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Sertão do Pajeú: conheça a região que ajudou a definir o Nordeste

Conheça o Sertão do Pajeú, em Pernambuco: são 17 municípios marcados pela poesia, repente, cangaço, cultura popular, serras e turismo.
Eliseu Lins, da Agência NE9
19 de agosto de 2026 - às 11:18
Atualizado 19 de agosto de 2026 - às 11:18
8 min de leitura

Território pernambucano com tradição de repente e cantoria, cidades históricas, paisagens de serra, memória do cangaço e uma economia que vai da agropecuária ao comércio e aos serviços

Quando se fala em Sertão do Pajeú, a primeira imagem pode ser a de uma região marcada pela seca e pela paisagem da Caatinga. Mas basta conhecer um pouco mais o território para perceber que o Pajeú é muito mais diverso.

Ali, a poesia virou linguagem cotidiana, a cantoria atravessa gerações, o cangaço deixou marcas na história, as festas populares continuam ocupando as ruas e cidades como Triunfo revelam um Sertão de serras, clima diferente e patrimônio arquitetônico.

Em suma, o momento também é especial para a cultura regional. Em 2026, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto que reconhece a Poesia do Pajeú como manifestação da cultura nacional. A proposta seguiu para o Senado.

Dessa forma, é mais um reconhecimento para um território que transformou a palavra em patrimônio.

Afinal, quantas cidades formam o Sertão do Pajeú?

A princípio, temos que explicar que existe uma confusão comum.

A Região de Desenvolvimento Sertão do Pajeú (RD-05), divisão oficial adotada pelo Governo de Pernambuco, reúne 17 municípios. A lista inclui Afogados da Ingazeira, Brejinho, Calumbi, Carnaíba, Flores, Iguaracy, Ingazeira, Itapetim, Quixaba, Santa Cruz da Baixa Verde, Santa Terezinha, São José do Egito, Serra Talhada, Solidão, Tabira, Triunfo e Tuparetama.

Assim, a diferença aparece quando o assunto passa para outras delimitações territoriais, como a bacia hidrográfica do Rio Pajeú. Nesse caso, a área de referência não coincide necessariamente com a Região de Desenvolvimento.

Por isso, o leitor pode encontrar números diferentes dependendo do contexto. Quando falamos da região administrativa de desenvolvimento, são 17 municípios.

Um Sertão que também tem serra

Antes de mais nada, o Pajeú ocupa cerca de 8,8 mil quilômetros quadrados e está inserido no Semiárido pernambucano. Mas a região está longe de apresentar uma paisagem uniforme.

Um dos melhores exemplos está em Triunfo, na Serra da Baixa Verde. A altitude transforma a paisagem e cria uma experiência diferente daquela que muitos visitantes associam ao Sertão.

Ao mesmo tempo, a diversidade ajuda a explicar por que o Pajeú pode oferecer experiências tão distintas dentro de um mesmo território.

Onde a poesia virou identidade

Se existe uma característica capaz de resumir o Pajeú, ela está na relação da região com a palavra.

Repente, cantoria, viola, glosa, cordel e poesia oral fazem parte de uma tradição que atravessa gerações.

A própria Câmara dos Deputados, ao aprovar o projeto de reconhecimento nacional, descreveu a poesia pajeuzeira como um complexo cultural e comunicativo de tradição oral, com forte presença do repentismo, das glosas e de uma métrica rigorosa. São José do Egito aparece como um dos principais epicentros dessa tradição.

Em resumo, não se trata apenas de uma manifestação apresentada em grandes festivais.

Na região, a poesia ocupa espaços cotidianos, circula nas comunidades e permanece ligada à memória familiar e à transmissão de conhecimento entre gerações.

É justamente essa continuidade que ajuda a explicar a força cultural da região.

São José do Egito: a cidade onde a poesia ganhou sobrenome

Entre os municípios do Pajeú, São José do Egito ocupa lugar especial quando o assunto é poesia.

A cidade ficou conhecida nacionalmente como Terra da Poesia e reúne nomes importantes da história da cantoria, como Lourival Batista, Rogaciano Leite e Jó Patriota. Congressos de violeiros e outras atividades mantêm essa tradição presente na vida cultural local.

São José do Egito também incorporou a poesia à educação. Segundo informações da própria administração municipal, a rede municipal trabalha o ensino da poesia desde 2013.

É um exemplo de como uma tradição cultural pode deixar de ser apenas memória e continuar formando novas gerações.

Triunfo: o Pajeú que sobe a serra

Triunfo apresenta outra face do território. A cidade reúne serra, patrimônio histórico, arquitetura, festas populares e manifestações culturais, entre elas os tradicionais Caretas.

Além disso, o município também abriga o Cine Teatro Guarany, um dos símbolos culturais da cidade.

O patrimônio imaterial tem papel importante na identidade local. O Governo de Pernambuco destaca, entre as manifestações culturais do Pajeú, o cordel, o pífano, o reisado e os Caretas de Triunfo.

Para quem chega ao Pajeú pela primeira vez, Triunfo também ajuda a quebrar uma imagem simplificada do Sertão: é uma região sertaneja, mas com uma paisagem de altitude bastante particular.

Outra parada fundamental é Serra Talhada.

A cidade está diretamente ligada à história do cangaço e à memória de Lampião, personagem que marcou profundamente o imaginário do Sertão nordestino.

Mas a história não ficou presa ao passado.

O município também preserva manifestações como o xaxado e utiliza a memória do cangaço como parte de seu patrimônio cultural e de sua atividade turística.

Serra Talhada ainda exerce papel econômico importante no Pajeú. Estudos do Governo de Pernambuco apontam comércio, serviços, construção e outras atividades econômicas entre os setores relevantes do município.

A cidade, portanto, ajuda a mostrar duas dimensões do Pajeú: a memória histórica e a dinâmica econômica contemporânea.

Além da poesia: o que movimenta a economia do Pajeú?

O Pajeú não vive apenas de cultura.

A economia regional reúne agropecuária, avicultura, pequena indústria, comércio, serviços e turismo. A agricultura também mantém atividades tradicionais, com produção de milho, feijão e cana-de-açúcar.

A cana ainda sustenta uma cadeia tradicional de engenhos, com produção de mel, rapadura e cachaça.

Assim, essa diversidade econômica ajuda a entender a importância dos centros urbanos regionais e a relação entre as pequenas cidades e polos como Serra Talhada e Afogados da Ingazeira.

Um território de festas e manifestações populares

A cultura pajeuzeira não está apenas nos livros ou nos museus. Ela aparece nas festas, nos cortejos, nas feiras e nos encontros populares.

O calendário cultural reúne manifestações como:

  • cantoria e repente;
  • cordel;
  • reisado;
  • pífano;
  • xaxado;
  • Caretas de Triunfo;
  • festas religiosas;
  • festivais de poesia e violeiros.

O próprio Festival Pernambuco Nação Cultural já levou programação para diversos municípios da região, valorizando essas tradições e colocando em evidência artistas e grupos locais.

E o turismo? O Pajeú pode ser descoberto pela experiência

O turismo no Pajeú ganha força justamente quando o visitante entende que a região não oferece apenas paisagens. Ela oferece histórias. Quem chega a São José do Egito pode mergulhar no universo da poesia e da cantoria.

Em Triunfo, encontra serra, patrimônio, arquitetura e manifestações populares. Em Serra Talhada, a viagem passa pela história do cangaço e do xaxado.

Chegando a Carnaíba e Tabira, a tradição da música, da poesia e da cantoria ajuda a compreender a identidade regional.

Afogados da Ingazeira funciona como um dos centros urbanos importantes do território.

Dessa maneira, o resultado é um tipo de turismo que combina cultura, história, gastronomia, paisagem e contato com as comunidades.

Por que o Pajeú é importante para entender o Nordeste?

Talvez essa seja a principal razão para conhecer a região. O Sertão do Pajeú mostra que o Nordeste não pode ser explicado por uma única paisagem ou por um único estereótipo.

Afinal, é um território semiárido, mas também tem serras. É uma região rural, mas possui cidades com comércio e serviços relevantes. Tudo marcado pela tradição, mas mantém novas gerações produzindo poesia e cultura.

E é justamente essa combinação que torna o Pajeú tão singular.

A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto que reconhece a poesia do Pajeú como manifestação da cultura nacional reforça essa dimensão. O texto ainda depende da análise do Senado para avançar no processo legislativo.

Portanto, no Pajeú, a poesia não é apenas uma lembrança do passado. É uma forma de contar o presente e preservar a identidade de um dos territórios culturais mais fortes do Nordeste.

O Pajeú em números

InformaçãoDado
EstadoPernambuco
RegiãoSertão
Região de DesenvolvimentoRD-05
Municípios17
Área aproximada8.767 km²
Bioma predominanteCaatinga
Característica cultural marcantePoesia, repente e cantoria
Principal polo econômicoSerra Talhada
Grande referência da poesiaSão José do Egito
Destaque de serra e patrimônioTriunfo

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.