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O que muda nas exportações do Nordeste com novo Tarifaço dos EUA

O Governo dos Estados Unidos elevou a tensão comercial com o Brasil ao concluir uma investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana e propor uma tarifa adicional de 25% sobre mercadorias brasileiras. ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
2 de junho de 2026 - às 07:51
Atualizado 2 de junho de 2026 - às 07:51
5 min de leitura

O Governo dos Estados Unidos elevou a tensão comercial com o Brasil ao concluir uma investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana e propor uma tarifa adicional de 25% sobre mercadorias brasileiras. Caso seja confirmada após as audiências públicas previstas para junho e julho, a medida poderá entrar em vigor a partir de 15 de julho de 2026.

Embora diversos produtos tenham sido incluídos em uma lista de exceções, a decisão acendeu um alerta entre exportadores brasileiros. Antes de mais nada, pode afetar diretamente segmentos importantes da economia nordestina, especialmente aqueles que dependem do mercado norte-americano.

Ao mesmo tempo, especialistas apontam que o recém-assinado acordo entre Mercosul e União Europeia pode ganhar ainda mais importância e funcionar como uma alternativa estratégica para empresas da região reduzirem sua dependência dos Estados Unidos.

O Nordeste pode sentir os impactos

A princípio, os Estados Unidos continuam entre os principais destinos das exportações brasileiras de produtos industrializados, alimentos processados e itens ligados ao agronegócio.

Dessa forma, no Nordeste, alguns segmentos possuem forte exposição ao mercado norte-americano.

Setores nordestinos potencialmente afetados

SegmentoPrincipais estados
Pescados e camarãoCeará, Rio Grande do Norte e Bahia
CalçadosCeará, Bahia e Paraíba
Têxtil e confecçõesCeará, Pernambuco e Rio Grande do Norte
Rochas ornamentaisBahia e Ceará
Produtos químicos e petroquímicosBahia e Sergipe
Açúcar e derivadosPernambuco, Alagoas e Paraíba

A boa notícia para parte do agronegócio nordestino é que a lista preliminar divulgada pelos Estados Unidos inclui exceções para diversos produtos agrícolas, como algumas frutas, café, especiarias, sementes e determinados produtos alimentícios.

Mesmo assim, o setor exportador acompanha com cautela as discussões, já que o texto final ainda pode sofrer alterações após o período de consulta pública.

Vale do São Francisco pode encontrar saída na Europa

Os vinhedos do Nordeste ficam no Vale do São Francisco

Um dos exemplos mais interessantes envolve o polo de fruticultura irrigada do Vale do São Francisco, responsável por grande parte das exportações brasileiras de manga e uva.

Recentemente, produtores da região comemoraram avanços relacionados ao acordo Mercosul-União Europeia, que prevê redução ou eliminação gradual de tarifas para diversos produtos agrícolas brasileiros.

Caso o mercado norte-americano fique mais restritivo, empresas da Bahia e de Pernambuco podem acelerar a estratégia de ampliação das vendas para países europeus.

Produtos nordestinos que podem ganhar espaço na Europa

ProdutoRegião produtora
MangaVale do São Francisco
UvaVale do São Francisco
MelãoRio Grande do Norte e Ceará
MelanciaCeará e Bahia
Café especialBahia
Cacau e derivadosBahia
PescadosLitoral Nordeste
Vinhos tropicaisPernambuco e Bahia

O acordo Mercosul-União Europeia ganha importância

Negociado por mais de duas décadas, o acordo entre Mercosul e União Europeia é considerado um dos maiores tratados comerciais do mundo.

Quando estiver plenamente implementado, o acordo criará uma área econômica envolvendo mais de 700 milhões de consumidores.

Entre os principais benefícios previstos estão:

  • redução gradual de tarifas de importação;
  • maior acesso de produtos agrícolas brasileiros;
  • ampliação da competitividade da indústria exportadora;
  • facilitação de investimentos;
  • fortalecimento da integração logística.

Para o Nordeste, o acordo tem potencial ainda maior por causa da crescente internacionalização de setores como agronegócio, energias renováveis, turismo e indústria alimentícia.

Quem pode sair ganhando

Paradoxalmente, a crise comercial com os Estados Unidos pode acelerar movimentos que já estavam em curso.

Nos últimos anos, empresas nordestinas vêm buscando diversificar mercados para reduzir a dependência de poucos compradores internacionais.

Mercados que ganham relevância

MercadoOportunidades
União EuropeiaAlimentos, frutas e bebidas
ChinaCommodities e proteína animal
Oriente MédioAlimentos halal e frutas
Sudeste AsiáticoAgronegócio e alimentos processados
ÁfricaProdutos industriais e alimentos

Especialistas em comércio exterior avaliam que a tendência global aponta para uma maior diversificação dos parceiros comerciais, reduzindo a concentração das exportações em poucos destinos.

O que acontece agora

Antes de qualquer tarifa entrar em vigor, o governo norte-americano ainda realizará audiências públicas e receberá manifestações de empresas, associações empresariais e representantes do comércio internacional.

Próximas datas

DataEvento
22 de junhoPrazo para solicitar participação na audiência
1º de julhoEncerramento do envio de manifestações escritas
6 de julhoAudiência pública nos EUA
15 de julhoPrazo legal para decisão final

Até lá, exportadores brasileiros acompanham as negociações com atenção.

Portanto, para o Nordeste, o cenário é de cautela, mas também de oportunidade. Se por um lado o tarifaço pode criar obstáculos em um dos maiores mercados consumidores do planeta, por outro pode acelerar a abertura de portas na Europa justamente no momento em que o acordo Mercosul-União Europeia começa a ganhar forma.

Afinal, em uma região que já exporta frutas, vinhos, pescados, energia limpa e produtos industrializados para dezenas de países, a diversificação dos mercados pode se transformar na principal resposta a um novo ciclo de tensões comerciais globais.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.