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Independência do Brasil: 8 cidades do NE onde a história ainda pode ser visitada

De batalhas e revoltas a proclamações e adesões ao Império, cidades nordestinas participaram do 7 de setembro Quando se fala em Independência do Brasil, a imagem mais conhecida é a de Dom Pedro às margens ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
22 de agosto de 2026 - às 10:44
Atualizado 22 de agosto de 2026 - às 10:44
12 min de leitura

De batalhas e revoltas a proclamações e adesões ao Império, cidades nordestinas participaram do 7 de setembro

Quando se fala em Independência do Brasil, a imagem mais conhecida é a de Dom Pedro às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo, em 7 de setembro de 1822. Mas a separação de Portugal não aconteceu de uma só vez e nem foi resolvida apenas no Sudeste.

No Nordeste, a Independência envolveu revoltas, batalhas, disputas políticas e adesões que se estenderam por meses depois do 7 de Setembro. Em algumas cidades, a luta foi militar; em outras, movimentos políticos anteriores ajudaram a criar o ambiente para a ruptura com Portugal.

Hoje, muitos desses lugares continuam preservados e podem ser visitados.

É possível, portanto, montar praticamente um roteiro turístico pela história da Independência no Nordeste, passando por Pernambuco, Bahia, Piauí e Maranhão.

E há um detalhe que torna essa viagem ainda mais interessante: em alguns desses lugares, a história aconteceu meses depois de Dom Pedro declarar a Independência.

O Nordeste teve várias “independências”

Revolução Pernambucana de 1817
Revolução Pernambucana de 1817 Foto: Domínio Público

A própria documentação histórica ajuda a entender por que o processo não pode ser resumido ao 7 de Setembro.

A Independência foi resultado de um processo político e militar que envolveu diferentes partes do território. No Nordeste, movimentos como a Revolução Pernambucana de 1817 já defendiam ideias de ruptura e autonomia antes da declaração de 1822.

Na Bahia, a guerra contra as tropas portuguesas continuou até julho de 1823. No Piauí, uma das batalhas decisivas aconteceu em março de 1823. No Maranhão, a adesão ao Império só foi formalizada em julho daquele ano.

Ou seja: para boa parte do Nordeste, a Independência ainda estava sendo disputada quando o Brasil já havia celebrado o 7 de Setembro.

1. Cachoeira, Bahia: uma das primeiras cidades a desafiar Portugal

No Recôncavo Baiano, Cachoeira ocupa um lugar especial na história da Independência.

A cidade se tornou um dos principais focos da resistência baiana contra as tropas portuguesas em 1822. A luta pela Independência na Bahia não foi apenas política: transformou-se em uma guerra que envolveu diferentes localidades, incluindo Cachoeira, Salvador, Itaparica e Pirajá.

O episódio de 25 de junho de 1822, em Cachoeira, é lembrado como um dos marcos do movimento que levou à guerra pela Independência da Bahia.

A cidade preserva até hoje um importante conjunto histórico e arquitetônico. Seu conjunto urbano e paisagístico foi tombado pelo Iphan, e caminhar pelas ruas de Cachoeira significa encontrar igrejas, casarões e espaços que ajudam a imaginar a sociedade do início do século XIX.

Para quem gosta de turismo histórico, é uma das paradas mais interessantes do roteiro.

O que conhecer

  • Centro histórico;
  • Igrejas e casarões coloniais;
  • Rio Paraguaçu;
  • Espaços relacionados à memória da Independência;
  • São Félix, cidade vizinha ligada à história do Recôncavo.

2. Salvador, Bahia: a Independência da Bahia é comemorada em 2 de julho

Poucas cidades nordestinas conseguem transformar a memória da Independência em uma festa popular tão forte quanto Salvador.

Enquanto o calendário nacional comemora o 7 de Setembro, a Bahia celebra sua independência em 2 de julho.A data marca a vitória das forças brasileiras e a saída definitiva das tropas portuguesas de Salvador, em 1823.

A guerra na Bahia foi uma das principais frentes militares do processo de Independência e terminou quase um ano depois da declaração de Dom Pedro.

O Cortejo do Dois de Julho mantém essa memória viva e percorre pontos tradicionais de Salvador. A manifestação é reconhecida como patrimônio cultural pelo Estado da Bahia.

A cidade também possui um dos conjuntos históricos mais importantes do Brasil. O Centro Histórico de Salvador é reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial.

Para o turista

Um roteiro histórico pode incluir:

  • Lapinha;
  • Centro Histórico;
  • Pelourinho;
  • Campo Grande;
  • monumentos do Dois de Julho;
  • locais ligados à memória da guerra pela Independência.

Curiosidade: a Bahia não considera o 2 de julho apenas uma comemoração regional. A data é tratada como um dos momentos fundamentais da construção da identidade baiana.

3. Oeiras, Piauí: a adesão que colocou o Piauí ao lado da Independência

A antiga capital do Piauí também entrou diretamente na história.

Em 24 de janeiro de 1823, Oeiras proclamou a adesão do Piauí à Independência do Brasil, sob a liderança de Manuel de Sousa Martins.

Isso aconteceu mais de quatro meses depois do 7 de Setembro. A movimentação, porém, não significou o fim da guerra.

As forças portuguesas comandadas pelo major João José da Cunha Fidié reagiram e iniciaram uma campanha militar para recuperar o controle da província.

É justamente aí que a história de Oeiras se conecta a outro destino da nossa lista: Campo Maior.

O que conhecer em Oeiras

A cidade foi capital do Piauí por 92 anos e preserva importante conjunto histórico, além de igrejas e construções ligadas ao período colonial e imperial.

Para quem quer fazer turismo histórico no estado, Oeiras funciona como uma espécie de porta de entrada para entender a participação piauiense na Independência.

4. Campo Maior, Piauí: a batalha que aconteceu depois do 7 de Setembro

Se existe um lugar que ajuda a desmontar a ideia de que a Independência foi resolvida em 7 de setembro de 1822, esse lugar é Campo Maior.

Foi ali, em 13 de março de 1823, que ocorreu a Batalha do Jenipapo, um dos principais confrontos militares relacionados à Independência no Nordeste.

A batalha aconteceu meses depois do grito do Ipiranga e envolveu tropas portuguesas e forças que defendiam a adesão do Piauí ao novo Império.

A mobilização reuniu militares e muitos sertanejos, que participaram do confronto às margens do rio Jenipapo.

O episódio é considerado fundamental para impedir o avanço das forças portuguesas em direção ao interior e integra a memória histórica do processo de Independência do Brasil.

LEIA MAIS – Conheça a Batalha do Jenipapo, um marco histórico do Nordeste

O que visitar

O Monumento Nacional do Jenipapo e o espaço de memória da batalha permitem ao visitante conhecer melhor esse episódio.

É uma das paradas mais interessantes para quem gosta de história militar brasileira.

Um detalhe que chama atenção

A Batalha do Jenipapo aconteceu mais de seis meses depois do 7 de Setembro.

É um dos melhores exemplos de como a Independência foi um processo muito mais longo e complexo do que a imagem tradicional apresentada nos livros escolares.

5. Recife, Pernambuco: a revolução que aconteceu cinco anos antes

recife-antigo-roteiro
Recife antigo foto divulgação

Recife entra nessa história ainda antes de Dom Pedro proclamar a Independência.

Em 1817, Pernambuco foi palco de uma revolução que rompeu com o governo português e instalou um governo republicano.

O movimento durou cerca de 75 dias e defendia ideias como liberdade de imprensa, liberdade religiosa e maior autonomia política. A Biblioteca Nacional considera a Revolução Pernambucana um importante marco da história brasileira e uma forte sinalização de que a Independência não tardaria.

O movimento foi derrotado pelas tropas da Coroa, mas deixou uma marca profunda na política pernambucana.

E parte dessa história pode ser visitada hoje.

A Prefeitura do Recife instalou placas históricas em pontos relacionados à Revolução de 1817, incluindo o Forte das Cinco Pontas, um dos locais ligados à memória do movimento.

revolução pernambucana 1817
revolução pernambucana 1817

LEIA MAIS – Data Magna de Pernambuco: estado celebra Revolução de 1817

Um passeio histórico pelo Recife

O turista interessado nesse período pode incluir:

  • Forte das Cinco Pontas;
  • Casa da Cultura;
  • Recife Antigo;
  • ruas e monumentos ligados aos revolucionários;
  • espaços relacionados à memória de 1817.

A Revolução Pernambucana é importante porque mostra que as ideias de independência e autonomia já circulavam no Nordeste muito antes de 1822.

6. Olinda, Pernambuco: a cidade histórica que ajuda a contar essa história

Vizinha do Recife, Olinda não deve ser apresentada como palco direto da proclamação da Independência.

Seu papel é outro: a cidade ajuda a entender o ambiente político, econômico, religioso e social de Pernambuco que antecedeu a Independência.

Olinda foi um dos principais centros da sociedade colonial pernambucana e preserva um dos conjuntos históricos mais importantes do Brasil.

O Centro Histórico de Olinda foi tombado pelo Iphan em 1968 e reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco em 1982. O conjunto reúne cerca de 1.500 imóveis em uma área de 1,2 km².

O que o visitante encontra

  • Igreja da Sé;
  • Convento de São Francisco;
  • igrejas barrocas;
  • casarões coloniais;
  • ladeiras históricas;
  • mirantes;
  • ateliês e espaços culturais.

Olinda funciona, portanto, como uma espécie de museu a céu aberto do período colonial e imperial.

7. São Luís, Maranhão: quando o Maranhão aderiu à Independência

Em São Luís, a história mostra novamente que o processo de Independência demorou a chegar a algumas partes do país.

A Câmara Geral reunida na cidade proclamou a adesão da província do Maranhão ao Império brasileiro em 28 de julho de 1823.

Ou seja, quase 11 meses depois do 7 de Setembro.

A adesão foi precedida por conflitos e disputas políticas e militares. Documentos preservados pelo Arquivo Público do Maranhão registram manifestações favoráveis e contrárias à Independência, além da atuação de tropas ligadas ao movimento.

Hoje, São Luís oferece uma das melhores experiências de turismo histórico do Nordeste.

Seu Centro Histórico é Patrimônio Mundial desde 1997 e reúne milhares de edificações dos períodos colonial e imperial. Entre os destaques estão o Palácio dos Leões, a Catedral, o Convento das Mercês, a Casa das Minas e o Teatro Arthur Azevedo.

Para quem gosta de história

É possível passar horas caminhando pelas ruas de azulejos, sobrados e casarões do Centro Histórico.

E o mais interessante é que o cenário urbano preservado ajuda a contextualizar a época em que a Independência chegou ao Maranhão.

8. Caxias, Maranhão: um dos últimos capítulos da resistência

A última parada do roteiro leva o visitante ao interior do Maranhão.

Caxias também aparece diretamente na história da adesão do Maranhão à Independência.

Documentos do Arquivo Público do Maranhão registram o juramento da Independência do Império na Igreja Matriz de Caxias das Aldeias Altas em 7 de agosto de 1823.

A cidade foi um dos últimos focos de resistência portuguesa no Maranhão.

A importância de Caxias mostra novamente que a Independência foi um processo territorialmente desigual: enquanto algumas cidades já haviam aderido ao Império, outras ainda estavam envolvidas em conflitos.

Uma viagem pela Independência do Brasil

Mais do que uma lista de cidades históricas, esses destinos permitem montar uma verdadeira linha do tempo da Independência pelo Nordeste.

DataCidadeO que aconteceu
1817RecifeRevolução Pernambucana rompeu com o domínio português
25/06/1822CachoeiraMovimento baiano ganha força na luta contra Portugal
07/09/1822São PauloDom Pedro proclama a Independência
24/01/1823OeirasPiauí proclama adesão à Independência
13/03/1823Campo MaiorBatalha do Jenipapo
02/07/1823SalvadorTropas portuguesas deixam a Bahia
28/07/1823São LuísMaranhão proclama adesão ao Império
07/08/1823CaxiasJuramento da Independência

Essa sequência ajuda a entender por que a história da Independência brasileira não cabe em uma única data.

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O patrimônio virou também uma experiência turística

Há outra razão para esses destinos ganharem espaço no turismo: boa parte deles preserva conjuntos urbanos, igrejas, monumentos, museus e espaços públicos que permitem ao visitante conhecer a história caminhando pelas próprias cidades.

Salvador, Olinda e São Luís, por exemplo, possuem centros históricos reconhecidos internacionalmente pela Unesco. O patrimônio histórico também movimenta economia, cultura, gastronomia, artesanato, guias turísticos, hospedagem e serviços.

O turista não precisa necessariamente fazer uma viagem exclusivamente histórica.

É possível combinar:

praia + gastronomia + cultura + patrimônio + história.

Em Salvador, por exemplo, o visitante pode conhecer o Centro Histórico e depois seguir para o litoral. Em Recife e Olinda, é possível combinar patrimônio e cultura com a gastronomia pernambucana. No Maranhão, São Luís pode ser conectada a outros destinos turísticos do estado.

O Nordeste tem sua própria narrativa da Independência

Talvez essa seja a principal conclusão dessa viagem.

A Independência do Brasil não foi um acontecimento instantâneo ocorrido em um único lugar.

Foi um processo.

Em Pernambuco, ideias republicanas e de autonomia já haviam provocado uma revolução em 1817.

Na Bahia, a separação de Portugal virou uma guerra que só terminou em julho de 1823.

No Piauí, a luta passou por Oeiras e pela Batalha do Jenipapo.

No Maranhão, a adesão aconteceu somente no segundo semestre de 1823.

E hoje, em muitas dessas cidades, o visitante ainda pode encontrar igrejas, ruas, monumentos, documentos, museus e conjuntos arquitetônicos que ajudam a contar essa história.

Por isso, na próxima vez que alguém falar que a Independência do Brasil aconteceu apenas às margens do Ipiranga, vale lembrar: o Nordeste também foi campo de batalha, palco de revoluções e cenário de algumas das páginas decisivas da formação do Brasil.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.