Território pernambucano com tradição de repente e cantoria, cidades históricas, paisagens de serra, memória do cangaço e uma economia que vai da agropecuária ao comércio e aos serviços
Quando se fala em Sertão do Pajeú, a primeira imagem pode ser a de uma região marcada pela seca e pela paisagem da Caatinga. Mas basta conhecer um pouco mais o território para perceber que o Pajeú é muito mais diverso.
Ali, a poesia virou linguagem cotidiana, a cantoria atravessa gerações, o cangaço deixou marcas na história, as festas populares continuam ocupando as ruas e cidades como Triunfo revelam um Sertão de serras, clima diferente e patrimônio arquitetônico.
O momento também é especial para a cultura regional. Em 2026, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto que reconhece a Poesia do Pajeú como manifestação da cultura nacional. A proposta seguiu para o Senado.
É mais um reconhecimento para um território que transformou a palavra em patrimônio.
Afinal, quantas cidades formam o Sertão do Pajeú?
A princípio, temos que explicar que existe uma confusão comum.
A Região de Desenvolvimento Sertão do Pajeú (RD-05), divisão oficial adotada pelo Governo de Pernambuco, reúne 17 municípios. A lista inclui Afogados da Ingazeira, Brejinho, Calumbi, Carnaíba, Flores, Iguaracy, Ingazeira, Itapetim, Quixaba, Santa Cruz da Baixa Verde, Santa Terezinha, São José do Egito, Serra Talhada, Solidão, Tabira, Triunfo e Tuparetama.
Assim, a diferença aparece quando o assunto passa para outras delimitações territoriais, como a bacia hidrográfica do Rio Pajeú. Nesse caso, a área de referência não coincide necessariamente com a Região de Desenvolvimento.
Por isso, o leitor pode encontrar números diferentes dependendo do contexto. Quando falamos da região administrativa de desenvolvimento, são 17 municípios.

Um Sertão que também tem serra

O Pajeú ocupa cerca de 8,8 mil quilômetros quadrados e está inserido no Semiárido pernambucano. Mas a região está longe de apresentar uma paisagem uniforme.
Um dos melhores exemplos está em Triunfo, na Serra da Baixa Verde. A altitude transforma a paisagem e cria uma experiência diferente daquela que muitos visitantes associam ao Sertão.
Essa diversidade ajuda a explicar por que o Pajeú pode oferecer experiências tão distintas dentro de um mesmo território.
Onde a poesia virou identidade
Se existe uma característica capaz de resumir o Pajeú, ela está na relação da região com a palavra.
Repente, cantoria, viola, glosa, cordel e poesia oral fazem parte de uma tradição que atravessa gerações.
A própria Câmara dos Deputados, ao aprovar o projeto de reconhecimento nacional, descreveu a poesia pajeuzeira como um complexo cultural e comunicativo de tradição oral, com forte presença do repentismo, das glosas e de uma métrica rigorosa. São José do Egito aparece como um dos principais epicentros dessa tradição.
Não se trata apenas de uma manifestação apresentada em grandes festivais.
Na região, a poesia ocupa espaços cotidianos, circula nas comunidades e permanece ligada à memória familiar e à transmissão de conhecimento entre gerações.
É justamente essa continuidade que ajuda a explicar a força cultural da região.

São José do Egito: a cidade onde a poesia ganhou sobrenome
Entre os municípios do Pajeú, São José do Egito ocupa lugar especial quando o assunto é poesia.
A cidade ficou conhecida nacionalmente como Terra da Poesia e reúne nomes importantes da história da cantoria, como Lourival Batista, Rogaciano Leite e Jó Patriota. Congressos de violeiros e outras atividades mantêm essa tradição presente na vida cultural local.
São José do Egito também incorporou a poesia à educação. Segundo informações da própria administração municipal, a rede municipal trabalha o ensino da poesia desde 2013.
É um exemplo de como uma tradição cultural pode deixar de ser apenas memória e continuar formando novas gerações.
Triunfo: o Pajeú que sobe a serra
Triunfo apresenta outra face do território. A cidade reúne serra, patrimônio histórico, arquitetura, festas populares e manifestações culturais, entre elas os tradicionais Caretas.
Além disso, o município também abriga o Cine Teatro Guarany, um dos símbolos culturais da cidade.
O patrimônio imaterial tem papel importante na identidade local. O Governo de Pernambuco destaca, entre as manifestações culturais do Pajeú, o cordel, o pífano, o reisado e os Caretas de Triunfo.
Para quem chega ao Pajeú pela primeira vez, Triunfo também ajuda a quebrar uma imagem simplificada do Sertão: é uma região sertaneja, mas com uma paisagem de altitude bastante particular.
Serra Talhada: onde o cangaço encontra a cultura popular
Outra parada fundamental é Serra Talhada.
A cidade está diretamente ligada à história do cangaço e à memória de Lampião, personagem que marcou profundamente o imaginário do Sertão nordestino.
Mas a história não ficou presa ao passado.
O município também preserva manifestações como o xaxado e utiliza a memória do cangaço como parte de seu patrimônio cultural e de sua atividade turística.
Serra Talhada ainda exerce papel econômico importante no Pajeú. Estudos do Governo de Pernambuco apontam comércio, serviços, construção e outras atividades econômicas entre os setores relevantes do município.
A cidade, portanto, ajuda a mostrar duas dimensões do Pajeú: a memória histórica e a dinâmica econômica contemporânea.
Além da poesia: o que movimenta a economia do Pajeú?
O Pajeú não vive apenas de cultura.
A economia regional reúne agropecuária, avicultura, pequena indústria, comércio, serviços e turismo. A agricultura também mantém atividades tradicionais, com produção de milho, feijão e cana-de-açúcar.
A cana ainda sustenta uma cadeia tradicional de engenhos, com produção de mel, rapadura e cachaça.
Assim, essa diversidade econômica ajuda a entender a importância dos centros urbanos regionais e a relação entre as pequenas cidades e polos como Serra Talhada e Afogados da Ingazeira.

Um território de festas e manifestações populares
A cultura pajeuzeira não está apenas nos livros ou nos museus. Ela aparece nas festas, nos cortejos, nas feiras e nos encontros populares.
O calendário cultural reúne manifestações como:
- cantoria e repente;
- cordel;
- reisado;
- pífano;
- xaxado;
- Caretas de Triunfo;
- festas religiosas;
- festivais de poesia e violeiros.
O próprio Festival Pernambuco Nação Cultural já levou programação para diversos municípios da região, valorizando essas tradições e colocando em evidência artistas e grupos locais.
E o turismo? O Pajeú pode ser descoberto pela experiência
O turismo no Pajeú ganha força justamente quando o visitante entende que a região não oferece apenas paisagens. Ela oferece histórias. Quem chega a São José do Egito pode mergulhar no universo da poesia e da cantoria.
Em Triunfo, encontra serra, patrimônio, arquitetura e manifestações populares. Em Serra Talhada, a viagem passa pela história do cangaço e do xaxado.
Chegando a Carnaíba e Tabira, a tradição da música, da poesia e da cantoria ajuda a compreender a identidade regional.
Já Afogados da Ingazeira funciona como um dos centros urbanos importantes do território.
Dessa maneira, o resultado é um tipo de turismo que combina cultura, história, gastronomia, paisagem e contato com as comunidades.
Por que o Pajeú é importante para entender o Nordeste?
Talvez essa seja a principal razão para conhecer a região. O Sertão do Pajeú mostra que o Nordeste não pode ser explicado por uma única paisagem ou por um único estereótipo.
Afinal, é um território semiárido, mas também tem serras. É uma região rural, mas possui cidades com comércio e serviços relevantes. Tudo marcado pela tradição, mas mantém novas gerações produzindo poesia e cultura.
E é justamente essa combinação que torna o Pajeú tão singular.
A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto que reconhece a poesia do Pajeú como manifestação da cultura nacional reforça essa dimensão. O texto ainda depende da análise do Senado para avançar no processo legislativo.
Portanto, no Pajeú, a poesia não é apenas uma lembrança do passado. É uma forma de contar o presente e preservar a identidade de um dos territórios culturais mais fortes do Nordeste.
O Pajeú em números
| Informação | Dado |
|---|---|
| Estado | Pernambuco |
| Região | Sertão |
| Região de Desenvolvimento | RD-05 |
| Municípios | 17 |
| Área aproximada | 8.767 km² |
| Bioma predominante | Caatinga |
| Característica cultural marcante | Poesia, repente e cantoria |
| Principal polo econômico | Serra Talhada |
| Grande referência da poesia | São José do Egito |
| Destaque de serra e patrimônio | Triunfo |


