A água do Rio São Francisco já percorre canais, reservatórios e rios de quatro estados do Nordeste por meio do Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF), conhecido como transposição. Em julho de 2026, os dois eixos do sistema entregaram cerca de 34,7 milhões de metros cúbicos de água aos estados atendidos, segundo os dados mais recentes detalhados pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) e pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
A princípio, o sistema atende Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Além disso, o Governo Federal estima que o projeto alcance aproximadamente 12 milhões de pessoas em cerca de 390 municípios.
Porém, a água não chega diretamente a todas essas cidades por meio dos canais principais. Na prática, o PISF alimenta reservatórios, rios, adutoras e sistemas estaduais que distribuem a água posteriormente.
Por isso, entender o caminho percorrido pela água ajuda a explicar o tamanho e a importância da transposição para a segurança hídrica do Nordeste.

Quanto de água a transposição entrega atualmente?
Os números mais recentes divulgados pela ANA permitem observar a operação mês a mês.
Em julho de 2026, o Eixo Norte entregou:
| Estado | Água entregue em julho de 2026 |
|---|---|
| Rio Grande do Norte | 6,78 milhões de m³ |
| Paraíba | 3,07 milhões de m³ |
| Pernambuco | 2,41 milhões de m³ |
| Ceará | 1,00 milhão de m³ |
| Total do Eixo Norte | 13,26 milhões de m³ |
No mesmo mês, o Eixo Leste entregou:
| Estado | Água entregue em julho de 2026 |
|---|---|
| Paraíba | 11,55 milhões de m³ |
| Pernambuco | 9,87 milhões de m³ |
| Total do Eixo Leste | 21,42 milhões de m³ |
Somando os dois eixos, o sistema entregou aproximadamente 34,68 milhões de m³ de água em julho. Isso equivale a aproximadamente 34,7 bilhões de litros de água em um único mês.
É importante, entretanto, diferenciar esse número da água retirada do São Francisco. Em julho, o registro apresentado na reunião de acompanhamento do PISF indicou 66,09 milhões de m³ bombeados pelos dois eixos, enquanto as entregas aos estados ocorreram em volumes diferentes por causa da operação do sistema, reservação e distribuição ao longo dos pontos de entrega.
Como a água do São Francisco chega aos estados?
A transposição possui dois grandes caminhos: o Eixo Norte e o Eixo Leste.
O Eixo Norte parte da região de captação em Pernambuco e conduz a água em direção a estruturas que atendem Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Já o Eixo Leste conduz água principalmente para Pernambuco e Paraíba.
A ANA explica que o operador federal capta e transporta a água até os pontos de entrega. Depois disso, os estados assumem a operação das estruturas que distribuem o recurso dentro de seus territórios.
O sistema possui 13 aquedutos, nove estações de bombeamento, 28 reservatórios, quatro túneis, nove subestações de energia e 270 quilômetros de linhas de transmissão.
O caminho da água

Rio São Francisco
↓
Captação em Pernambuco
↓
Eixo Norte / Eixo Leste
↓
Canais, aquedutos, túneis e estações de bombeamento
↓
Reservatórios estratégicos
↓
Rios, adutoras e sistemas estaduais
↓
Abastecimento de cidades e comunidades
Esse modelo explica por que uma cidade pode ser considerada beneficiada pelo PISF mesmo quando o canal da transposição não passa dentro de seu território.
Quais estados recebem água da transposição?
Pernambuco
Pernambuco funciona, ao mesmo tempo, como ponto de captação do projeto e como estado receptor de água.
No Eixo Norte, o sistema atende áreas do Sertão pernambucano. Já o Eixo Leste amplia o alcance para outras regiões do estado.
Além disso, o Ramal do Agreste conecta a estrutura do PISF à Adutora do Agreste. O governo federal informa que esse sistema poderá beneficiar mais de 1,8 milhão de pernambucanos em 50 municípios, incluindo cidades como Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe, Belo Jardim e Arcoverde.
A lista oficial de municípios beneficiados pelo projeto inclui, entre outros, Salgueiro, Ouricuri, Araripina, Serra Talhada, Caruaru, Garanhuns, Belo Jardim e Santa Cruz do Capibaribe.
Paraíba
A Paraíba recebe água pelos dois eixos.
No Eixo Norte, a água chega principalmente pela bacia do Rio Piranhas-Açu, alcançando estruturas como os reservatórios de Boa Vista, Caiçara e Engenheiro Ávidos.
Entre os municípios incluídos na relação oficial de beneficiados aparecem Cajazeiras, Sousa, São José de Piranhas, Pombal, Catolé do Rocha, São Bento e Campina Grande, entre dezenas de outros.
Campina Grande, por exemplo, aparece entre os municípios beneficiados pelo Eixo Leste.
Além disso, a integração entre o PISF e os sistemas hídricos paraibanos ganhou importância operacional em 2026. ANA, MIDR e os estados passaram a acompanhar de forma mais integrada as transferências entre reservatórios e os volumes destinados ao Rio Grande do Norte.
Ceará
No Ceará, a água do Eixo Norte alimenta sistemas relacionados às bacias do Salgado e Jaguaribe.
A lista oficial do projeto inclui municípios como Jati, Brejo Santo, Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Icó, Jaguaribe, Russas e Fortaleza, entre outros.
O Ceará também prepara novas estruturas para ampliar o alcance da água.
O Ramal do Salgado vai conectar o sistema ao Rio Salgado e, posteriormente, ao Castanhão. Já o Cinturão das Águas do Ceará recebe água a partir do reservatório de Jati e amplia a distribuição para o Cariri.
Assim, a transposição não representa apenas a água que chega diretamente pelos canais. Ela funciona como parte de uma rede maior de segurança hídrica.
Rio Grande do Norte
O Rio Grande do Norte passou a receber água do São Francisco pelo Eixo Norte em fevereiro de 2022, inicialmente por meio do leito natural do Rio Piranhas-Açu.
Em julho de 2026, o estado recebeu 6,78 milhões de m³, o maior volume entre os quatro estados atendidos pelo Eixo Norte naquele mês.
A água segue principalmente por sistemas interligados a reservatórios e rios da região.
O projeto também avança com o Ramal do Apodi, que parte da estrutura de Caiçara, na Paraíba, atravessa áreas da Paraíba e do Ceará e chega ao Rio Grande do Norte.
Quando concluído, o ramal poderá atender 54 cidades nos três estados, alcançando aproximadamente 750 mil pessoas.
A transposição ainda está aumentando sua capacidade
Apesar de os Eixos Norte e Leste já estarem em operação, o projeto ainda não atingiu todo o potencial previsto para sua rede de distribuição.
Em agosto de 2026, o acompanhamento oficial registrou:
| Estrutura | Avanço físico |
|---|---|
| Eixo Norte | 99,80% |
| Eixo Leste | 97,13% |
| Ramal do Agreste | 100% |
| Ramal do Apodi | 95,28% |
| Ramal do Salgado | 61,24% |
Além disso, o Governo Federal iniciou a ampliação da capacidade de bombeamento do Eixo Norte, com investimento previsto de R$ 520 milhões. A medida busca aumentar a quantidade de água que o sistema consegue transportar à medida que novos ramais e sistemas estaduais entram em operação.
O planejamento também inclui o Ramal do Piancó, na Paraíba, que deverá ampliar a segurança hídrica de outra área do estado.
Quanto o Nordeste poderá receber no futuro?
Esse é um ponto importante para entender a transposição.
O volume entregue não permanece fixo todos os meses. A ANA estabelece um Plano de Gestão Anual (PGA), que define vazões e volumes para os estados, considerando demanda, capacidade operacional, reservatórios e prioridades de uso. Entretanto, o PGA de 2026 passou por revisões ao longo do ano. A página oficial da ANA registra, inclusive, alterações aprovadas até agosto de 2026.
Por isso, não existe um único número que represente “quanto cada estado recebe todos os anos”. O volume pode mudar conforme as necessidades e as condições de operação.
Além disso, a ANA permite realocações de volumes não utilizados entre períodos, desde que sejam respeitados os limites do sistema e as regras estabelecidas no planejamento.
O que muda com os novos ramais?
A próxima etapa da transposição está justamente na integração com sistemas que aumentam a capilaridade.
O Ramal do Apodi amplia o alcance para o Oeste potiguar e também beneficia áreas da Paraíba e do Ceará.
Já o Ramal do Salgado deve conectar o Eixo Norte ao sistema hídrico do Ceará, enquanto o Cinturão das Águas amplia a distribuição no Cariri.
Contudo, em Pernambuco, o Ramal do Agreste já opera e conecta as águas do PISF à infraestrutura da Adutora do Agreste.
Dessa forma, o mapa da transposição está deixando de representar apenas dois grandes canais. Aos poucos, o sistema incorpora uma rede de ramais, reservatórios, rios e adutoras.
Transposição não significa água diretamente na torneira
Esse é um dos principais pontos para entender os números.
A água entregue pelo PISF é água bruta. Depois do ponto de entrega, cada estado utiliza sua própria infraestrutura para armazenar, transportar, tratar e distribuir o recurso.
Portanto, quando o governo informa que o projeto pode beneficiar 12 milhões de pessoas, isso não significa que 12 milhões de moradores recebem diretamente água da transposição em suas torneiras.
O projeto fornece segurança hídrica para sistemas que abastecem esses municípios.
Segundo o MIDR, aproximadamente 390 municípios fazem parte da área beneficiada e o projeto também alcança 294 comunidades rurais ao longo dos dois eixos.
O cenário atual do São Francisco
Além da operação da transposição, a disponibilidade de água no próprio Rio São Francisco influencia a gestão do sistema.
Em junho de 2026, a ANA informou que o reservatório equivalente do São Francisco estava com 89,15% da capacidade, contra 68,89% no mesmo período de 2025. Sobradinho registrava 85,74% de volume útil e Itaparica, 89,77%.
Ao mesmo tempo, os gestores acompanham as condições climáticas previstas para o segundo semestre. A ANA reuniu os estados nordestinos em julho para discutir os impactos de um possível episódio de El Niño sobre a segurança hídrica regional.
Por isso, a gestão da transposição não depende apenas da existência dos canais. Ela envolve também o nível dos reservatórios, as chuvas, as perdas durante o transporte, a demanda de cada estado e a capacidade das estruturas de bombeamento.

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De onde vem a água e para onde ela vai?
Em resumo, o caminho pode ser entendido assim:
| Origem | Estrutura | Estados atendidos | Exemplos de áreas beneficiadas |
|---|---|---|---|
| Rio São Francisco | Eixo Norte | PE, CE, PB e RN | Sertões, bacias do Jaguaribe e Piranhas-Açu |
| Rio São Francisco | Eixo Leste | PE e PB | Agreste e Sertão |
| Eixo Leste | Ramal do Agreste | PE | Caruaru, Belo Jardim, Arcoverde e outros municípios |
| Eixo Norte | Ramal do Apodi | RN, PB e CE | Oeste potiguar e áreas da Paraíba e Ceará |
| Eixo Norte | Ramal do Salgado | CE | Bacia do Salgado e conexão com o Castanhão |
| Eixo Norte | Cinturão das Águas | CE | Cariri |
Os municípios citados representam áreas incluídas nas estruturas e listas oficiais de beneficiários. A distribuição efetiva da água, entretanto, depende da operação dos sistemas locais e dos reservatórios.
Uma obra que ainda está mudando o mapa da água no Nordeste
A transposição do São Francisco já deixou de ser apenas uma obra em construção e passou para uma fase de operação integrada com os sistemas estaduais.
Portanto, em julho de 2026, os dois eixos entregaram cerca de 34,7 milhões de m³ de água aos estados, enquanto novas obras ampliam a capacidade de levar esse recurso para outras regiões.
Afinal, ao mesmo tempo, o avanço dos ramais mostra que o impacto do projeto não depende apenas dos canais principais. A água do São Francisco entra em uma rede que envolve rios, açudes, adutoras e sistemas de abastecimento.
Por isso, acompanhar a transposição significa acompanhar também uma transformação mais ampla na infraestrutura hídrica do Nordeste — especialmente em uma região onde a disponibilidade de água continua diretamente ligada ao abastecimento das cidades, à produção rural e à segurança durante os períodos de estiagem.


