Em 1985, o deputado federal Fernando Gomes apresentou projeto para criar o estado de Santa Cruz, com Itabuna como capital; proposta não vingou na Constituinte de 1987
A Bahia é gigante. Antes de mais nada, o estado abriga uma diversidade imensa de costumes, culturas e povos. Mas você sabia que, em meados dos anos 1980, a Bahia passou por uma discussão para dividir o estado ao meio?
O idealizador: Fernando Gomes, o político de Itabuna
Nascido em 1939, Fernando Gomes (PMDB) construiu uma longa trajetória na política baiana. Foi prefeito de Itabuna por cinco mandatos — o primeiro entre 1977 e 1982, e o último entre 2017 e 2020, este último marcado por polêmicas, como a tentativa de reabertura do comércio durante a pandemia da Covid-19.
Foi em 1985, no auge de sua influência política, que Gomes apresentou o Projeto de Lei Complementar (PLP) 253/1985. A proposta previa o desmembramento de municípios da Bahia e de parte de Minas Gerais para a criação de um novo ente federativo: o estado de Santa Cruz.
Como seria o novo estado?
De acordo com o projeto, Santa Cruz contaria com 165 municípios e teria Itabuna como capital. A ideia se baseava em uma justificativa recorrente entre os defensores do movimento: a região vivia em situação de esquecimento por parte do poder público baiano. Dessa forma, a queixa ecoava especialmente no sul e extremo sul do estado.
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Nome proposto | Estado de Santa Cruz |
| Ano da proposta | 1985 |
| Autor | Deputado Fernando Gomes (PMDB) |
| Número de municípios | 165 |
| Capital | Itabuna |
| Área prevista | Região sul e extremo sul da Bahia + parte de Minas Gerais |
| Destino | Rejeitado na Assembleia Constituinte de 1987 |
A reação política: repúdio de governadores e senadores
A princípio, a proposta não foi bem recebida pela elite política baiana. O então governador João Durval (PDS) foi um dos primeiros a se manifestar contra. Ele repudiou a iniciativa, alertando para o risco de criar dois estados sem representatividade. Ao mesmo tempo, a iniciativa iria deixar ambos frágeis economicamente.
Já o senador Luís Viana Filho (PMDB), colega de partido de Fernando Gomes, usou sua famosa máxima para rebater a ideia. A frase “A Bahia ainda é a Bahia”, que o acompanhou em suas primeiras campanhas, ganhou uma versão atualizada: “A Bahia continuará a Bahia”.
A Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) também se posicionou contra, e o movimento separatista passou a ser visto como uma ameaça à unidade territorial do estado.
Apoio e resistência na Constituinte
Assim, o projeto foi encaminhado para a Assembleia Nacional Constituinte de 1987, que na época analisava a criação de novos estados. Afinal, o sonho do estado de Santa Cruz estava vivo visto que alguns estados tiveram sua criação aprovada como Tocantins, Roraima e Amapá.
A proposta de Santa Cruz, no entanto, não teve a mesma sorte. Embora tenha contado com o apoio de vereadores de municípios do sul da Bahia e de representantes de setores locais. Muitos viam na divisão uma oportunidade de desenvolvimento. Contudo, a ideia enfrentou forte resistência.
O principal argumento contrário era o alto custo de implantação de um novo estado, além da inviabilidade econômica da região para se sustentar como unidade federativa independente.
Por que “Santa Cruz”?
O nome escolhido remetia à Santa Cruz de Cabrália, município do sul da Bahia que foi o marco do descobrimento do Brasil pelos portugueses em 1500. Ao mesmo tempo, a escolha carregava um simbolismo histórico, tentando dar ao novo estado uma identidade própria e enraizada na memória colonial brasileira.

O que ficou?
Apesar de não ter vingado, a proposta do estado de Santa Cruz deixou marcas. Ela evidenciou as desigualdades regionais dentro da Bahia e reacendeu o debate sobre a descentralização administrativa e a autonomia das regiões mais distantes da capital.
Até hoje, movimentos separatistas na Bahia são lembrados como episódios curiosos da história política. E o nome de Fernando Gomes, mesmo décadas depois, segue associado à tentativa de redesenhar o mapa do estado.
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Resumo da proposta em números
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Área da Bahia | 564.763 km² |
| Municípios da Bahia | 417 |
| Ano da proposta | 1985 |
| Autor | Fernando Gomes (PMDB) |
| Nome proposto para o novo estado | Santa Cruz |
| Capital prevista | Itabuna |
| Municípios que fariam parte | 165 |
| Destino | Rejeitado na Constituinte de 1987 |
Portanto, o estado de Santa Cruz acabou ficando no papel. Mas a história da tentativa de divisão da Bahia segue viva como um capítulo curioso da política nacional. Desse modo, é um lembrete de que, mesmo dentro de uma mesma unidade federativa, as diferenças culturais e econômicas podem gerar sonhos de autonomia que, nem sempre, se concretizam.


