No centro da capital paraibana, um prédio abandonado guarda uma história que poucos conhecem: de dentro dele, um astrônomo paraibano reportou à NASA um fenômeno lunar visto pela primeira vez da órbita da Lua
Quem passa pelo centro de João Pessoa, entre os prédios da rua 13 de Maio, perto da Praça 1817, talvez não imagine que uma cúpula abandonada ali dentro já teve linha direta com a Apollo 11. Mas teve.
E a história começa bem antes de Neil Armstrong pisar na Lua.
Dois visionários e um observatório
Tudo começou quando o professor Afonso Pereira, educador paraibano, e o cearense Rubens de Azevedo se juntaram com um objetivo ambicioso: montar um observatório astronômico na Paraíba. Rubens não só teve a ideia como desenhou a planta do prédio.
Em 13 de maio de 1967, com o apoio da Fundação Padre Ibiapina, nasceu o Observatório Astronômico da Paraíba. E não era um projeto modesto: o observatório tinha duas estações — uma em João Pessoa e outra em Patos, no sertão paraibano.
Curiosamente, um dos primeiros locais cogitados para a instalação foi Teixeira, mas a escolha final acabou dividindo as operações entre a capital e o sertão. A estação de João Pessoa funcionava no prédio da Fundação Padre Biapina, na rua 13 de Maio.
Dentro da cúpula havia um telescópio de 200 milímetros de diâmetro e quase 2 metros de comprimento — nada mal para a época. O observatório foi inaugurado oficialmente em 27 de maio de 1969, dois meses antes da chegada do homem à Lua, e se tornou um dos maiores do Nordeste.

O Projeto Lion e a conexão com a NASA
Em suma, a participação paraibana na missão Apollo 11 não foi por acaso. A princípio, a NASA investigava um fenômeno chamado fenômeno transitório lunar — clarões, manchas e brilhos que aparecem rapidamente na superfície da Lua e somem.
Dessa forma, antes da Apollo 11, a agência já havia catalogado 579 desses eventos, e um terço deles acontecia na cratera Aristarco. Assim, para monitorá-los, a NASA criou o Projeto Lion, convidando observatórios do mundo inteiro, incluindo o da Paraíba.
Ao mesmo tempo, a missão do observatório paraibano era fornecer informações sistemáticas sobre a luminosidade lunar. E um dos credenciados para isso era justamente Rubens de Azevedo.
O telegrama que entrou para a história
Em 19 de julho de 1969, faltando um dia para o pouso na Lua, o Observatório da Paraíba fez algo que entraria para a história da astronomia: reportou à NASA, por telégrafo, um brilho anormal na cratera Aristarco.
Assim, a NASA repassou a informação aos astronautas. E Buzz Aldrin, já em órbita lunar, confirmou que estava vendo o fenômeno.
Foi a primeira vez que seres humanos observaram um fenômeno transitório lunar do espaço.
O abandono e o sumiço do telescópio
Apesar da relevância histórica, o observatório começou a ser descontinuado em 1975, vítima da falta de verbas. Desde então, nunca mais reabriu.
E o telescópio que ajudou na missão Apollo 11 sumiu — ninguém sabe para onde foi parar. A cúpula, no entanto, ainda pode ser vista do centro de João Pessoa. Abandonada.
Linha do tempo
| Data | Acontecimento |
|---|---|
| 13 de maio de 1967 | Fundação do Observatório Astronômico da Paraíba, com apoio da Fundação Padre Biapina |
| 1967–1969 | Estruturação das duas estações: João Pessoa e Patos (sertão paraibano) |
| 27 de maio de 1969 | Inauguração oficial do observatório, dois meses antes da Apollo 11 |
| 19 de julho de 1969 | Rubens de Azevedo reporta à NASA um brilho anormal na cratera Aristarco |
| 19 de julho de 1969 | Buzz Aldrin confirma o fenômeno do espaço — primeira observação do tipo da órbita lunar |
| 1975 | Início da descontinuação por falta de verbas |
| Hoje | Cúpula abandonada no centro de João Pessoa; telescópio desaparecido |
O que fica
Em resumo, a Paraíba não apenas participou da primeira viagem do homem à Lua — participou de um momento único: a primeira vez que um ser humano, do espaço, testemunhou um fenômeno transitório lunar. E fez isso com um telescópio de 200 mm, um telégrafo e a ousadia de dois educadores que acreditaram que o sertão e a capital poderiam olhar para o céu.
Hoje, resta uma cúpula esquecida no meio dos prédios, um telescópio desaparecido e uma pergunta incômoda: quantas outras histórias como essa o Brasil deixou para trás?
Com informações históricas sobre o Observatório Astronômico da Paraíba e o Projeto Lion.

