Região reúne maior potencial para novos parques eólicos, forte expansão solar e infraestrutura capaz de atrair data centers, indústria e grandes projetos de energia
O Nordeste entrou em uma nova fase da sua história energética. Durante décadas, a região foi associada principalmente à falta de água e às dificuldades de infraestrutura. Agora, porém, vento, sol, localização estratégica e disponibilidade de áreas transformaram os nove estados em uma das principais fronteiras de expansão energética do Brasil.
A mudança já aparece nos planos oficiais de longo prazo. O Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, aprovado pelo Governo Federal em 2026, prevê uma expansão expressiva da geração renovável e coloca o Nordeste no centro de parte importante dos novos projetos. No caso da energia eólica, por exemplo, todos os novos parques previstos para o primeiro ciclo do plano estão na região. Até 2035, a expansão indicativa no subsistema Nordeste chega a 13,6 GW adicionais de potência eólica.
E existe uma razão econômica para isso: energia abundante e competitiva deixou de ser apenas uma questão de abastecimento e passou a funcionar como um ativo para atrair grandes investimentos industriais e tecnológicos.
O Nordeste tem uma vantagem que o resto do Brasil não consegue reproduzir na mesma escala
O principal diferencial está na combinação entre vento forte, sol abundante e grandes áreas disponíveis para geração renovável.
A energia eólica já se tornou uma das marcas do Nordeste. Ao mesmo tempo, a geração solar avançou rapidamente. Em 2025, a energia eólica alcançou 116,5 TWh no Brasil, enquanto a solar fotovoltaica chegou a 88,1 TWh. A capacidade instalada solar atingiu 64,8 GW e a eólica, 34,7 GW. Juntas, as duas fontes representaram 26,4% da geração elétrica brasileira naquele ano.
Como consequência, estados como Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia, Piauí e Pernambuco passaram a disputar projetos que precisam de grandes quantidades de energia e, principalmente, de energia de baixa emissão.
É justamente aí que surge uma segunda transformação.
A energia está atraindo quem precisa consumir muita energia

Durante muito tempo, o raciocínio era simples: primeiro um estado construía sua infraestrutura industrial e depois procurava energia para abastecê-la.
Agora, a lógica começa a funcionar também no sentido contrário.
A existência de energia renovável em grande escala está ajudando o Nordeste a atrair empreendimentos que consomem enormes volumes de eletricidade.
O melhor exemplo está no Ceará.
O primeiro data center do TikTok na América Latina será instalado no Complexo Industrial e Portuário do Pecém. O projeto envolve investimento estimado em mais de R$ 200 bilhões, considerando a infraestrutura tecnológica prevista até 2035, e terá energia 100% renovável. A fase inicial da operação está prevista para 2027.
Além disso, o projeto já fechou um acordo de aproximadamente R$ 10 bilhões para autoprodução de energia renovável, com parques eólicos no Ceará e no Piauí capazes de fornecer até 300 MW médios.
Ou seja, o vento nordestino não está apenas movimentando turbinas. Ele pode ajudar a alimentar servidores que processam dados de uma das maiores plataformas digitais do mundo.
O tamanho dos investimentos ajuda a explicar a transformação
Um levantamento de grandes projetos anunciados para a região mostra como a nova economia energética está se espalhando por diferentes setores.
| Empresa | Setor | Estado | Investimento informado | Horizonte |
|---|---|---|---|---|
| TikTok | Data center | CE | R$ 200 bilhões | 2035 |
| Petrobras | Óleo e gás | SE | R$ 60 bilhões | 2030 |
| Acelen | Combustíveis | BA | R$ 16 bilhões | 2033 |
| Engie | Energia | RN | R$ 13,7 bilhões | 2026 |
| Stellantis | Automotivo | PE | R$ 13 bilhões | 2030 |
| Petrobras/RNEST | Refino | PE | R$ 12 bilhões | 2029 |
| Noxis Energy | Refino/combustíveis | CE | R$ 10 bilhões | 2028 |
Somados, os valores chegam a aproximadamente R$ 324,7 bilhões. O número, entretanto, não representa um único pacote de investimentos nem dinheiro já aplicado. São projetos de diferentes empresas, setores e estágios de execução.
Ainda assim, o conjunto mostra a dimensão da transformação.
Ceará: energia limpa encontra a economia digital
O caso cearense talvez seja o exemplo mais emblemático da nova fase.
O Ceará possui uma combinação estratégica de energia renovável, Complexo do Pecém e cabos submarinos de telecomunicações, fatores que ajudam a explicar o interesse por data centers e projetos de hidrogênio.
A própria Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já identificou Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte entre as regiões com grandes potenciais de cargas eletrointensivas, como data centers e plantas de hidrogênio produzido por eletrólise. A expansão, entretanto, exige reforços na transmissão para garantir segurança e confiabilidade ao sistema.
Por isso, o próximo desafio do Nordeste não é apenas produzir mais energia.
É conseguir transportar essa energia até onde estarão as novas fábricas, centros de dados e unidades industriais.
Rio Grande do Norte continua como potência eólica
O Rio Grande do Norte ocupa posição estratégica nesse processo porque construiu, ao longo de anos, uma das maiores bases de geração eólica do país.
O estado possui condições naturais especialmente favoráveis para novos parques, enquanto a expansão do sistema de transmissão permite conectar essa produção ao restante do Brasil.
O cenário também explica a presença de grandes investimentos ligados ao setor energético no estado.
Além disso, o Nordeste não depende de uma única fonte. A expansão eólica acontece simultaneamente ao crescimento da geração solar, criando uma matriz renovável mais diversificada.

Bahia combina energia, petróleo, combustíveis e indústria
A Bahia apresenta outro modelo.
O estado possui uma enorme base industrial, infraestrutura portuária, produção de petróleo e gás e forte expansão das energias renováveis.
A Acelen, responsável pela Refinaria de Mataripe, destaca a Bahia como um dos principais mercados energéticos do Nordeste e já avançou também na geração solar com o Acelen SolarPark I. A empresa informa que investiu aproximadamente R$ 4 bilhões desde 2022 em melhorias, modernização e revitalização da refinaria.
Assim, a transição energética nordestina não significa simplesmente abandonar petróleo e combustíveis.
Na prática, os investimentos estão acontecendo simultaneamente em fontes renováveis, refino, gás natural, combustíveis e novas tecnologias.
Sergipe pode ganhar uma nova posição no gás natural
Sergipe também aparece entre os estados que podem mudar de patamar na próxima década.
A Petrobras anunciou investimentos de aproximadamente R$ 60 bilhões no estado, incluindo os projetos Sergipe Águas Profundas 1 e 2 e infraestrutura para transportar o gás produzido no mar até a costa.
A expectativa é praticamente dobrar a participação do Nordeste na oferta nacional de gás natural, de 16% para 31% até 2035.
Isso cria uma combinação importante para a indústria.
De um lado, o Nordeste amplia a produção de energia renovável. De outro, aumenta a oferta de gás natural para setores que precisam de uma fonte firme de energia e para atividades industriais.
Pernambuco mostra que a nova economia energética também passa pelo combustível
Em Pernambuco, o principal exemplo é a Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Ipojuca.

A Petrobras investe aproximadamente R$ 12 bilhões na conclusão do Trem 2 e em intervenções no Trem 1. Quando o projeto chegar à capacidade prevista, a refinaria poderá processar 260 mil barris de petróleo por dia, contra cerca de 130 mil atualmente. A conclusão está prevista para 2029.
A ampliação deve aumentar principalmente a produção de Diesel S-10, além de gasolina, GLP e nafta.
Ao mesmo tempo, Pernambuco recebe outro investimento estratégico: os R$ 13 bilhões da Stellantis no Polo Automotivo de Goiana até 2030. O projeto inclui novos produtos, expansão da cadeia de fornecedores e tecnologias relacionadas à hibridização e eletrificação.
Portanto, a energia renovável não aparece isoladamente. Ela faz parte de um ambiente industrial que inclui automóveis, combustíveis, logística e tecnologia.
A indústria automobilística também entra na transição

O investimento da Stellantis é especialmente importante porque mostra como a agenda energética está chegando à indústria tradicional.
O Polo de Goiana terá novos modelos e tecnologias associadas à descarbonização da mobilidade. A empresa também prevê ampliar sua rede de fornecedores em Pernambuco, com componentes voltados às novas tecnologias de propulsão.
Dessa maneira, o Nordeste começa a construir uma cadeia que vai muito além da produção de eletricidade.
A região produz energia, atrai indústria que consome energia e começa a desenvolver produtos relacionados à própria transição energética.
E o que explica essa liderança nos próximos anos?
Existem pelo menos cinco fatores que ajudam a explicar o movimento.
Primeiro, o potencial natural. O Nordeste possui algumas das melhores condições brasileiras para geração eólica e solar.
Segundo, a escala. Grandes áreas permitem instalar parques capazes de produzir volumes elevados de energia.
Terceiro, a infraestrutura. Portos como Pecém e Suape, além de redes de transmissão e conexões de telecomunicações, aumentam a capacidade de receber grandes empreendimentos.
Quarto, a localização. A posição do Nordeste em relação à Europa, África e às rotas marítimas do Atlântico cria vantagens para exportação e para projetos industriais voltados ao mercado internacional.
Quinto, a demanda futura. Data centers, hidrogênio verde, veículos eletrificados, combustíveis renováveis e novas indústrias exigirão cada vez mais eletricidade.
Por isso, a região começa a transformar um recurso natural em vantagem industrial.
O próximo desafio será transportar e armazenar a energia
O crescimento, porém, também cria problemas.
Produzir energia renovável em grande escala não garante, sozinho, que ela estará disponível no momento e no local em que a indústria precisar.
Assim, a EPE já trabalha justamente com esse desafio. Estudos recentes analisam como preparar a rede de transmissão para conectar grandes cargas eletrointensivas no Nordeste, principalmente nos estados do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte.
Além disso, a expansão de fontes como vento e sol exige soluções de armazenamento, transmissão e gestão da geração.
Esse ponto será decisivo para transformar o potencial energético em crescimento econômico permanente.

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Nordeste pode deixar de ser apenas fornecedor de energia
A grande mudança está justamente aqui.
Durante muito tempo, o Nordeste apareceu no mapa energético brasileiro principalmente como uma região com potencial para produzir eletricidade renovável e enviá-la para outras partes do país.
Agora, o cenário começa a mudar.
A região quer produzir a energia, consumir parte dela e usar essa vantagem para atrair indústrias de maior valor agregado.
O data center do TikTok no Ceará é um exemplo extremo dessa transformação. A Petrobras em Sergipe, a RNEST e a Stellantis em Pernambuco e os investimentos em energia e combustíveis na Bahia mostram que o movimento alcança setores completamente diferentes.
O Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 confirma que essa transformação não é apenas uma aposta regional. Entretanto, o planejamento oficial projeta crescimento da oferta energética brasileira mantendo uma matriz majoritariamente renovável.
Assim, o Nordeste entra nos próximos anos não apenas como uma região com muito vento e sol, mas como um dos principais territórios brasileiros para a combinação entre energia, indústria, tecnologia e infraestrutura.
Afinal, essa pode ser a mudança mais importante: o vento e o sol, que durante anos foram vistos principalmente como recursos naturais abundantes, começam a funcionar como infraestrutura econômica capaz de decidir onde serão construídos os próximos grandes projetos do Brasil.


