento, gesso e ureia importada.
Dessa forma, Quixeramobim pode funcionar não apenas como ponto de passagem da Transnordestina, mas como um ponto de distribuição de cargas entre diferentes regiões do Nordeste.
Quanto dinheiro já foi anunciado para Quixeramobim?
Um levantamento publicado em agosto apontou mais de R$ 8,5 bilhões em investimentos anunciados para o município, considerando projetos ligados à logística, indústria, mineração, energia e outros setores.
Esse número exige cuidado.
Ele não significa que R$ 8,5 bilhões já foram investidos.
O levantamento reúne projetos em diferentes estágios: alguns em implantação, outros em negociação e outros ainda dependentes de financiamento, licenciamento ou confirmação.
Por isso, o número funciona melhor como indicador do volume de projetos anunciados do que como valor efetivamente aplicado.

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O que pode acontecer a partir de agora?
O calendário mais importante é o de outubro de 2026.A primeira operação deverá colocar em teste a integração entre:
Transnordestina + Porto Seco + empresas + produtores + transporte rodoviário.
Depois, o projeto pretende ampliar gradualmente a capacidade.
Dessa maneira, a expectativa divulgada pela empresa é chegar a uma operação de até 36 mil toneladas por dia em julho de 2027, quando as principais estruturas do terminal estiverem concluídas.
Se esse cronograma avançar, Quixeramobim poderá passar de um município atravessado pela ferrovia para um ponto de concentração de cargas.
Um porto sem mar
É justamente aí que está a história. O Porto Seco José Dias de Macêdo não terá navios, cais ou água salgada.
Terá trilhos, vagões, caminhões, silos, armazéns e indústrias. A ideia é levar parte da lógica de um porto para dentro do Sertão: receber cargas, armazená-las, movimentá-las e conectá-las ao mercado por diferentes meios de transporte.
Afinal, em vez de esperar que a carga chegue ao litoral para entrar na cadeia logística, o projeto pretende trazer uma parte dessa operação para o interior.
E, em Quixeramobim, essa transformação começa a sair do papel justamente quando a Transnordestina chega ao município e se prepara para transportar as primeiras cargas.
Sendo assim, o teste de outubro será, portanto, mais do que uma operação ferroviária.
Será o primeiro grande teste de um novo modelo logístico para o Sertão Central do Ceará.


