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Como a Política Nacional de Minerais Críticos vai movimentar bilhões no Nordeste

Nordeste já movimenta bilhões com minerais estratégicos e tem áreas de pesquisa de lítio, cobre, níquel, grafita e terras raras.
Eliseu Lins, da Agência NE9
17 de setembro de 2026 - às 07:05
Atualizado 17 de setembro de 2026 - às 07:05
9 min de leitura

Nova política nacional prevê até R$ 7 bilhões para pesquisa, extração e transformação de minerais estratégicos; estados nordestinos concentram produção, áreas de pesquisa e projetos de lítio, cobre, níquel, terras raras e outros recursos

O Nordeste pode ganhar um papel ainda maior na corrida brasileira pelos chamados minerais críticos e estratégicos. A nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada pelo Governo Federal nesta quarta-feira (16), prevê até R$ 7 bilhões em incentivos para pesquisa, extração, processamento e transformação desses recursos no país.

Em suma, a medida chega em um momento em que os nove estados nordestinos já apresentam produção mineral relevante e uma extensa área sob pesquisa.

A princípio, de acordo com o levantamento do Banco do Nordeste (BNB/ETENE) com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), a produção de minerais estratégicos na região alcançou R$ 10,97 bilhões em 2024.

Além da produção já existente, o Nordeste possui milhares de títulos de pesquisa mineral. Na posição de agosto de 2025, eram 25.037 títulos de autorização de pesquisa relacionados a minerais estratégicos na área de atuação do BNB, que inclui os nove estados nordestinos.

Onde estão os minerais críticos no Nordeste?

Antes de mais nada, o mapa mineral da região é diversificado. A Bahia concentra uma parcela expressiva da produção e das pesquisas, enquanto outros estados aparecem em diferentes estágios de exploração, pesquisa e potencial geológico.

Ao mesmo tempo, entre os recursos que chamam atenção estão lítio, cobre, níquel, terras raras, grafita, titânio, vanádio, tungstênio e urânio, além de minerais estratégicos importantes para fertilizantes e outras cadeias industriais.

EstadoMinerais e áreas de destaqueSituação identificada
BahiaCobre, níquel, vanádio, urânio, titânio, grafita, terras raras, lítioProdução e forte pesquisa mineral
CearáLítio, cobre, grafita, titânio, tântalo, terras rarasPesquisa e potencial geológico
PiauíNíquel, cobalto, cobre, titânio, tungstênio, terras rarasPesquisa e projetos minerais
Rio Grande do NorteLítio, tungstênio, titânio, cobre, terras raras e potássioProdução, pesquisa e potencial
ParaíbaLítio, tântalo, nióbio e minerais associados à Província BorboremaPesquisa e estudos geológicos
PernambucoLítio, cobre, titânio e outros minerais estratégicosPesquisa mineral
AlagoasCobre e outros minerais estratégicosProdução e pesquisa
MaranhãoTerras raras, alumínio/bauxita, ouro e outros mineraisPesquisa e potencial
SergipeTerras raras, titânio, zircônio e potássioPesquisa e projetos

Fonte: BNB/ETENE, ANM e Serviço Geológico do Brasil. Dessa forma, a situação de cada estado varia conforme o mineral e a fase do processo minerário; a existência de autorização de pesquisa ou título minerário não significa necessariamente que exista produção comercial em andamento.

Bahia concentra parte importante desse movimento

A Bahia é o principal destaque regional nos dados do BNB. Em 2024, o estado respondeu por 72,8% do valor da produção mineral estratégica do Nordeste. Assim, ouro, cobre e níquel representaram 88,7% do valor produzido no estado dentro desse conjunto.

Contudo, o estado também aparece com destaque na pesquisa de terras raras. Um estudo recente do Serviço Geológico do Brasil identificou diversos contextos geológicos com potencial para esses elementos e classificou a Bahia como um polo emergente para a exploração desse tipo de recurso.

No caso do níquel, o Projeto Santa Rita, em Itagibá, aparece entre os projetos brasileiros de minerais críticos acompanhados pelo Ministério de Minas e Energia.

Lítio coloca Borborema no radar

Outro eixo importante está na chamada Província Pegmatítica da Borborema, que envolve principalmente áreas da Paraíba e do Rio Grande do Norte.

Desse modo, o Serviço Geológico do Brasil mantém estudos específicos sobre o potencial de lítio da província, que também está relacionada à ocorrência de outros minerais associados aos pegmatitos.

Contudo, o próprio levantamento do BNB mostra que o lítio recebeu investimentos expressivos em pesquisa na área de atuação da instituição entre 2019 e 2023. Embora a produção brasileira esteja concentrada principalmente no Norte de Minas Gerais, os estados nordestinos aparecem nas pesquisas e no potencial geológico identificado.

Ceará também aparece nas pesquisas de minerais estratégicos

O Ceará tem estudos específicos do Serviço Geológico do Brasil para grafita, além de pesquisas envolvendo lítio e cobre.

O SGB mantém, por exemplo, uma avaliação do potencial de grafita no estado e um mapa de favorabilidade para a Província Grafítica Ceará Central.

Em resumo, os dados do BNB também mostram que o Ceará recebeu investimentos em pesquisa de lítio, níquel, cobre, grafita, terras raras e outros minerais estratégicos no período analisado.

Piauí tem projeto de níquel entre os investimentos acompanhados pelo governo

O Piauí também aparece na nova corrida pelos minerais utilizados em cadeias tecnológicas e energéticas.

O Projeto Piauí Níquel, em Capitão Gervásio Oliveira, consta no Guia do Investidor em Minerais Críticos do Ministério de Minas e Energia. Portanto, o projeto está classificado na publicação como programado.

Além disso, dados de pesquisa mineral indicam atividades envolvendo cobre, cobalto e outros minerais estratégicos no estado.

Sergipe pesquisa terras raras no litoral

Sergipe apresenta um caso diferente dentro do mapa nordestino. O governo estadual mantém um Mapa Mineral que permite consultar processos minerários por substância e destaca minerais estratégicos como cobre, níquel, titânio e terras raras.

Um dos projetos identificados envolve áreas de Brejo Grande e Pacatuba, onde existem areias monazíticas com ocorrência de minerais como titânio, zircônio e elementos de terras raras.

Em suma, o levantamento do BNB também identificou investimentos em pesquisa de terras raras na Bahia e em Sergipe entre 2019 e 2023.

Por que esses minerais são considerados críticos?

Minerais críticos são recursos considerados importantes para setores estratégicos e cujo abastecimento pode apresentar riscos, seja pela concentração da produção em poucos países, dependência externa, dificuldades tecnológicas ou possibilidade de interrupções no fornecimento.

Ao mesmo tempo, eles estão presentes em cadeias que envolvem:

  • baterias;
  • carros elétricos;
  • turbinas eólicas;
  • painéis solares;
  • redes elétricas;
  • eletrônicos;
  • equipamentos médicos;
  • sistemas de defesa;
  • tecnologias de armazenamento de energia.

O lítio, por exemplo, é fundamental para baterias, enquanto grafita é utilizada no ânodo. Níquel, cobalto e manganês também têm aplicações importantes em baterias, e terras raras são utilizadas em ímãs permanentes de alto desempenho.

Nordeste já tem uma base mineral relevante

Em resumo, os números do BNB ajudam a dimensionar o tamanho desse mercado.

Afinal, em 2024, a região respondeu por R$ 10,97 bilhões do valor da produção mineral estratégica brasileira. Bahia e Alagoas foram os estados com maior participação no valor regional naquele levantamento.

Entre os principais produtos estavam:

MineralValor da produção no Nordeste em 2024
OuroR$ 5,10 bilhões
CobreR$ 2,72 bilhões
NíquelR$ 1,32 bilhão
PotássioR$ 644,47 milhões
VanádioR$ 313,14 milhões
UrânioR$ 188,57 milhões
TitânioR$ 33,07 milhões
TungstênioR$ 35,11 milhões

Os valores são da produção mineral total, bruta e beneficiada, declarada à ANM pelas empresas em 2024.

Nova política pode acelerar pesquisas

A nova política federal pretende ampliar justamente uma etapa que pode ser decisiva para o Nordeste: conhecer melhor o subsolo e transformar ocorrências geológicas em projetos economicamente viáveis.

A lei criou o Fundo Garantidor da Atividade Mineral, com aporte inicial de R$ 2 bilhões da União e possibilidade de chegar a R$ 5 bilhões. O governo também anunciou que os recursos destinados ao Serviço Geológico do Brasil para pesquisas do solo passarão de R$ 8 milhões para R$ 300 milhões.

O cenário é particularmente relevante porque o levantamento do BNB identificou R$ 1,81 bilhão em investimentos em pesquisa de minerais estratégicos na área de atuação da instituição entre 2019 e 2023, equivalente a 39,6% do total investido no país naquele período.

exploracao de metais criticos EM mg FOTO Gil Leonardi

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O desafio não é apenas retirar o minério

A nova política também coloca no centro da discussão uma questão que vai além da mineração: quanto valor será agregado no próprio Brasil.

A transformação de minerais em produtos de maior valor pode envolver etapas como concentração, refino, processamento químico e fabricação de componentes utilizados em baterias, eletrônicos, motores e equipamentos de energia.

Alé disso, esse ponto é particularmente relevante diante da concentração internacional dessas cadeias. Segundo o estudo do BNB, a China responde por mais de 90% do refino mundial de grafita e terras raras e por mais de 60% do refino de lítio.

Para o Nordeste, portanto, a nova política abre uma discussão que vai além da existência de jazidas: pesquisa, mineração, tecnologia, processamento e industrialização podem determinar quanto da riqueza mineral permanecerá na região.

O que acontece agora

Com a nova legislação, o Governo Federal pretende ampliar a pesquisa mineral, reduzir riscos para investimentos e estimular projetos que avancem da extração para o processamento e a transformação.

Afinal, para o Nordeste, o ponto de partida já existe: a região possui produção em minerais estratégicos, milhares de processos de pesquisa e áreas identificadas pelo SGB como potenciais para recursos como lítio, cobre, grafita, níquel, vanádio, titânio e terras raras.

Portanto, o próximo capítulo será descobrir quais dessas áreas conseguem transformar potencial geológico em produção, tecnologia e novas cadeias industriais.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.