Aura Minerals, que opera a mina Borborema, pretende investir R$ 50 milhões em saneamento como parte de uma parceria com o Governo do RN, Caern e Prefeitura
O que uma mina de ouro tem a ver com o saneamento básico de uma cidade do Seridó? Em Currais Novos, a resposta começa justamente pela água.
A Aura Minerals, empresa responsável pela operação da mina Borborema, anunciou uma parceria com o Governo do Rio Grande do Norte, a Caern e a Prefeitura de Currais Novos para ampliar o sistema de saneamento do município. A proposta prevê um investimento de R$ 50 milhões da mineradora e pode levar a cidade a praticamente 100% de cobertura de saneamento.
A princípio, o projeto também cria uma solução pouco comum: em vez de retirar água dos açudes locais para abastecer a operação industrial, a empresa pretende ampliar o uso de água de reuso proveniente do esgoto tratado da própria cidade.
A iniciativa ganhou força em reunião realizada na sexta-feira (4), na Governadoria, com a participação da governadora Fátima Bezerra, do prefeito Lucas Galvão, de representantes da Aura, Caern, Idema, Arsep e outros órgãos estaduais.

A mina que usa esgoto tratado para produzir ouro
A proposta não parte do zero.
A Aura já utiliza água de reuso na operação Borborema. Segundo o relatório de sustentabilidade da empresa, a mina funciona com 100% de água de reuso, obtida a partir do tratamento do esgoto doméstico de Currais Novos. A empresa investiu R$ 45 milhões na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Borborema e transporta cerca de 70 metros cúbicos de água de reuso por hora por um emissário de 27 quilômetros até a planta de beneficiamento.
Além disso, a operação não utiliza água subterrânea, de rios ou de córregos. A solução ganhou reconhecimento da própria Aura como uma das principais iniciativas ambientais da unidade Borborema.
Agora, o projeto pretende ampliar essa lógica.
A Caern deverá formalizar a cessão dos efluentes tratados para a mineradora, enquanto a Aura entrará com os recursos para expandir o saneamento da cidade.
Como funciona a parceria
A proposta reúne três frentes: saneamento, reaproveitamento de água e compensação social.
| Quem participa | Papel previsto |
|---|---|
| Aura Minerals | Investimento de R$ 50 milhões no projeto |
| Caern | Tratamento dos efluentes e estrutura de cessão da água de reuso |
| Governo do RN | Licenciamento, regulação e articulação institucional |
| Prefeitura de Currais Novos | Participação na estruturação e atendimento das demandas do município |
Dessa maneira, a empresa consegue ampliar o fornecimento de água de reuso para a operação e, ao mesmo tempo, o município ganha infraestrutura de saneamento.
Contudo, a proposta também segue uma lógica importante para uma região marcada pela escassez hídrica: evitar que a atividade industrial pressione ainda mais os mananciais utilizados pela população.
Aura já movimenta a economia de Currais Novos

A presença da mineradora também mudou o cenário econômico do município.
Segundo o Governo do RN, a Aura mantém atualmente 1.600 empregos diretos em Currais Novos. O prefeito Lucas Galvão afirma que a quantidade de empregos praticamente dobrou desde o início da operação.
A própria Aura informa que o projeto Borborema entrou em produção comercial em 2025, depois de mais de R$ 1 bilhão em investimentos no empreendimento.
Além dos empregos, a atividade mineradora gera arrecadação de impostos e CFEM, a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais.
Segundo a Prefeitura, esses recursos já ajudaram a financiar obras no município. Entre elas, Lucas Galvão cita a pavimentação de mais de 70 ruas e investimentos no hospital municipal.
Mais de R$ 1 bilhão já circula no projeto
O diretor-presidente da Aura Minerals — Unidade Borborema, Fred Silva, afirmou que a empresa já investiu mais de R$ 1 bilhão em Currais Novos desde 2023.
Além disso, a companhia pretende manter a operação na região por pelo menos 30 anos, segundo o executivo.
A importância econômica ultrapassa o município. O ouro produzido em Currais Novos também entra na pauta das exportações potiguares.
No primeiro semestre de 2026, o Rio Grande do Norte exportou US$ 157,5 milhões em ouro, segundo os dados apresentados pelo Governo do Estado. O metal respondeu por 24,6% das exportações potiguares no período, colocando o RN na sexta posição entre os estados brasileiros que mais exportaram ouro.
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Um projeto que mistura mineração e saneamento
A proposta ainda depende da formalização dos instrumentos legais entre as instituições. Porém, a ideia cria uma relação direta entre dois desafios históricos do Seridó: a falta de saneamento adequado e a escassez de água.
Portanto, em vez de tratar o esgoto apenas como um problema ambiental, o projeto transforma o efluente em parte da solução para a atividade industrial.
Ao mesmo tempo, a contrapartida de R$ 50 milhões amplia a infraestrutura de saneamento do município.
Assim, Currais Novos pode transformar uma característica de sua nova economia — a mineração de ouro — em uma fonte de investimento também em infraestrutura urbana.
Afinal, esse talvez seja o aspecto mais curioso do projeto: em uma das regiões mais secas do Nordeste, o esgoto da cidade pode ajudar a produzir ouro sem retirar água nova dos mananciais locais e, ao mesmo tempo, ajudar a financiar a expansão do próprio saneamento.


