Um equipamento capaz de realizar em segundos cálculos que computadores convencionais poderiam levar anos para concluir pode transformar o Rio Grande do Norte em um dos principais centros de inteligência artificial e computação de alto desempenho do Brasil.
É esse o tamanho da disputa que envolve a possível instalação no estado da nova infraestrutura de supercomputação prevista no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA).
Avaliada em R$ 1,8 bilhão, a iniciativa do Governo Federal pretende ampliar radicalmente a capacidade brasileira de processamento de alto desempenho e colocar o país entre as maiores potências mundiais nessa área.
Nesta segunda-feira (3), o projeto voltou ao centro das atenções durante visita da governadora Fátima Bezerra e da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, ao Parque Estadual Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), em Macaíba, na Região Metropolitana de Natal.
O Governo do Rio Grande do Norte trabalha para que a estrutura seja instalada no PAX.
Mas por que um supercomputador desse porte é tão importante e o que o Nordeste poderia ganhar caso o projeto realmente venha para o RN?

Primeiro: o que é um supercomputador?
O nome ajuda a imaginar, mas não se trata simplesmente de um computador comum muito maior.
A princípio, supercomputadores reúnem enorme capacidade de processamento e conseguem realizar simultaneamente quantidades gigantescas de cálculos.
Essa capacidade é utilizada em tarefas que exigem processamento pesado de dados, como:
- desenvolvimento e treinamento de inteligência artificial;
- pesquisas científicas;
- previsões meteorológicas e climáticas;
- simulações industriais;
- pesquisas sobre novos materiais;
- estudos de energia;
- saúde e desenvolvimento de medicamentos;
- engenharia;
- análise de grandes bancos de dados.
A capacidade computacional tornou-se ainda mais estratégica com a expansão da inteligência artificial.
Assim treinar grandes modelos de IA exige milhares de processadores trabalhando simultaneamente e uma infraestrutura que poucos países possuem em grande escala.
Projeto faz parte do plano brasileiro para entrar na corrida da IA
O supercomputador faz parte do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028, estratégia do governo federal que prevê cerca de R$ 23 bilhões em investimentos.
Entre os objetivos do PBIA está dotar o Brasil de infraestrutura tecnológica avançada, desenvolver modelos de inteligência artificial em português utilizando dados nacionais, formar profissionais especializados e ampliar a aplicação da IA nos serviços públicos.
A estratégia também prevê infraestrutura de computação alimentada por fontes renováveis de energia.
É justamente aí que o Rio Grande do Norte enxerga uma de suas principais vantagens.
Por que o Rio Grande do Norte quer o supercomputador?
Supercomputadores consomem enormes quantidades de energia.
Além de alimentar milhares de processadores, é necessário manter sistemas complexos de refrigeração funcionando continuamente.
O Rio Grande do Norte argumenta que possui uma combinação favorável para receber essa infraestrutura: grande produção de energia renovável, disponibilidade energética, universidades e instituições científicas e um parque tecnológico já estruturado.
O estado é uma das principais potências brasileiras em geração de energia eólica e vem ampliando também a geração solar.
Essa disponibilidade pode se transformar em vantagem competitiva para atividades intensivas em eletricidade, como centros de processamento de dados e supercomputação.
PAX pode virar centro de uma nova economia tecnológica

O local defendido pelo Governo do RN para receber o projeto é o Parque Estadual Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX).
Instalado em Macaíba, o parque ocupa uma área de aproximadamente 50 hectares, dos quais cerca de 15 mil metros quadrados são de área construída.
Atualmente, reúne 22 empresas e instituições.
Nas proximidades também estão o Instituto Santos Dumont (ISD) e o Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra (IIN-ELS).
A ideia é criar um ambiente no qual universidades, pesquisadores, empresas, startups e governo trabalhem próximos.
É o chamado modelo da Tríplice Hélice, no qual universidade, setor produtivo e poder público colaboram para transformar pesquisa científica em produtos, empresas e desenvolvimento econômico.
O que o supercomputador poderia trazer para o Nordeste?
O impacto potencial vai muito além da instalação de uma máquina.
Uma infraestrutura desse porte funciona como uma espécie de ímã para atividades tecnológicas.
1. Atrair empresas de tecnologia
Empresas que desenvolvem inteligência artificial, processamento de dados, softwares científicos, energia e soluções digitais dependem cada vez mais de capacidade computacional.
Ter acesso próximo a uma infraestrutura de alto desempenho pode ajudar a criar um ambiente favorável para a instalação dessas empresas.
O efeito pode alcançar startups, centros de pesquisa corporativos e fornecedores especializados.
2. Segurar talentos formados no Nordeste
Universidades nordestinas formam engenheiros, cientistas da computação, físicos, matemáticos e pesquisadores altamente qualificados.
Uma dificuldade histórica é manter parte desses profissionais na região quando as maiores oportunidades tecnológicas estão concentradas em outros centros.
Um polo de supercomputação pode ajudar a criar empregos altamente especializados e ampliar oportunidades para pesquisadores e estudantes.
3. Fortalecer UFRN e universidades da região
O benefício não ficaria necessariamente limitado ao Rio Grande do Norte. Uma infraestrutura nacional de computação de alto desempenho pode atender pesquisadores de diferentes instituições.
Áreas como inteligência artificial, engenharia, física, química, biotecnologia, saúde, oceanografia, meteorologia e energia poderiam utilizar sua capacidade de processamento.
O próprio PBIA estabelece como objetivo ampliar a capacidade brasileira para pesquisas que dependem de computação de alto desempenho.
4. Desenvolver inteligência artificial no Brasil
Hoje, grande parte da infraestrutura de IA mais avançada está concentrada em empresas e centros de processamento instalados fora do país.
Dessa maneira, ter capacidade computacional própria é uma questão estratégica.
O PBIA prevê, por exemplo, o desenvolvimento de modelos avançados de linguagem em português treinados com dados nacionais e capazes de representar melhor a diversidade cultural, social e linguística brasileira.
Para isso, processamento é fundamental.
5. Criar aplicações para problemas do próprio Nordeste
Aqui está um benefício que pode ser especialmente importante para a região.
A supercomputação poderia ser utilizada em pesquisas relacionadas a problemas tipicamente nordestinos.
Modelos poderiam auxiliar estudos sobre seca, disponibilidade de água, desertificação, previsão climática, agricultura no Semiárido e gestão de recursos hídricos.
Contudo, na área energética, a capacidade computacional poderia contribuir para previsão da geração eólica e solar, desenvolvimento de novos materiais e otimização de redes elétricas.
Na saúde, poderia apoiar pesquisas genéticas, análise de imagens, desenvolvimento de medicamentos e aplicações de inteligência artificial.
Ou seja, a infraestrutura não precisaria servir apenas à indústria digital.
Energia renovável pode ser o grande diferencial do RN
A energia é um dos pontos centrais da discussão.
O próprio Plano Brasileiro de Inteligência Artificial estabelece como objetivo desenvolver infraestrutura tecnológica de alta capacidade de processamento alimentada por energias renováveis.
Além disso, nesse aspecto, o Nordeste possui uma vantagem natural. Rio Grande do Norte, Bahia, Ceará, Piauí e outros estados concentram uma parcela significativa da produção brasileira de energia eólica e solar.
A possível instalação do equipamento em território potiguar poderia aproximar duas cadeias econômicas que tendem a crescer nas próximas décadas: energia renovável e inteligência artificial.
Um supercomputador também precisa de muita infraestrutura
Receber um equipamento dessa dimensão, entretanto, não depende apenas de espaço físico.
Dessa maneira, supercomputadores exigem fornecimento de energia extremamente confiável, sistemas de refrigeração, conectividade de altíssima velocidade, segurança física e digital e profissionais altamente especializados.
Em janeiro, representantes do MCTI explicaram que a definição da infraestrutura precisa considerar justamente requisitos como grande disponibilidade energética e condições adequadas para refrigeração.
Por isso, a localização ainda é uma questão estratégica.
RN ainda disputa o projeto
Apesar do avanço da articulação política do Governo do Rio Grande do Norte, a instalação do supercomputador no PAX ainda não deve ser tratada como definida.
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação vem avaliando alternativas para receber a infraestrutura.
Em maio, por exemplo, o próprio Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, em Campinas (SP), informou oficialmente que também poderia receber o novo datacenter de computação de alto desempenho. Além disso, a definição envolve estudos técnicos e requisitos relacionados à infraestrutura.
O projeto federal prevê capacidade na escala de 1 exaflop, segundo informações divulgadas pelo CTI Renato Archer, patamar equivalente a um quintilhão de operações de ponto flutuante por segundo.
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PAX já começa a criar um ecossistema tecnológico
Independentemente da definição sobre o supercomputador, o PAX representa uma tentativa de criar no Rio Grande do Norte um ambiente semelhante aos parques tecnológicos existentes em grandes centros de inovação.
Contudo, o projeto começou a ser estruturado em 2019 e teve sua implantação consolidada a partir de 2022, com o Marco Legal Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação.
O parque trabalha com áreas como indústria 4.0, energia, tecnologias sustentáveis, minerais críticos, educação e inteligência artificial.
Mas, a presença de empresas e instituições no mesmo ambiente permite que uma pesquisa desenvolvida dentro da universidade, por exemplo, encontre parceiros para transformá-la em produto ou negócio.
Do vento à inteligência artificial
A chegada do supercomputador acrescentaria uma nova dimensão à transformação econômica que o Nordeste tenta construir.
Portanto, durante décadas, uma das vantagens competitivas da região esteve associada principalmente aos seus recursos naturais, à agricultura, ao turismo e posteriormente à geração de energia renovável.
Agora, a abundância de sol e vento pode ajudar a sustentar uma atividade completamente diferente: processamento de dados e inteligência artificial.
Caso o PAX seja escolhido, o Rio Grande do Norte deixaria de ser apenas um grande produtor da energia necessária à nova economia digital para tentar ocupar também uma posição dentro dela.
Afinal, e é justamente esse o principal significado do projeto para a região: transformar a vantagem energética do Nordeste em ciência, tecnologia, empresas, empregos qualificados e conhecimento produzido dentro do próprio território.


