Estudos no Alto Sertão sergipano identificam minerais associados a terras raras e colocam o Nordeste no centro da disputa por recursos estratégicos para tecnologia, energia e indústria
O Nordeste começa a ganhar um novo capítulo na corrida mundial pelas terras raras, minerais considerados estratégicos para tecnologias avançadas, transição energética e indústria de alta tecnologia. Em Sergipe, pesquisadores da Universidade Federal de Sergipe (UFS) estudam granitos do Alto Sertão em busca de minerais capazes de concentrar esses elementos.
A princípio, a pesquisa se concentra em uma faixa que parte de Nossa Senhora da Glória, passa por Poço Redondo e chega a Canindé de São Francisco. Nesse território, os pesquisadores mapeiam grandes corpos de granito, coletam amostras e analisam a composição das rochas para identificar concentrações de minerais de interesse econômico.
O trabalho já avançou além da simples identificação geológica. Segundo a UFS, os estudos realizados ao longo de aproximadamente dez anos permitiram localizar ocorrências e agora buscam dimensionar o potencial econômico dessas formações.

Sergipe procura neodímio e outros minerais estratégicos
Um dos principais alvos da pesquisa é o neodímio, elemento utilizado na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho. Esses componentes aparecem em equipamentos tecnológicos e ganham importância com o avanço de veículos elétricos, sistemas de geração de energia e outras tecnologias.
Entretanto, além do neodímio, os pesquisadores da UFS investigam a presença de outros elementos estratégicos, como nióbio, tântalo, urânio e zircônio. Entretanto, a existência de minerais em uma rocha ainda não significa que exista uma jazida economicamente explorável.
Por isso, a equipe precisa determinar quantidade, concentração, tecnologia de recuperação e custo de exploração antes de avaliar uma eventual atividade mineral. Sendo assim, a própria pesquisa estima que o caminho entre a descoberta e uma mina em funcionamento normalmente leva de 10 a 15 anos.
A corrida pelas terras raras já chegou ao Nordeste
O movimento sergipano acontece enquanto outros estados nordestinos ampliam a pesquisa por minerais críticos.
A Bahia aparece como um dos principais polos brasileiros. Dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) mostram que o país recebeu 1.370 novos alvarás de autorização de pesquisa relacionados a terras raras e monazita em 2024. Desse total, 604 ficaram na Bahia, o equivalente a cerca de 44% dos novos alvarás nacionais.
Minas Gerais recebeu 321 e Goiás, 231. Assim, a Bahia concentrou mais autorizações do que qualquer outro estado brasileiro naquele ano.
O Serviço Geológico do Brasil (SGB) também classificou a Bahia como um polo emergente para exploração de terras raras. Contudo, o órgão aponta diferentes contextos geológicos no estado, incluindo ocorrências de minerais ricos em terras raras associadas a granitos e outras formações.
Além disso, o novo Plano Decenal de Pesquisa de Recursos Minerais do SGB inclui uma avaliação do potencial de terras raras no Leste do Domínio Pernambuco-Alagoas. O documento mostra que a investigação científica do Nordeste não se limita à Bahia e a Sergipe.
Onde o Nordeste procura terras raras
| Estado/região | O que já aparece nas pesquisas |
|---|---|
| Sergipe | UFS pesquisa granitos entre Nossa Senhora da Glória, Poço Redondo e Canindé de São Francisco |
| Bahia | Forte expansão da pesquisa mineral; 604 novos alvarás para terras raras/monazita em 2024 |
| Pernambuco/Alagoas | SGB prevê avaliação do potencial de terras raras no Leste do Domínio Pernambuco-Alagoas |
| Outros estados nordestinos | O potencial depende de estudos geológicos e processos de pesquisa mineral específicos |
Fontes: UFS, ANM e Serviço Geológico do Brasil.
LEIA TAMBÉM:
- Conheça as estudantes nordestinas que criaram creme antiacne à base de tomate-cereja
- Viagens corporativas abrem nova fronteira para os resorts do Nordeste
- Maior cidade do Nordeste vai mudar a paisagem das ruas; entenda
- Nordeste tem 2 estados entre os maiores potenciais de mercado em 2026
UFS coloca o Nordeste na discussão internacional

A pesquisa sergipana ganhou ainda mais relevância porque a própria UFS passou a ocupar espaço na discussão internacional sobre minerais críticos.
A professora Maria de Lourdes da Silva Rosa, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Geociências da universidade, participará da Missão Fulbright–CNPq sobre Terras Raras e Minerais Críticos, nos Estados Unidos, entre 19 de setembro e 1º de outubro.
Ela integra uma delegação de apenas dez pesquisadores brasileiros e representa uma posição singular: será a única geóloga e a única pesquisadora do Nordeste no grupo. Assim, a missão terá atividades na Virginia Tech, Colorado School of Mines e Ames National Laboratory.
Mas, a participação também conecta Sergipe a uma rede maior. Maria de Lourdes integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Estudos de Geoquímica Isotópica, que reúne grupos de pesquisa de seis universidades nordestinas.

Por que as terras raras valem tanto?
Apesar do nome, as terras raras não são necessariamente raras na natureza. Afinal, o problema está na concentração dos elementos, na dificuldade de separação e no processamento necessário para transformá-los em produtos de alto valor.
Portanto, a ANM considera 17 elementos químicos como terras raras. Assim, eles apresentam propriedades magnéticas, ópticas e elétricas importantes para a fabricação de ímãs de alta performance, baterias, catalisadores, notebooks, smartphones e equipamentos ligados à transição energética.
O Ministério de Minas e Energia também destaca a presença desses elementos em veículos elétricos, equipamentos médicos, computadores, televisores e sistemas de geração de energia.
| Aplicação | Papel das terras raras |
|---|---|
| Carros elétricos | Ímãs permanentes e motores |
| Energia eólica | Ímãs de alta performance em geradores |
| Eletrônicos | Componentes magnéticos e eletrônicos |
| Smartphones e computadores | Componentes e materiais especiais |
| Equipamentos médicos | Tecnologias e componentes específicos |
| Defesa | Sistemas avançados, radares e equipamentos militares |
Fontes: ANM e Ministério de Minas e Energia.


