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O “ouro verde” do Sertão: a planta que salva a alimentação do gado no Nordeste

No meio da paisagem seca do Sertão, uma planta verde, cheia de água e extremamente adaptada às condições do Semiárido se transformou em uma das principais aliadas da pecuária nordestina. É a palma forrageira, conhecida ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
5 de agosto de 2026 - às 10:34
Atualizado 5 de agosto de 2026 - às 10:34
6 min de leitura

No meio da paisagem seca do Sertão, uma planta verde, cheia de água e extremamente adaptada às condições do Semiárido se transformou em uma das principais aliadas da pecuária nordestina. É a palma forrageira, conhecida por muitos produtores como o “ouro verde do Sertão”.

Antes de mais nada, ela pode parecer apenas mais um cacto na paisagem, mas tem uma função econômica fundamental: ajudar a manter bovinos, caprinos e ovinos alimentados justamente quando a falta de chuva reduz drasticamente as pastagens.

A princípio, sua importância é tão grande que a palma deixou de ser apenas como uma reserva emergencial para os períodos de seca. Dessa forma, com manejo adequado, passou a integrar sistemas planejados de produção de leite e criação animal no Semiárido.

Por que a palma é tão importante no Nordeste?

Uma das respostas está dentro da própria planta: água.

Segundo informações técnicas da Embrapa, aproximadamente 90% da matéria verde da palma é composta por água. Essa característica transforma a cultura em uma reserva estratégica para regiões sujeitas a estiagens prolongadas.

Dependendo da categoria e do tamanho do animal, a Embrapa informa que o consumo pode variar aproximadamente entre 20 e 50 quilos de palma por cabeça diariamente.

Além disso, a planta consegue produzir biomassa em condições nas quais muitas outras culturas utilizadas na alimentação animal apresentam dificuldades.

É justamente essa combinação de resistência à seca, produção de alimento e grande quantidade de água que explica por que a palma conquistou tamanha importância na pecuária do Semiárido.

Nem toda palma é igual

Quando se fala em palma forrageira, é importante entender que existem diferentes tipos e variedades cultivadas.

Entre as tradicionalmente encontradas no Nordeste estão a Gigante, Redonda e Miúda. Pesquisas também ampliaram o uso de materiais resistentes à cochonilha-do-carmim, como a Orelha-de-Elefante-Mexicana.

Veja algumas características:

Tipo de palmaCaracterísticaUso/destaque
GiganteRaquetes grandes e ovaladasTradicional na produção de forragem
RedondaRaquetes mais arredondadasTambém utilizada na alimentação animal
Miúda ou DoceRaquetes menores e alongadasMuito palatável e nutritiva
Orelha-de-Elefante-MexicanaRaquetes grandesResistência à cochonilha-do-carmim e boa adaptação ao estresse hídrico
Mão-de-Moça / IPA-SertâniaMaterial selecionadoAlternativa resistente à cochonilha-do-carmim

A Embrapa destaca Orelha-de-Elefante-Mexicana, Miúda ou Doce e Mão-de-Moça entre materiais identificados como resistentes à cochonilha-do-carmim, praga que provocou grandes prejuízos aos palmais nordestinos.

Como a palma vira comida para o gado?

Nas propriedades rurais, as raquetes podem ser colhidas e picadas antes de serem colocadas no cocho.

A palma fornece energia e grande quantidade de água, mas isso não significa que o animal deva viver exclusivamente dela.

Esse é um ponto fundamental.

Por apresentar alto teor de umidade e baixo teor de fibra, a dieta precisa ser equilibrada com outros alimentos. Dependendo do sistema produtivo, entram fontes de fibra e proteína e outros ingredientes definidos de acordo com as necessidades nutricionais do rebanho.

Portanto, a palma funciona melhor como parte de uma dieta balanceada, e não simplesmente como alimento único.

O que a palma oferece ao rebanho

CaracterísticaImportância
Grande quantidade de águaAjuda na hidratação dos animais
Fonte energéticaContribui para a dieta do rebanho
Alta palatabilidadeFacilita o consumo
Produção no SemiáridoGarante alimento durante períodos críticos
Alta produção de massa verdePermite formar reservas de alimento
Uso para várias espéciesBovinos, caprinos e ovinos podem consumi-la

Da sobrevivência à produção de leite

O papel da palma também está mudando.

Durante muito tempo, ela esteve associada principalmente à ideia de salvar o rebanho durante grandes secas. Atualmente, pesquisas mostram que, quando inserida em sistemas de alimentação tecnicamente planejados, pode participar de estratégias destinadas a manter e aumentar a produtividade.

A Embrapa já desenvolveu pesquisas específicas sobre a utilização de Miúda e Orelha-de-Elefante-Mexicana na alimentação de vacas em lactação.

Experimentos foram realizados, inclusive, em Pernambuco, nas estações experimentais de Arcoverde e São Bento do Una, utilizando vacas Girolando e Holandesas.

O avanço do manejo forrageiro no Semiárido reforça uma transformação importante: em vez de esperar a seca chegar para procurar alimento, produtores podem formar previamente áreas de palma e outras reservas forrageiras.

Uma espécie de “caixa-d’água verde” no campo

A comparação ajuda a entender a importância da planta.

Se aproximadamente 90% da palma verde é água, 50 quilos da planta carregam algo próximo de 45 quilos de água em sua composição.

Contudo, isso não significa simplesmente substituir toda a água fornecida aos animais, mas ajuda a explicar por que a cultura é tão estratégica para propriedades do Semiárido.

É alimento e, simultaneamente, uma enorme reserva hídrica armazenada dentro das raquetes.

palma forrageira
Palma forrageira foto reprodução

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A história recente da palma também teve um grande inimigo: a cochonilha-do-carmim. Afinal, a praga atingiu extensas áreas cultivadas e mostrou aos produtores a importância da escolha das variedades.

Segundo a Embrapa, grande parte das áreas plantadas com variedades suscetíveis foi severamente afetada. A pesquisa agropecuária passou, então, a trabalhar com materiais resistentes.

Entre eles aparecem justamente variedades como Miúda, Orelha-de-Elefante-Mexicana e Mão-de-Moça.

Dessa maneira, a escolha da variedade, portanto, não depende apenas de quanto ela produz. Resistência às pragas, adaptação à propriedade, disponibilidade de água, tipo de solo e objetivo do rebanho também precisam entrar na decisão.

A palma forrageira pode ser encontrada em todo o Nordeste.

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Não é por acaso que a palma ganhou o apelido de “ouro verde”.

Ela não chama atenção pelo valor de uma única planta, mas pelo que representa quando a chuva desaparece: alimento disponível, água armazenada, manutenção do rebanho e possibilidade de preservar a renda das famílias rurais.

Portanto, em uma região na qual produzir depende cada vez mais de conviver com a irregularidade das chuvas, a palma mostra que uma das maiores riquezas do Sertão pode estar justamente nas fileiras verdes plantadas no meio da Caatinga.

Sendo assim, mais do que uma planta resistente, ela se tornou uma verdadeira reserva estratégica de alimento para a pecuária nordestina.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.