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Estudantes de Pernambuco usam IA para criar soluções para o SUS

Alunos de escolas públicas de Goiana e Jaboatão usam inteligência artificial e programação para criar soluções para consultas e vacinação.
Eliseu Lins, da Agência NE9
1 de setembro de 2026 - às 06:34
Atualizado 1 de setembro de 2026 - às 06:34
6 min de leitura

Em Goiana, duas adolescentes desenvolveram plataforma para facilitar o acesso a consultas e exames; em Jaboatão, alunos criaram aplicativo para combater desinformação sobre vacinação

A tecnologia criada dentro de escolas públicas de Pernambuco está chegando a problemas concretos da população. Em Goiana e Jaboatão dos Guararapes, estudantes desenvolveram projetos que usam programação e inteligência artificial para enfrentar desafios relacionados à saúde pública.

As iniciativas mostram como a educação tecnológica pode ultrapassar os limites da sala de aula e transformar problemas observados pelos próprios alunos em soluções com aplicação prática.

Em Goiana, na Zona da Mata Norte, duas estudantes de 15 anos criaram a plataforma Agenda Saúde, voltada para facilitar o acesso a consultas e exames na rede pública. Já em Jaboatão dos Guararapes, alunos do ensino médio desenvolveram o ViraDose, aplicativo que reúne informações sobre vacinação e ferramentas para ajudar os usuários a identificar notícias falsas.

estudantes de Goiana

Goiana: tecnologia para facilitar o acesso ao SUS

As estudantes Heloise Milena Barbosa Gonçalves e Lara Sophia Belarmino da Silva, do 9º ano da Escola Municipal Irmã Marie Armelle Falguiéres, desenvolveram a Agenda Saúde depois de observar as dificuldades enfrentadas por moradores para conseguir marcações na rede pública.

A plataforma reúne recursos para facilitar o acesso a informações sobre consultas e exames e também pode ser utilizada pelas unidades para divulgar comunicados e campanhas de vacinação.

A ideia começou como projeto para a EXPOCETI, em São Lourenço da Mata, mas avançou para uma etapa prática. Atualmente, a ferramenta passa por testes no Posto de Saúde do Barro Vermelho, em Goiana.

Para construir a plataforma, as estudantes trabalharam com HTML, CSS, JavaScript e PHP. Além disso, utilizaram inteligência artificial como ferramenta de apoio à programação, especialmente para encontrar erros, aperfeiçoar códigos e desenvolver soluções.

A tecnologia, porém, não substituiu o aprendizado. As próprias estudantes precisaram entender o funcionamento do código e avaliar as sugestões apresentadas pela IA.

“Aos poucos, fomos entendendo melhor a programação e também como usar a inteligência artificial para nos ajudar, sem depender simplesmente da resposta que ela dava”, explicou Lara.

Jaboatão: aplicativo usa tecnologia contra fake news sobre vacinas

A segunda iniciativa surgiu em Jaboatão dos Guararapes, onde estudantes da Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Frei Jaboatão criaram o ViraDose.

O aplicativo nasceu de uma preocupação percebida pelos próprios alunos: a circulação de informações falsas sobre vacinação e a resistência de parte dos jovens à imunização.

Orientados pelo professor Luiz Henrique, os estudantes Arlison Arthur, Stanley Jordan, Daniel Batista e Erison Jonata desenvolveram uma plataforma com diferentes recursos.

Entre eles estão um jogo de checagem de informações, conteúdos para esclarecer dúvidas sobre vacinas, informações sobre campanhas de imunização e um mapa que permite localizar postos de saúde e consultar horários de funcionamento.

O projeto começou a ser desenvolvido em abril e integrou atividades dos itinerários de Linguagens e suas Tecnologias e Ciências da Natureza e suas Tecnologias.

A inteligência artificial também entrou no processo como ferramenta de apoio ao desenvolvimento da plataforma, enquanto os estudantes utilizaram informações e pesquisas de fontes oficiais para construir o conteúdo.

Dois projetos, um mesmo caminho

Apesar de tratarem de problemas diferentes, os dois projetos têm uma característica em comum: nasceram da observação da realidade local.

Em Goiana, as estudantes perceberam as dificuldades relacionadas ao acesso e à marcação de consultas e exames. Em Jaboatão, os alunos identificaram a circulação de informações falsas sobre vacinação.

A partir daí, os problemas viraram desafios tecnológicos.

CidadeProjetoProblema enfrentadoSolução
GoianaAgenda SaúdeDificuldade para marcar consultas e examesPlataforma para facilitar agendamentos e comunicação das unidades
Jaboatão dos GuararapesViraDoseDesinformação sobre vacinaçãoAplicativo com checagem de informações, conteúdos educativos e localização de postos

Esse tipo de experiência também aproxima os estudantes de etapas que fazem parte do desenvolvimento profissional em tecnologia: identificar uma necessidade, pesquisar, programar, testar, encontrar erros e aperfeiçoar uma solução.

Estudantes de escola pública de Pernambuco

Pernambuco mostra outro caminho para a inteligência artificial

As experiências de Goiana e Jaboatão também chamam atenção porque colocam a inteligência artificial em um papel diferente dentro da educação.

Em vez de aparecer apenas como ferramenta para produzir textos ou responder perguntas, a IA foi utilizada pelos estudantes como apoio ao desenvolvimento de soluções.

No caso da Agenda Saúde, por exemplo, as alunas recorreram à engenharia de prompt para obter sugestões e identificar problemas no código, mas continuaram responsáveis pela compreensão e pelos ajustes necessários.

Assim, a iniciativa também dialoga com o processo de digitalização do próprio SUS. O Ministério da Saúde mantém o Meu SUS Digital, plataforma que reúne informações de saúde do cidadão e permite consultar dados como histórico clínico, vacinas, exames e medicamentos.

Contudo, a diferença é que, em Goiana e Jaboatão, a tecnologia nasceu dentro da escola e foi direcionada para necessidades percebidas na própria comunidade.

foto: reprodução

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Da sala de aula para a vida real

Mais do que dois aplicativos, os projetos mostram uma possibilidade para a educação pública: ensinar tecnologia a partir de problemas reais.

Os estudantes não ficaram apenas diante de exercícios de programação. Eles precisaram compreender uma necessidade da comunidade e pensar em como uma ferramenta digital poderia ajudar.

Afinal, em Goiana, a Agenda Saúde já chegou à fase de testes em uma unidade de saúde. Em Jaboatão, o ViraDose oferece uma ferramenta que combina informação, educação e tecnologia para estimular uma relação mais crítica com conteúdos sobre vacinação.

Portanto, são experiências que colocam Pernambuco no mapa da inovação educacional e mostram que a tecnologia também pode nascer de onde existe um problema — inclusive dentro de uma escola pública.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.