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O dia em que quiseram dividir a Bahia em dois estados

Em 1985, o deputado federal Fernando Gomes apresentou projeto para criar o estado de Santa Cruz, com Itabuna como capital; proposta não vingou na Constituinte de 1987 A Bahia é gigante. Antes de mais nada, ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
10 de setembro de 2026 - às 10:30
Atualizado 10 de setembro de 2026 - às 10:30
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Em 1985, o deputado federal Fernando Gomes apresentou projeto para criar o estado de Santa Cruz, com Itabuna como capital; proposta não vingou na Constituinte de 1987

A Bahia é gigante. Antes de mais nada, o estado abriga uma diversidade imensa de costumes, culturas e povos. Mas você sabia que, em meados dos anos 1980, a Bahia passou por uma discussão para dividir o estado ao meio?

O idealizador: Fernando Gomes, o político de Itabuna

Nascido em 1939, Fernando Gomes (PMDB) construiu uma longa trajetória na política baiana. Foi prefeito de Itabuna por cinco mandatos — o primeiro entre 1977 e 1982, e o último entre 2017 e 2020, este último marcado por polêmicas, como a tentativa de reabertura do comércio durante a pandemia da Covid-19.

Foi em 1985, no auge de sua influência política, que Gomes apresentou o Projeto de Lei Complementar (PLP) 253/1985. A proposta previa o desmembramento de municípios da Bahia e de parte de Minas Gerais para a criação de um novo ente federativo: o estado de Santa Cruz.

Como seria o novo estado?

De acordo com o projeto, Santa Cruz contaria com 165 municípios e teria Itabuna como capital. A ideia se baseava em uma justificativa recorrente entre os defensores do movimento: a região vivia em situação de esquecimento por parte do poder público baiano. Dessa forma, a queixa ecoava especialmente no sul e extremo sul do estado.

ItemDetalhe
Nome propostoEstado de Santa Cruz
Ano da proposta1985
AutorDeputado Fernando Gomes (PMDB)
Número de municípios165
CapitalItabuna
Área previstaRegião sul e extremo sul da Bahia + parte de Minas Gerais
DestinoRejeitado na Assembleia Constituinte de 1987

A reação política: repúdio de governadores e senadores

A princípio, a proposta não foi bem recebida pela elite política baiana. O então governador João Durval (PDS) foi um dos primeiros a se manifestar contra. Ele repudiou a iniciativa, alertando para o risco de criar dois estados sem representatividade. Ao mesmo tempo, a iniciativa iria deixar ambos frágeis economicamente.

Já o senador Luís Viana Filho (PMDB), colega de partido de Fernando Gomes, usou sua famosa máxima para rebater a ideia. A frase “A Bahia ainda é a Bahia”, que o acompanhou em suas primeiras campanhas, ganhou uma versão atualizada: “A Bahia continuará a Bahia”.

A Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) também se posicionou contra, e o movimento separatista passou a ser visto como uma ameaça à unidade territorial do estado.

Apoio e resistência na Constituinte

Assim, o projeto foi encaminhado para a Assembleia Nacional Constituinte de 1987, que na época analisava a criação de novos estados. Afinal, o sonho do estado de Santa Cruz estava vivo visto que alguns estados tiveram sua criação aprovada como Tocantins, Roraima e Amapá.

A proposta de Santa Cruz, no entanto, não teve a mesma sorte. Embora tenha contado com o apoio de vereadores de municípios do sul da Bahia e de representantes de setores locais. Muitos viam na divisão uma oportunidade de desenvolvimento. Contudo, a ideia enfrentou forte resistência.

O principal argumento contrário era o alto custo de implantação de um novo estado, além da inviabilidade econômica da região para se sustentar como unidade federativa independente.

Por que “Santa Cruz”?

O nome escolhido remetia à Santa Cruz de Cabrália, município do sul da Bahia que foi o marco do descobrimento do Brasil pelos portugueses em 1500. Ao mesmo tempo, a escolha carregava um simbolismo histórico, tentando dar ao novo estado uma identidade própria e enraizada na memória colonial brasileira.

Itabuna. Foto: Prefeitura de Itabuna
Itabuna. Foto: Prefeitura de Itabuna

O que ficou?

Apesar de não ter vingado, a proposta do estado de Santa Cruz deixou marcas. Ela evidenciou as desigualdades regionais dentro da Bahia e reacendeu o debate sobre a descentralização administrativa e a autonomia das regiões mais distantes da capital.

Até hoje, movimentos separatistas na Bahia são lembrados como episódios curiosos da história política. E o nome de Fernando Gomes, mesmo décadas depois, segue associado à tentativa de redesenhar o mapa do estado.

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Resumo da proposta em números

IndicadorDado
Área da Bahia564.763 km²
Municípios da Bahia417
Ano da proposta1985
AutorFernando Gomes (PMDB)
Nome proposto para o novo estadoSanta Cruz
Capital previstaItabuna
Municípios que fariam parte165
DestinoRejeitado na Constituinte de 1987

Portanto, o estado de Santa Cruz acabou ficando no papel. Mas a história da tentativa de divisão da Bahia segue viva como um capítulo curioso da política nacional. Desse modo, é um lembrete de que, mesmo dentro de uma mesma unidade federativa, as diferenças culturais e econômicas podem gerar sonhos de autonomia que, nem sempre, se concretizam.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.