“Feito Pipa”, dirigido pelo cearense Allan Deberton, e “A Fabulosa Máquina do Tempo”, gravado no sertão do Piauí, estão entre os seis finalistas que disputam a indicação brasileira
O Nordeste chegou à reta final da corrida brasileira pelo Oscar 2027 com duas produções que carregam diferentes retratos da região. Entre os seis filmes pré-selecionados pela Academia Brasileira de Cinema, “Feito Pipa”, do diretor cearense Allan Deberton, e “A Fabulosa Máquina do Tempo”, gravado em Guaribas, no sertão do Piauí, levam histórias nordestinas para uma disputa que será definida na próxima semana.
A Academia Brasileira de Cinema escolheu os seis finalistas entre 15 produções habilitadas. Agora, a comissão fará a escolha final em 16 de setembro, quando anunciará o filme que representará o Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027.
A presença das duas obras chama atenção porque elas apresentam o Nordeste por perspectivas diferentes. Enquanto “Feito Pipa” aposta na ficção para contar uma história de infância, afeto e preconceito no interior do Ceará, o documentário “A Fabulosa Máquina do Tempo” acompanha meninas de Guaribas e transforma suas próprias histórias, sonhos e visões sobre o futuro em matéria cinematográfica.
“Feito Pipa” leva o Ceará para a disputa
Dirigido pelo cearense Allan Deberton, “Feito Pipa” acompanha Gugu, um menino de 11 anos que vive em uma pequena cidade do Ceará com a avó, Dilma.
O garoto gosta de futebol, mas também de se maquiar, dançar e pintar as unhas. A liberdade que encontra dentro de casa entra em conflito com a postura do pai, enquanto a saúde da avó se deteriora por causa do Alzheimer. A partir daí, Gugu passa a enfrentar a possibilidade de deixar a casa onde cresceu.
O filme foi gravado em Quixadá, no sertão central do Ceará, e nasceu de um roteiro desenvolvido no Laboratório de Cinema da Escola Porto Iracema das Artes, em Fortaleza.
Além da conexão regional, “Feito Pipa” chega à disputa com uma trajetória internacional importante. O longa conquistou o Urso de Cristal de melhor filme e o grande prêmio do júri internacional na mostra Generation Kplus do Festival de Berlim. Depois, também ganhou destaque no Festival de Gramado, onde Allan Deberton recebeu o prêmio de melhor direção.
Assim, o filme cearense chega à decisão brasileira com uma combinação importante: temática nordestina, direção de um cineasta da região e reconhecimento em festivais internacionais.

“A Fabulosa Máquina do Tempo” transforma o sertão do Piauí em protagonista
A segunda produção com forte ligação nordestina é “A Fabulosa Máquina do Tempo”, documentário dirigido por Eliza Capai.
O filme foi gravado em Guaribas, no sul do Piauí, e acompanha meninas durante a passagem da infância para a adolescência. A produção utiliza brincadeiras, entrevistas e imaginação para discutir gênero, casamento, maternidade, desigualdade e os sonhos para o futuro.
A proposta transforma as próprias crianças em narradoras de questões que atravessam suas famílias e a comunidade. Na história, elas criam uma espécie de máquina do tempo imaginária para revisitar as experiências de mães e avós e imaginar uma vida diferente para o futuro.
O resultado é um filme que apresenta o sertão piauiense sem transformá-lo apenas em cenário. Guaribas participa da narrativa e as meninas assumem o papel de protagonistas de suas próprias histórias.
A relação da diretora com o município começou anos antes. Em 2013, Eliza Capai esteve em Guaribas para investigar os efeitos de políticas sociais sobre as famílias locais. O trabalho acabou criando uma relação de longo prazo com a comunidade e ajudou a construir o documentário.
Dois filmes, dois retratos diferentes do Nordeste
A presença das duas produções na reta final permite observar como o cinema brasileiro tem apresentado a região por diferentes caminhos.
| Filme | Ligação com o Nordeste | Direção | Gênero |
|---|---|---|---|
| Feito Pipa | Gravado em Quixadá, Ceará, e ambientado no interior cearense | Allan Deberton | Ficção |
| A Fabulosa Máquina do Tempo | Gravado em Guaribas, Piauí, com histórias de meninas da região | Eliza Capai | Documentário |
Em “Feito Pipa”, o Nordeste aparece por meio de uma história de infância, família, preconceito, afeto e descoberta. Já em “A Fabulosa Máquina do Tempo”, a região aparece através da voz de meninas que imaginam seu futuro e refletem sobre as transformações vividas por suas famílias.
Por isso, embora apenas um dos dois possa seguir como representante brasileiro, os filmes já colocam diferentes experiências nordestinas no centro da principal disputa cinematográfica do país.
Os seis filmes que disputam a vaga brasileira
Além das duas produções ligadas ao Nordeste, a lista final reúne outros quatro longas: “100 Dias”, de Carlos Saldanha; “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo; “Nosso Segredo”, de Grace Passô; e “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins.
“100 Dias”
O filme de Carlos Saldanha acompanha a travessia de Amyr Klink pelo Atlântico Sul a remo. A produção transforma a viagem em uma história de resistência física e psicológica.
“A Natureza das Coisas Invisíveis”
Dirigido por Rafaela Camelo, o longa acompanha duas meninas que se conhecem em um hospital e desenvolvem uma amizade enquanto lidam com perdas e despedidas.
“Nosso Segredo”
Primeiro longa dirigido por Grace Passô, o filme acompanha uma família negra depois da morte da figura paterna e mistura conflitos familiares com acontecimentos sobrenaturais. A produção venceu o prêmio de melhor filme no Festival de Gramado.
“Vicentina Pede Desculpas”
Dirigido pelo mineiro Gabriel Martins, de “Marte Um”, o filme acompanha uma mãe que decide procurar as famílias das vítimas de um acidente provocado pelo próprio filho. Portanto, a produção terá estreia internacional no Festival de Toronto, na seção Platform, antes de chegar aos cinemas brasileiros em novembro.
A decisão acontece na próxima semana
A Academia Brasileira de Cinema anunciará em 16 de setembro qual dos seis filmes será escolhido para representar oficialmente o Brasil na disputa pelo Oscar 2027.
Depois disso, o longa escolhido ainda precisará passar pelo processo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood até chegar à lista final de indicados.
A cerimônia do Oscar 2027 está marcada para 14 de março de 2027.
Até lá, o Nordeste já tem dois motivos para acompanhar de perto a disputa. Um filme cearense dirigido por um cineasta da região e uma produção gravada no sertão do Piauí chegaram juntos entre os seis finalistas que podem levar uma história brasileira — e nordestina — para Hollywood.


