Retomada da Refinaria Abreu e Lima ajudou Pernambuco a crescer 4,8% no primeiro semestre, enquanto o Nordeste avançou 2,3%; região acumula mais de R$ 200 bilhões em projetos de energia e hidrogênio
Os grandes investimentos em energia e infraestrutura começam a aparecer de forma mais clara na economia do Nordeste. O resultado de Pernambuco no primeiro semestre de 2026 oferece um dos exemplos mais evidentes: o estado cresceu 4,8%, mais que o dobro da expansão de 2,3% registrada pelo Nordeste, e respondeu por cerca de 40% do avanço econômico regional no período.
A princípio, principal impulso veio da indústria, especialmente da retomada da produção da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Suape. A indústria pernambucana cresceu 7,9% no semestre, enquanto a indústria de transformação avançou 10,9%.
O movimento chama atenção porque ocorre em um momento em que o Nordeste amplia uma carteira de projetos ligados à energia, petróleo, gás, geração renovável, transmissão e hidrogênio. Um levantamento do Banco do Nordeste apontou, ainda em maio, que os investimentos anunciados em energia e hidrogênio verde na região já superavam R$ 200 bilhões.
Assim, o caso pernambucano ajuda a entender uma questão maior: quando um grande investimento energético entra em operação, o impacto não fica restrito à produção de combustível ou eletricidade. Ele movimenta fornecedores, transporte, serviços, indústria, arrecadação e novos investimentos.
Refinaria mostra como um grande investimento chega ao PIB
A retomada da Refinaria Abreu e Lima teve papel central no resultado de Pernambuco. Dessa maneira, a unidade passou por uma parada programada de manutenção no primeiro trimestre de 2025, enquanto a ampliação do Trem 1 acrescentou 42 mil barris por dia à capacidade de processamento.
Por isso, a comparação entre 2025 e 2026 carrega também um efeito estatístico. A base de comparação estava mais baixa no ano passado, o que aumenta a variação percentual registrada agora.
Mesmo assim, o desempenho não se resume à refinaria. Segundo a análise da FGV IBRE, a indústria de transformação pernambucana teria crescido cerca de 2,6% no semestre mesmo sem o efeito da RNEST. O resultado mostra que outras atividades também contribuíram para o avanço industrial.
A fabricação de alimentos, borracha e plástico, produtos metalúrgicos e minerais não metálicos também registrou crescimento.
Pernambuco teve a maior alta industrial do Nordeste
O contraste com os demais estados ajuda a dimensionar o resultado pernambucano.
| Estado | Crescimento da indústria no 1º semestre de 2026 |
|---|---|
| Pernambuco | 7,9% |
| Sergipe | 3,0% |
| Piauí | 1,9% |
| Paraíba | 1,4% |
| Rio Grande do Norte | -5,2% |
Enquanto Pernambuco apresentou a maior expansão industrial do Nordeste, cinco estados registraram retração no setor.
Além disso, os serviços pernambucanos cresceram 3,1%, puxados pelo comércio. O setor avançou em ritmo próximo ao observado na região, que registrou alta de 2,2%.

LEIA TAMBÉM:
- Confira o número de eleitores por cidade de Pernambuco
- Entenda como a refinaria de Abreu e Lima bateu recorde histórico
- Pernambuco projeta nova rodovia para desafogar acesso ao litoral sul
- As 4 narrativas mais repetidas sobre o Nordeste em todas as eleições
O caso de Pernambuco faz parte de um movimento maior
A importância do resultado pernambucano aumenta quando se olha para os investimentos que estão sendo estruturados em outros pontos do Nordeste.
O Banco do Nordeste identificou mais de R$ 200 bilhões em investimentos em energia e hidrogênio verde na região. O volume inclui projetos associados à transição energética e reforça a posição do Nordeste como uma das principais áreas de expansão do setor no país.
Ao mesmo tempo, o planejamento federal prevê uma expansão importante da infraestrutura necessária para transportar essa energia.
O PDE 2035, aprovado em 2026, estima aproximadamente R$ 120 bilhões em investimentos no sistema brasileiro de transmissão até 2035. O objetivo inclui preparar a rede para o crescimento das fontes renováveis e para novas cargas industriais.
Esse ponto é fundamental para o Nordeste. A região produz grandes volumes de energia eólica e solar, mas precisa ampliar a capacidade de transmissão para levar essa energia aos centros consumidores e permitir a instalação de novas atividades industriais.
Energia pode virar indústria
É justamente nessa etapa que o investimento energético ganha um peso maior para a economia regional.
Um parque eólico ou solar gera atividade durante sua construção e operação. Porém, quando a infraestrutura energética se combina com portos, ferrovias, rodovias, gás natural, transmissão e áreas industriais, surge a possibilidade de atrair empresas que precisam de grandes quantidades de energia.
O efeito pode aparecer em diferentes etapas da cadeia econômica.
| Etapa do investimento | Possível impacto regional |
|---|---|
| Construção da infraestrutura | Obras, empregos e contratação de fornecedores |
| Operação de usinas | Geração de energia e atividade permanente |
| Transmissão | Maior capacidade para transportar eletricidade |
| Portos e logística | Entrada de equipamentos e escoamento da produção |
| Indústria | Atração de empresas com grande consumo energético |
| Serviços | Transporte, manutenção, engenharia e atividades especializadas |
| Arrecadação | Maior movimentação econômica e tributária |
Portanto, o grande desafio para o Nordeste não está apenas em produzir energia, mas em transformar essa vantagem energética em atividade industrial permanente.
Pernambuco mostra o caminho
O resultado do primeiro semestre coloca Pernambuco em uma posição interessante dentro desse movimento.
A retomada da RNEST mostrou que uma infraestrutura energética de grande porte pode produzir efeitos relevantes sobre a atividade industrial e, consequentemente, sobre o PIB estadual. Além disso, o estado reúne o Complexo Industrial Portuário de Suape, infraestrutura logística e uma cadeia industrial que pode se beneficiar de novos projetos.
A própria carteira regional mostra que essa lógica já ultrapassa o petróleo e o refino. O Nordeste também concentra projetos de geração eólica e solar, hidrogênio de baixo carbono e infraestrutura de transmissão.
A Sudene, por sua vez, contabilizou 102 projetos estruturantes prioritários dos nove estados nordestinos, com demanda estimada em R$ 144 bilhões. A carteira inclui iniciativas de infraestrutura consideradas estratégicas para o desenvolvimento regional.
O dinheiro precisa permanecer na economia regional
O tamanho dos investimentos, entretanto, não garante sozinho um salto econômico duradouro.
O impacto tende a ser maior quando parte da cadeia de fornecedores se instala na própria região. Empresas de engenharia, construção, manutenção, tecnologia, transporte e serviços especializados podem capturar uma parcela maior dos recursos.
Além disso, a formação de mão de obra qualificada pode transformar grandes obras em uma plataforma para novos investimentos.
Essa é uma diferença importante entre simplesmente receber um grande empreendimento e construir um novo ciclo de desenvolvimento industrial.
LEIA TAMBEM:
- Santa Cruz tira a SAF do papel e anuncia investimentos milionários
- Por que o Nordeste vai liderar a expansão energética do Brasil nos próximos anos?
- Nordeste segue na corrida pelas terras raras; pesquisa revela potencial em Sergipe
- GM confirma Captiva híbrido fabricado no Ceará já em novembro
Nordeste entra em uma nova fase da transição energética
O cenário coloca o Nordeste diante de uma oportunidade que vai além da geração de eletricidade.
A região reúne vento, sol, disponibilidade territorial, portos estratégicos e uma crescente infraestrutura de transmissão. Agora, os projetos de energia começam a se conectar com outras atividades econômicas, como indústria, logística, combustíveis sustentáveis e produção de insumos.
O próprio planejamento energético nacional aponta para uma expansão acelerada do setor. O Ministério de Minas e Energia estima, no conjunto do país, cerca de R$ 596 bilhões em investimentos em energia elétrica entre 2025 e 2035, além de R$ 2,8 trilhões em petróleo e gás no mesmo horizonte.
Nesse cenário, Pernambuco oferece um exemplo concreto do mecanismo: quando uma grande infraestrutura energética volta a operar ou amplia sua capacidade, o efeito aparece primeiro na indústria e depois se espalha pela economia.
O desafio agora é fazer com que os bilhões previstos para energia no Nordeste tenham o mesmo efeito multiplicador, criando não apenas mais geração elétrica, mas também mais indústria, empregos qualificados, fornecedores e valor agregado dentro da própria região.


