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Por que o Nordeste vai liderar a expansão energética do Brasil nos próximos anos?

Região reúne maior potencial para novos parques eólicos, forte expansão solar e infraestrutura capaz de atrair data centers, indústria e grandes projetos de energia O Nordeste entrou em uma nova fase da sua história energética. ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
10 de setembro de 2026 - às 10:19
Atualizado 10 de setembro de 2026 - às 10:19
11 min de leitura

Região reúne maior potencial para novos parques eólicos, forte expansão solar e infraestrutura capaz de atrair data centers, indústria e grandes projetos de energia

O Nordeste entrou em uma nova fase da sua história energética. Durante décadas, a região foi associada principalmente à falta de água e às dificuldades de infraestrutura. Agora, porém, vento, sol, localização estratégica e disponibilidade de áreas transformaram os nove estados em uma das principais fronteiras de expansão energética do Brasil.

A mudança já aparece nos planos oficiais de longo prazo. O Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, aprovado pelo Governo Federal em 2026, prevê uma expansão expressiva da geração renovável e coloca o Nordeste no centro de parte importante dos novos projetos. No caso da energia eólica, por exemplo, todos os novos parques previstos para o primeiro ciclo do plano estão na região. Até 2035, a expansão indicativa no subsistema Nordeste chega a 13,6 GW adicionais de potência eólica.

E existe uma razão econômica para isso: energia abundante e competitiva deixou de ser apenas uma questão de abastecimento e passou a funcionar como um ativo para atrair grandes investimentos industriais e tecnológicos.

O Nordeste tem uma vantagem que o resto do Brasil não consegue reproduzir na mesma escala

O principal diferencial está na combinação entre vento forte, sol abundante e grandes áreas disponíveis para geração renovável.

A energia eólica já se tornou uma das marcas do Nordeste. Ao mesmo tempo, a geração solar avançou rapidamente. Em 2025, a energia eólica alcançou 116,5 TWh no Brasil, enquanto a solar fotovoltaica chegou a 88,1 TWh. A capacidade instalada solar atingiu 64,8 GW e a eólica, 34,7 GW. Juntas, as duas fontes representaram 26,4% da geração elétrica brasileira naquele ano.

Como consequência, estados como Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia, Piauí e Pernambuco passaram a disputar projetos que precisam de grandes quantidades de energia e, principalmente, de energia de baixa emissão.

É justamente aí que surge uma segunda transformação.

A energia está atraindo quem precisa consumir muita energia

rn energia foto sandro menezes
energia no RN foto Sandro Menezes

Durante muito tempo, o raciocínio era simples: primeiro um estado construía sua infraestrutura industrial e depois procurava energia para abastecê-la.

Agora, a lógica começa a funcionar também no sentido contrário.

A existência de energia renovável em grande escala está ajudando o Nordeste a atrair empreendimentos que consomem enormes volumes de eletricidade.

O melhor exemplo está no Ceará.

O primeiro data center do TikTok na América Latina será instalado no Complexo Industrial e Portuário do Pecém. O projeto envolve investimento estimado em mais de R$ 200 bilhões, considerando a infraestrutura tecnológica prevista até 2035, e terá energia 100% renovável. A fase inicial da operação está prevista para 2027.

Além disso, o projeto já fechou um acordo de aproximadamente R$ 10 bilhões para autoprodução de energia renovável, com parques eólicos no Ceará e no Piauí capazes de fornecer até 300 MW médios.

Ou seja, o vento nordestino não está apenas movimentando turbinas. Ele pode ajudar a alimentar servidores que processam dados de uma das maiores plataformas digitais do mundo.

O tamanho dos investimentos ajuda a explicar a transformação

Um levantamento de grandes projetos anunciados para a região mostra como a nova economia energética está se espalhando por diferentes setores.

EmpresaSetorEstadoInvestimento informadoHorizonte
TikTokData centerCER$ 200 bilhões2035
PetrobrasÓleo e gásSER$ 60 bilhões2030
AcelenCombustíveisBAR$ 16 bilhões2033
EngieEnergiaRNR$ 13,7 bilhões2026
StellantisAutomotivoPER$ 13 bilhões2030
Petrobras/RNESTRefinoPER$ 12 bilhões2029
Noxis EnergyRefino/combustíveisCER$ 10 bilhões2028

Somados, os valores chegam a aproximadamente R$ 324,7 bilhões. O número, entretanto, não representa um único pacote de investimentos nem dinheiro já aplicado. São projetos de diferentes empresas, setores e estágios de execução.

Ainda assim, o conjunto mostra a dimensão da transformação.

Ceará: energia limpa encontra a economia digital

O caso cearense talvez seja o exemplo mais emblemático da nova fase.

O Ceará possui uma combinação estratégica de energia renovável, Complexo do Pecém e cabos submarinos de telecomunicações, fatores que ajudam a explicar o interesse por data centers e projetos de hidrogênio.

A própria Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já identificou Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte entre as regiões com grandes potenciais de cargas eletrointensivas, como data centers e plantas de hidrogênio produzido por eletrólise. A expansão, entretanto, exige reforços na transmissão para garantir segurança e confiabilidade ao sistema.

Por isso, o próximo desafio do Nordeste não é apenas produzir mais energia.

É conseguir transportar essa energia até onde estarão as novas fábricas, centros de dados e unidades industriais.

Rio Grande do Norte continua como potência eólica

O Rio Grande do Norte ocupa posição estratégica nesse processo porque construiu, ao longo de anos, uma das maiores bases de geração eólica do país.

O estado possui condições naturais especialmente favoráveis para novos parques, enquanto a expansão do sistema de transmissão permite conectar essa produção ao restante do Brasil.

O cenário também explica a presença de grandes investimentos ligados ao setor energético no estado.

Além disso, o Nordeste não depende de uma única fonte. A expansão eólica acontece simultaneamente ao crescimento da geração solar, criando uma matriz renovável mais diversificada.

novas usinas de geração solar fotovoltaica | Arquivo GA
Novas usinas de geração solar fotovoltaica estão chegando no nordeste | Arquivo GA

Bahia combina energia, petróleo, combustíveis e indústria

A Bahia apresenta outro modelo.

O estado possui uma enorme base industrial, infraestrutura portuária, produção de petróleo e gás e forte expansão das energias renováveis.

A Acelen, responsável pela Refinaria de Mataripe, destaca a Bahia como um dos principais mercados energéticos do Nordeste e já avançou também na geração solar com o Acelen SolarPark I. A empresa informa que investiu aproximadamente R$ 4 bilhões desde 2022 em melhorias, modernização e revitalização da refinaria.

Assim, a transição energética nordestina não significa simplesmente abandonar petróleo e combustíveis.

Na prática, os investimentos estão acontecendo simultaneamente em fontes renováveis, refino, gás natural, combustíveis e novas tecnologias.

Sergipe pode ganhar uma nova posição no gás natural

Sergipe também aparece entre os estados que podem mudar de patamar na próxima década.

A Petrobras anunciou investimentos de aproximadamente R$ 60 bilhões no estado, incluindo os projetos Sergipe Águas Profundas 1 e 2 e infraestrutura para transportar o gás produzido no mar até a costa.

A expectativa é praticamente dobrar a participação do Nordeste na oferta nacional de gás natural, de 16% para 31% até 2035.

Isso cria uma combinação importante para a indústria.

De um lado, o Nordeste amplia a produção de energia renovável. De outro, aumenta a oferta de gás natural para setores que precisam de uma fonte firme de energia e para atividades industriais.

Pernambuco mostra que a nova economia energética também passa pelo combustível

Em Pernambuco, o principal exemplo é a Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Ipojuca.

refinaria de abreu e lima Pernambuco
Refinaria de Abreu e Lima está quebrando todos os recordes de produção. Foto: Reprodução

A Petrobras investe aproximadamente R$ 12 bilhões na conclusão do Trem 2 e em intervenções no Trem 1. Quando o projeto chegar à capacidade prevista, a refinaria poderá processar 260 mil barris de petróleo por dia, contra cerca de 130 mil atualmente. A conclusão está prevista para 2029.

A ampliação deve aumentar principalmente a produção de Diesel S-10, além de gasolina, GLP e nafta.

Ao mesmo tempo, Pernambuco recebe outro investimento estratégico: os R$ 13 bilhões da Stellantis no Polo Automotivo de Goiana até 2030. O projeto inclui novos produtos, expansão da cadeia de fornecedores e tecnologias relacionadas à hibridização e eletrificação.

Portanto, a energia renovável não aparece isoladamente. Ela faz parte de um ambiente industrial que inclui automóveis, combustíveis, logística e tecnologia.

A indústria automobilística também entra na transição

O investimento da Stellantis é especialmente importante porque mostra como a agenda energética está chegando à indústria tradicional.

O Polo de Goiana terá novos modelos e tecnologias associadas à descarbonização da mobilidade. A empresa também prevê ampliar sua rede de fornecedores em Pernambuco, com componentes voltados às novas tecnologias de propulsão.

Dessa maneira, o Nordeste começa a construir uma cadeia que vai muito além da produção de eletricidade.

A região produz energia, atrai indústria que consome energia e começa a desenvolver produtos relacionados à própria transição energética.

E o que explica essa liderança nos próximos anos?

Existem pelo menos cinco fatores que ajudam a explicar o movimento.

Primeiro, o potencial natural. O Nordeste possui algumas das melhores condições brasileiras para geração eólica e solar.

Segundo, a escala. Grandes áreas permitem instalar parques capazes de produzir volumes elevados de energia.

Terceiro, a infraestrutura. Portos como Pecém e Suape, além de redes de transmissão e conexões de telecomunicações, aumentam a capacidade de receber grandes empreendimentos.

Quarto, a localização. A posição do Nordeste em relação à Europa, África e às rotas marítimas do Atlântico cria vantagens para exportação e para projetos industriais voltados ao mercado internacional.

Quinto, a demanda futura. Data centers, hidrogênio verde, veículos eletrificados, combustíveis renováveis e novas indústrias exigirão cada vez mais eletricidade.

Por isso, a região começa a transformar um recurso natural em vantagem industrial.

O próximo desafio será transportar e armazenar a energia

O crescimento, porém, também cria problemas.

Produzir energia renovável em grande escala não garante, sozinho, que ela estará disponível no momento e no local em que a indústria precisar.

Assim, a EPE já trabalha justamente com esse desafio. Estudos recentes analisam como preparar a rede de transmissão para conectar grandes cargas eletrointensivas no Nordeste, principalmente nos estados do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte.

Além disso, a expansão de fontes como vento e sol exige soluções de armazenamento, transmissão e gestão da geração.

Esse ponto será decisivo para transformar o potencial energético em crescimento econômico permanente.

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Refinaria-de-Mataripe_Foto Desafio-Ambiental

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A grande mudança está justamente aqui.

Durante muito tempo, o Nordeste apareceu no mapa energético brasileiro principalmente como uma região com potencial para produzir eletricidade renovável e enviá-la para outras partes do país.

Agora, o cenário começa a mudar.

A região quer produzir a energia, consumir parte dela e usar essa vantagem para atrair indústrias de maior valor agregado.

O data center do TikTok no Ceará é um exemplo extremo dessa transformação. A Petrobras em Sergipe, a RNEST e a Stellantis em Pernambuco e os investimentos em energia e combustíveis na Bahia mostram que o movimento alcança setores completamente diferentes.

O Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 confirma que essa transformação não é apenas uma aposta regional. Entretanto, o planejamento oficial projeta crescimento da oferta energética brasileira mantendo uma matriz majoritariamente renovável.

Assim, o Nordeste entra nos próximos anos não apenas como uma região com muito vento e sol, mas como um dos principais territórios brasileiros para a combinação entre energia, indústria, tecnologia e infraestrutura.

Afinal, essa pode ser a mudança mais importante: o vento e o sol, que durante anos foram vistos principalmente como recursos naturais abundantes, começam a funcionar como infraestrutura econômica capaz de decidir onde serão construídos os próximos grandes projetos do Brasil.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.