Nova política nacional prevê até R$ 7 bilhões para pesquisa, extração e transformação de minerais estratégicos; estados nordestinos concentram produção, áreas de pesquisa e projetos de lítio, cobre, níquel, terras raras e outros recursos
O Nordeste pode ganhar um papel ainda maior na corrida brasileira pelos chamados minerais críticos e estratégicos. A nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada pelo Governo Federal nesta quarta-feira (16), prevê até R$ 7 bilhões em incentivos para pesquisa, extração, processamento e transformação desses recursos no país.
A medida chega em um momento em que os nove estados nordestinos já apresentam produção mineral relevante e uma extensa área sob pesquisa.
A princípio, segundo levantamento do Banco do Nordeste (BNB/ETENE) com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), a produção de minerais estratégicos na região alcançou R$ 10,97 bilhões em 2024.
Além da produção já existente, o Nordeste possui milhares de títulos de pesquisa mineral. Na posição de agosto de 2025, eram 25.037 títulos de autorização de pesquisa relacionados a minerais estratégicos na área de atuação do BNB, que inclui os nove estados nordestinos.
Onde estão os minerais críticos no Nordeste?
O mapa mineral da região é diversificado. A Bahia concentra uma parcela expressiva da produção e das pesquisas, enquanto outros estados aparecem em diferentes estágios de exploração, pesquisa e potencial geológico.
Entre os recursos que chamam atenção estão lítio, cobre, níquel, terras raras, grafita, titânio, vanádio, tungstênio e urânio, além de minerais estratégicos importantes para fertilizantes e outras cadeias industriais.
| Estado | Minerais e áreas de destaque | Situação identificada |
|---|---|---|
| Bahia | Cobre, níquel, vanádio, urânio, titânio, grafita, terras raras, lítio | Produção e forte pesquisa mineral |
| Ceará | Lítio, cobre, grafita, titânio, tântalo, terras raras | Pesquisa e potencial geológico |
| Piauí | Níquel, cobalto, cobre, titânio, tungstênio, terras raras | Pesquisa e projetos minerais |
| Rio Grande do Norte | Lítio, tungstênio, titânio, cobre, terras raras e potássio | Produção, pesquisa e potencial |
| Paraíba | Lítio, tântalo, nióbio e minerais associados à Província Borborema | Pesquisa e estudos geológicos |
| Pernambuco | Lítio, cobre, titânio e outros minerais estratégicos | Pesquisa mineral |
| Alagoas | Cobre e outros minerais estratégicos | Produção e pesquisa |
| Maranhão | Terras raras, alumínio/bauxita, ouro e outros minerais | Pesquisa e potencial |
| Sergipe | Terras raras, titânio, zircônio e potássio | Pesquisa e projetos |
Fonte: BNB/ETENE, ANM e Serviço Geológico do Brasil. A situação de cada estado varia conforme o mineral e a fase do processo minerário; a existência de autorização de pesquisa ou título minerário não significa necessariamente que exista produção comercial em andamento.
Bahia concentra parte importante desse movimento
A Bahia é o principal destaque regional nos dados do BNB. Em 2024, o estado respondeu por 72,8% do valor da produção mineral estratégica do Nordeste. Assim, ouro, cobre e níquel representaram 88,7% do valor produzido no estado dentro desse conjunto.
O estado também aparece com destaque na pesquisa de terras raras. Um estudo recente do Serviço Geológico do Brasil identificou diversos contextos geológicos com potencial para esses elementos e classificou a Bahia como um polo emergente para a exploração desse tipo de recurso.
No caso do níquel, o Projeto Santa Rita, em Itagibá, aparece entre os projetos brasileiros de minerais críticos acompanhados pelo Ministério de Minas e Energia.
Lítio coloca Borborema no radar
Outro eixo importante está na chamada Província Pegmatítica da Borborema, que envolve principalmente áreas da Paraíba e do Rio Grande do Norte.
O Serviço Geológico do Brasil mantém estudos específicos sobre o potencial de lítio da província, que também está relacionada à ocorrência de outros minerais associados aos pegmatitos.
Contudo, o próprio levantamento do BNB mostra que o lítio recebeu investimentos expressivos em pesquisa na área de atuação da instituição entre 2019 e 2023. Embora a produção brasileira esteja concentrada principalmente no Norte de Minas Gerais, os estados nordestinos aparecem nas pesquisas e no potencial geológico identificado.
Ceará também aparece nas pesquisas de minerais estratégicos
O Ceará tem estudos específicos do Serviço Geológico do Brasil para grafita, além de pesquisas envolvendo lítio e cobre.
O SGB mantém, por exemplo, uma avaliação do potencial de grafita no estado e um mapa de favorabilidade para a Província Grafítica Ceará Central.
Os dados do BNB também mostram que o Ceará recebeu investimentos em pesquisa de lítio, níquel, cobre, grafita, terras raras e outros minerais estratégicos no período analisado.
Piauí tem projeto de níquel entre os investimentos acompanhados pelo governo
O Piauí também aparece na nova corrida pelos minerais utilizados em cadeias tecnológicas e energéticas.
O Projeto Piauí Níquel, em Capitão Gervásio Oliveira, consta no Guia do Investidor em Minerais Críticos do Ministério de Minas e Energia. O projeto está classificado na publicação como programado.
Além do níquel, dados de pesquisa mineral indicam atividades envolvendo cobre, cobalto e outros minerais estratégicos no estado.
Sergipe pesquisa terras raras no litoral
Sergipe apresenta um caso diferente dentro do mapa nordestino. O governo estadual mantém um Mapa Mineral que permite consultar processos minerários por substância e destaca minerais estratégicos como cobre, níquel, titânio e terras raras.
Um dos projetos identificados envolve áreas de Brejo Grande e Pacatuba, onde existem areias monazíticas com ocorrência de minerais como titânio, zircônio e elementos de terras raras.
O levantamento do BNB também identificou investimentos em pesquisa de terras raras na Bahia e em Sergipe entre 2019 e 2023.
Por que esses minerais são considerados críticos?
Minerais críticos são recursos considerados importantes para setores estratégicos e cujo abastecimento pode apresentar riscos, seja pela concentração da produção em poucos países, dependência externa, dificuldades tecnológicas ou possibilidade de interrupções no fornecimento.
Eles estão presentes em cadeias que envolvem:
- baterias;
- carros elétricos;
- turbinas eólicas;
- painéis solares;
- redes elétricas;
- eletrônicos;
- equipamentos médicos;
- sistemas de defesa;
- tecnologias de armazenamento de energia.
O lítio, por exemplo, é fundamental para baterias, enquanto grafita é utilizada no ânodo. Níquel, cobalto e manganês também têm aplicações importantes em baterias, e terras raras são utilizadas em ímãs permanentes de alto desempenho.
Nordeste já tem uma base mineral relevante
Os números do BNB ajudam a dimensionar o tamanho desse mercado.
Em 2024, a região respondeu por R$ 10,97 bilhões do valor da produção mineral estratégica brasileira. Bahia e Alagoas foram os estados com maior participação no valor regional naquele levantamento.
Entre os principais produtos estavam:
| Mineral | Valor da produção no Nordeste em 2024 |
|---|---|
| Ouro | R$ 5,10 bilhões |
| Cobre | R$ 2,72 bilhões |
| Níquel | R$ 1,32 bilhão |
| Potássio | R$ 644,47 milhões |
| Vanádio | R$ 313,14 milhões |
| Urânio | R$ 188,57 milhões |
| Titânio | R$ 33,07 milhões |
| Tungstênio | R$ 35,11 milhões |
Os valores são da produção mineral total, bruta e beneficiada, declarada à ANM pelas empresas em 2024.
Nova política pode acelerar pesquisas
A nova política federal pretende ampliar justamente uma etapa que pode ser decisiva para o Nordeste: conhecer melhor o subsolo e transformar ocorrências geológicas em projetos economicamente viáveis.
A lei criou o Fundo Garantidor da Atividade Mineral, com aporte inicial de R$ 2 bilhões da União e possibilidade de chegar a R$ 5 bilhões. O governo também anunciou que os recursos destinados ao Serviço Geológico do Brasil para pesquisas do solo passarão de R$ 8 milhões para R$ 300 milhões.
O cenário é particularmente relevante porque o levantamento do BNB identificou R$ 1,81 bilhão em investimentos em pesquisa de minerais estratégicos na área de atuação da instituição entre 2019 e 2023, equivalente a 39,6% do total investido no país naquele período.

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O desafio não é apenas retirar o minério
A nova política também coloca no centro da discussão uma questão que vai além da mineração: quanto valor será agregado no próprio Brasil.
A transformação de minerais em produtos de maior valor pode envolver etapas como concentração, refino, processamento químico e fabricação de componentes utilizados em baterias, eletrônicos, motores e equipamentos de energia.
Alé disso, esse ponto é particularmente relevante diante da concentração internacional dessas cadeias. Segundo o estudo do BNB, a China responde por mais de 90% do refino mundial de grafita e terras raras e por mais de 60% do refino de lítio.
Para o Nordeste, portanto, a nova política abre uma discussão que vai além da existência de jazidas: pesquisa, mineração, tecnologia, processamento e industrialização podem determinar quanto da riqueza mineral permanecerá na região.
O que acontece agora
Com a nova legislação, o Governo Federal pretende ampliar a pesquisa mineral, reduzir riscos para investimentos e estimular projetos que avancem da extração para o processamento e a transformação.
Afinal, para o Nordeste, o ponto de partida já existe: a região possui produção em minerais estratégicos, milhares de processos de pesquisa e áreas identificadas pelo SGB como potenciais para recursos como lítio, cobre, grafita, níquel, vanádio, titânio e terras raras.
Portanto, o próximo capítulo será descobrir quais dessas áreas conseguem transformar potencial geológico em produção, tecnologia e novas cadeias industriais.


