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EUA reduzem cota de açúcar do Brasil; como fica a situação do Nordeste

EUA reduziram em 35,9% a cota de açúcar do Brasil para 2027. Entenda por que a decisão atinge especialmente usinas do Nordeste.
Eliseu Lins, da Agência NE9
26 de setembro de 2026 - às 10:01
Atualizado 26 de setembro de 2026 - às 10:01
9 min de leitura

Os Estados Unidos reduziram de 155.993 para 100 mil toneladas a cota de açúcar bruto que o Brasil poderá exportar ao mercado americano dentro do sistema de tarifa de quota para o ano fiscal de 2027. A mudança representa uma redução de 55.993 toneladas, ou 35,9%, em relação à cota brasileira anterior.

A decisão foi anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) e passa a valer para o novo ano fiscal americano, que começa em 1º de outubro de 2026 e termina em 30 de setembro de 2027.

O impacto, porém, não se distribui de maneira uniforme pelo setor sucroenergético brasileiro. Isso porque a legislação nacional estabelece que a cota de exportação de açúcar para o mercado preferencial norte-americano seja atendida prioritariamente por unidades industriais do Nordeste.

Na prática, portanto, uma decisão tomada nos Estados Unidos reduz justamente o espaço comercial de uma cota historicamente vinculada às usinas nordestinas.

Brasil perde 55.993 toneladas da cota americana

Para entender a mudança, é importante diferenciar cota tarifária de proibição de exportação.

A princípio, os Estados Unidos mantiveram para 2027 uma cota total de 1.117.195 toneladas de açúcar bruto, volume correspondente ao mínimo assumido pelo país no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Desse total, o USTR distribuiu inicialmente 1.061.202 toneladas entre os países fornecedores. As 55.993 toneladas restantes foram posteriormente distribuídas entre outros países.

Contudo, o Brasil, que tinha direito a 155.993 toneladas no ciclo anterior, ficou com 100 mil toneladas para o novo ano fiscal.

Veja a mudança

IndicadorAno fiscal anteriorAno fiscal 2027Mudança
Cota do Brasil155.993 t100.000 t-55.993 t
Redução——-35,9%
Cota total dos EUA1.117.195 t1.117.195 tMantida
Início da nova cota—1º/10/2026—
Final do período—30/09/2027—

A redução brasileira, portanto, não diminuiu a cota total de açúcar que os Estados Unidos se comprometeram a receber dentro do sistema da OMC. O que mudou foi a distribuição entre os países.

O Brasil ainda poderá vender açúcar aos Estados Unidos?

Sim. A redução da cota não significa que o Brasil esteja proibido de exportar açúcar para o mercado americano.

O sistema funciona com uma cota tarifária. Dentro do volume estabelecido, o produto entra em condições tarifárias mais favoráveis. Acima desse limite, a importação continua possível, mas fica sujeita a uma tarifa mais elevada.

Por isso, a mudança reduz principalmente a quantidade de açúcar brasileiro que poderá acessar o mercado americano dentro da faixa preferencial da cota.

Essa diferença é importante porque evita interpretar a decisão como um bloqueio completo às exportações brasileiras.

Por que o Nordeste é diretamente afetado?

Aqui está o principal ponto da decisão para o Nordeste.

A Lei nº 8.117/1990 determina expressamente que a quota de exportação de açúcar para o mercado preferencial norte-americano seja atendida, prioritariamente, pelas unidades industriais da região Nordeste.

Além disso, a Lei nº 9.362/1996 estabelece que os volumes de produtos derivados da cana-de-açúcar destinados aos mercados preferenciais sejam atribuídos à Região Norte/Nordeste.

A mesma legislação define como integrantes da Região Norte/Nordeste os nove estados nordestinos — Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia — além dos estados da Região Norte e Tocantins.

Existe, portanto, uma conexão direta entre a cota americana e o setor sucroenergético nordestino.

O caminho da cota

Estados Unidos → cota preferencial de açúcar → Brasil → distribuição prioritária para unidades do Norte/Nordeste

Por isso, o corte de 35,9% interessa especialmente às empresas da região que participam desse mecanismo.

Alagoas e Pernambuco concentram parte importante da produção

O Nordeste continua sendo uma região relevante na produção brasileira de açúcar.

Estudo do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), do Banco do Nordeste, estima que a região produza 3,63 milhões de toneladas de açúcar na safra 2026/27, crescimento de 10,3% em relação ao ciclo anterior.

Entre os estados, Alagoas aparece como principal produtor regional, com projeção de aproximadamente 1,64 milhão de toneladas. Pernambuco também aparece entre os maiores produtores do Nordeste.

A Conab, em seu levantamento da safra 2026/27, também aponta crescimento da produção nordestina de cana, com previsão de 55,5 milhões de toneladas, alta de 4,1% sobre o ciclo anterior.

Produção de açúcar projetada em alguns estados

EstadoProdução estimada de açúcar*
Alagoascerca de 1,64 milhão t
Pernambucocerca de 990 mil t
Paraíbacerca de 295 mil t
Bahiacerca de 214 mil t
Piauícerca de 118 mil t
Sergipecerca de 129 mil t

*Projeções da safra 2026/27 apresentadas em levantamentos da Conab e estudos regionais. Os números podem sofrer alterações ao longo do acompanhamento da safra.

Os dados ajudam a dimensionar por que a mudança na política comercial americana interessa ao Nordeste. A região não apenas possui a destinação prioritária prevista em lei para essa cota, como também mantém uma cadeia produtiva relevante de açúcar e etanol.

Nordeste aumenta produção justamente quando perde espaço na cota

O momento cria um contraste importante.

Enquanto os Estados Unidos reduziram a cota brasileira, o Nordeste caminha para uma safra maior de açúcar.

Segundo o Etene, a produção regional deve crescer 10,3% em 2026/27, para 3,63 milhões de toneladas. O estudo relaciona o avanço à maior oferta de cana, ganhos de produtividade e expansão de tecnologias como irrigação, mecanização e uso de bioinsumos.

Assim, o problema para as usinas não é necessariamente a falta de açúcar.

O ponto é encontrar mercado para uma produção maior em um cenário de acesso mais limitado ao mercado americano dentro da cota preferencial.

Exportações brasileiras de açúcar já estão menores

A decisão americana também ocorre em um momento de retração nas exportações brasileiras de açúcar.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que o Brasil exportou 2,6977 milhões de toneladas de açúcar em agosto de 2026, com receita de US$ 936,2 milhões.

Na comparação com agosto de 2025, o volume caiu 27,5%, enquanto o valor exportado recuou 37%. O preço médio também caiu 13,1%.

Indicador — agosto2026Variação anual
Volume exportado2,6977 milhões t-27,5%
ReceitaUS$ 936,2 milhões-37,0%
Preço médioUS$ 347,10/t-13,1%

É importante, porém, fazer uma distinção.

A queda das exportações de agosto não foi provocada pela nova decisão americana. O USTR anunciou a alteração da cota em 23 de setembro, e o novo regime começa em 1º de outubro. Portanto, os números de agosto refletem condições anteriores à mudança.

O que acontece com as 55.993 toneladas retiradas do Brasil?

O USTR destinou as 55.993 toneladas restantes da cota de 2027 a outros países.

A medida amplia, portanto, o espaço disponível para fornecedores concorrentes dentro da faixa tarifária preferencial americana.

O Brasil tinha historicamente uma das maiores parcelas da cota. Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos mostram que o país recebeu 155.993 toneladas e ocupava a segunda maior posição entre os beneficiários da cota americana de açúcar bruto.

Com a nova distribuição, a parcela brasileira cai para 100 mil toneladas.

Decisão acontece em meio às novas tarifas dos EUA

A redução da cota também ocorre em um cenário mais amplo de mudanças na política comercial americana em relação ao Brasil.

Em julho, o USTR anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros, em medida adotada sob a Seção 301 do Trade Act, por determinação do governo Donald Trump.

Brasil e Estados Unidos também mantêm negociações comerciais. Em agosto, os governos dos dois países informaram a retomada do diálogo sobre as novas tarifas e outras medidas comerciais.

Nesse contexto, a redução da cota de açúcar acrescenta uma nova variável para o setor sucroenergético brasileiro.

O que muda para as usinas nordestinas?

A consequência imediata é a redução do volume de açúcar que poderá utilizar a cota brasileira de 100 mil toneladas no novo ano fiscal americano.

Isso não significa que uma usina nordestina específica perderá automaticamente determinado volume. A distribuição da cota entre as unidades produtoras segue regras próprias do governo brasileiro.

Uma instrução normativa publicada em 2025 estabeleceu que a cota americana seja direcionada às unidades produtoras das regiões Norte e Nordeste e que o rateio considere a participação de cada usina na produção regional da safra anterior, entre outros critérios.

Portanto, a redução americana deverá repercutir na quantidade total disponível para o rateio entre as unidades habilitadas.

usina paraiba cana
usina na Paraíba

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Açúcar nordestino terá de buscar outros mercados?

A redução da cota não determina para onde o açúcar brasileiro será exportado. Ainda assim, a menor participação no mercado americano aumenta a importância de outros destinos para o setor.

O próprio Banco do Nordeste aponta que as exportações nordestinas de açúcar vêm passando por mudanças, com diferentes mercados ganhando espaço. O cenário reforça a importância da diversificação das vendas externas para a cadeia regional.

Além disso, a produção nordestina deve crescer na safra 2026/27, o que coloca mercado, preços e logística de exportação no centro das decisões das usinas.

Uma decisão americana com impacto regional

A redução da cota brasileira de açúcar pelos Estados Unidos é uma decisão de comércio exterior, mas seus efeitos alcançam diretamente o Nordeste por causa de uma regra brasileira criada há décadas.

Portanto, a Lei nº 8.117/1990 prioriza as unidades industriais nordestinas no atendimento da cota destinada ao mercado preferencial americano. Além disso, a legislação de 1996 mantém a destinação de produtos derivados da cana para mercados preferenciais à Região Norte/Nordeste.

Agora, o Brasil terá 100 mil toneladas de cota para o novo ano fiscal americano, contra 155.993 toneladas anteriormente.

Ao mesmo tempo, o Nordeste entra em uma safra em que a produção de açúcar deve crescer.

O resultado é uma equação que o setor terá de administrar: mais açúcar disponível, menor espaço dentro da cota americana e necessidade de ampliar ou preservar mercados para a produção nordestina.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.