A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre milhares de produtos brasileiros entrou em vigor nesta quarta-feira (22), mas seus efeitos já eram percebidos no Nordeste meses antes.
De acordo com dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), oito dos nove estados da região registraram queda nas exportações para o mercado norte-americano no primeiro semestre de 2026, enquanto empresas começaram a buscar novos compradores para reduzir a dependência dos Estados Unidos.
Entre janeiro e junho, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 13%, o equivalente a US$ 2,6 bilhões. No Nordeste, as vendas somaram US$ 1,25 bilhão, com retração em quase toda a região.
A princípio, a Paraíba foi o único estado nordestino a registrar crescimento nas exportações para os EUA, com alta de 5,9%. Nos demais estados, as quedas variaram de 0,6%, no Maranhão, a 72% no Rio Grande do Norte, o pior resultado do país.
Queda não atingiu apenas o agronegócio
Embora frutas, açúcar e pescados estejam entre os produtos mais lembrados quando se fala das exportações nordestinas, o levantamento da CNI mostra que a desaceleração foi muito mais ampla.
Além do agronegócio, houve redução nas vendas externas de importantes produtos industriais e minerais, como:
- semimanufaturados de ferro e aço;
- ferro fundido bruto;
- pasta química de madeira (celulose);
- derivados de petróleo;
- ligas metálicas.
Os dados indicam que a insegurança comercial afetou diversos segmentos da economia brasileira antes mesmo da entrada em vigor da nova tarifa. a incerteza sobre a política comercial norte-americana afetou negociações antes da entrada em vigor da medida.
Queda atinge diferentes estados
Entre os destaques do levantamento estão:
| Estado | Exportações aos EUA | Variação |
|---|---|---|
| Ceará | US$ 349,8 milhões | – 36,9% |
| Bahia | US$ 373,2 milhões | -14% |
| Maranhão | US$ 332,9 milhões | -0,6% |
| Sergipe | US$ 94,3 milhões | -35,9% |
| Pernambuco | US$ 35,9 milhões | -33,4% |
| Rio Grande do Norte | US$ 27 milhões | -72% |
| Paraíba | — | +5,9% |
Ceará já começou a mudar de estratégia
O Ceará aparece como um dos exemplos mais claros dessa mudança.
As exportações do estado para os Estados Unidos caíram 36,9%, totalizando US$ 349,8 milhões no semestre.
Segundo maior exportador brasileiro de calçados, o Ceará já observava redução nas vendas do setor para o mercado americano e passou a redirecionar parte da produção para o México, que se tornou o terceiro principal destino das exportações cearenses em 2026.
O movimento demonstra que empresas já buscavam alternativas antes mesmo da entrada em vigor da sobretaxa de 25%.
Diversificar mercados passa a ser prioridade
Para o especialista Luciano, ouvido pela CNI, encontrar novos compradores é uma estratégia indispensável, porém de médio e longo prazo.
Segundo ele, substituir um mercado do tamanho dos Estados Unidos envolve negociações comerciais complexas, adaptações sanitárias e certificações específicas.
“Encontrar novos compradores não acontece da noite para o dia. Cada mercado possui regras sanitárias, exigências técnicas, padrões de certificação e canais próprios de distribuição. Substituir os Estados Unidos exige tempo, investimento e negociação.”

Com o mercado norte-americano mais restritivo, especialistas em comércio exterior avaliam que ampliar a presença em outros destinos será fundamental para reduzir a dependência dos Estados Unidos.
Entre os mercados com maior potencial para os produtos nordestinos estão:
- União Europeia, que já importa frutas, cacau, café, celulose, pescados e produtos agroindustriais brasileiros;
- China, com demanda crescente por alimentos, proteínas, minerais e produtos do agronegócio;
- Oriente Médio, importante comprador de açúcar, carnes, frutas e alimentos processados;
- Sudeste Asiático, onde países como Vietnã, Indonésia, Malásia e Singapura ampliam as importações de alimentos e matérias-primas;
- Índia, mercado em expansão para produtos agrícolas, químicos e minerais;
- América Latina, especialmente Chile, Colômbia, México e Argentina, que oferecem vantagens logísticas e acordos comerciais para diversos setores.
Para estados nordestinos exportadores de frutas, pescados, açúcar, calçados e produtos industriais, a diversificação pode reduzir os impactos das barreiras comerciais e abrir novas oportunidades de crescimento.

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Nordeste busca reduzir dependência dos EUA
Embora os Estados Unidos continuem sendo um parceiro estratégico para diversos segmentos da economia regional, o cenário atual reforça a necessidade de ampliar a inserção internacional das empresas nordestinas.
A aposta em novos mercados, aliada a investimentos em competitividade, certificações internacionais e acordos comerciais, tende a ganhar ainda mais importância diante das mudanças no comércio global.
Produtos nordestinos com potencial em novos mercados
| Produto | Mercados com maior potencial |
|---|---|
| Frutas frescas | União Europeia, Oriente Médio e Ásia |
| Açúcar | Oriente Médio, África e Ásia |
| Calçados | América Latina e Europa |
| Celulose | China e União Europeia |
| Pescados | União Europeia e Ásia |
| Cacau e derivados | Europa, Canadá e Ásia |


