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Por que a cabra virou um dos animais mais importantes do Nordeste?

Nordeste concentra 96% do rebanho caprino brasileiro. Entenda por que a cabra se adaptou ao Sertão e virou parte da economia e cultura regional.
Eliseu Lins, da Agência NE9
2 de outubro de 2026 - às 13:03
Atualizado 2 de outubro de 2026 - às 13:03
7 min de leitura

Com mais de 12,8 milhões de animais, região concentra cerca de 96% do rebanho caprino brasileiro; criação atravessa a economia, a alimentação e a cultura do Sertão

Se existe um animal que se confunde com a paisagem, a economia e a cultura do Sertão nordestino, ele é a cabra.

A princípio, o tamanho dessa relação aparece nos números. Em 2024, o Brasil tinha 13,29 milhões de caprinos, segundo o IBGE. Desse total, os nove estados do Nordeste reuniam aproximadamente 12,81 milhões de animais, o equivalente a cerca de 96% do rebanho nacional.

Além disso, a concentração não acontece por acaso. Ao longo de séculos, a criação de caprinos encontrou no Semiárido condições que favoreceram a adaptação desses animais. Assim, a cabra deixou de representar apenas uma atividade pecuária e passou a fazer parte da vida de milhares de famílias, principalmente no interior da região.

Por que a cabra se adaptou tão bem ao Sertão?

A resposta começa pelo ambiente.

Grande parte do Nordeste apresenta clima semiárido, com chuvas irregulares, períodos prolongados de estiagem e oferta variável de alimento. Nesse cenário, os caprinos apresentam características que favorecem sua criação em sistemas adaptados às condições locais.

Sendo assim, a Embrapa registra que os animais introduzidos no Brasil durante o período colonial eram pequenos e rústicos. Depois, ao longo das gerações, grupos de caprinos passaram por processos de seleção natural e isolamento geográfico, desenvolvendo características de adaptação e resistência ao calor.

Por isso, a criação se espalhou pelo interior nordestino e encontrou espaço especialmente em propriedades familiares.

A combinação entre animal adaptado, ambiente semiárido e agricultura familiar ajudou a transformar a caprinocultura em uma atividade importante para o Sertão.

A cabra virou patrimônio econômico de muitas famílias

A importância do animal vai muito além da carne.

Em diferentes sistemas produtivos, os caprinos podem fornecer carne, leite, derivados e animais para reprodução, além de integrar sistemas diversificados de produção rural.

Além disso, estudos da Embrapa mostram justamente essa característica. A caprinocultura aparece associada a propriedades familiares que combinam diferentes atividades agrícolas e pecuárias. No Nordeste, a produção de caprinos leiteiros também apresenta forte relação com a agricultura familiar.

Na prática, isso significa que um pequeno rebanho pode fazer parte de uma estratégia econômica maior da propriedade.

Quando a família vende animais, leite ou derivados, o rebanho ajuda a transformar recursos da propriedade em renda.

Bahia tem o maior rebanho de cabras do Brasil

Os números do IBGE mostram a dimensão dessa atividade nos estados nordestinos.

A Bahia lidera o rebanho brasileiro, com 4,2 milhões de caprinos em 2024. Pernambuco aparece em seguida, com 3,42 milhões, enquanto Piauí tinha 2,06 milhões e Ceará, 1,14 milhão.

Veja os números dos nove estados:

EstadoRebanho caprino em 2024
Bahia4.202.085
Pernambuco3.417.381
Piauí2.063.920
Ceará1.141.714
Paraíba848.852
Rio Grande do Norte669.004
Maranhão379.060
Alagoas59.439
Sergipe24.865
Nordeste12.806.320

Os dados são da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) do IBGE. Somados, os nove estados respondem por aproximadamente 96,3% dos 13,29 milhões de caprinos existentes no Brasil.

Do leite ao queijo: outra cadeia que cresceu no Nordeste

A cabra também criou uma cadeia importante de produção de leite e derivados.

Um dos principais exemplos está justamente entre Paraíba e Pernambuco. A Embrapa identifica uma bacia de produção de leite caprino que reúne áreas do Cariri paraibano, Pajeú, Sertão do Moxotó, Vale do Ipojuca e Vale do Ipanema.

Contudo, segundo levantamento da instituição baseado no Censo Agropecuário de 2017, essa bacia produzia cerca de 7,4 milhões de litros de leite caprino por ano, correspondendo a 81% da produção dos dois estados e a 28% da produção nacional naquele levantamento.

O setor também avançou na agregação de valor.

No Cariri paraibano, por exemplo, produtores e laticínios trabalham com queijos de leite de cabra, e produtos da região conquistaram premiações nacionais e internacionais nos últimos anos. A Embrapa destaca ainda a atuação de cooperativas e laticínios ligados à agricultura familiar.

Assim, o animal que se adaptou ao Sertão também passou a participar de uma cadeia que envolve produção, beneficiamento, comercialização e gastronomia.

A cabra também está na mesa do nordestino

A carne caprina ocupa espaço tradicional na gastronomia regional.

Pratos com carne de bode aparecem em diferentes estados do Nordeste, principalmente no interior. Ao mesmo tempo, o leite de cabra abastece uma cadeia de queijos, doces e outros derivados.

Por isso, a presença do animal também chegou à gastronomia e ao turismo gastronômico.

Em muitas cidades do interior, falar em bode ou cabra significa falar de uma comida que faz parte da memória familiar e das tradições locais.

Cabra, bode e a cultura do Nordeste

Existe ainda uma dimensão que não aparece nas estatísticas.

O bode virou personagem da cultura nordestina.

Ele aparece em histórias populares, literatura de cordel, festas, feiras, músicas, expressões regionais e na própria imagem construída sobre o Sertão.

A palavra “bode”, inclusive, ganhou usos que ultrapassam o significado do animal. Em diferentes contextos, ela aparece no humor, na linguagem cotidiana e nas representações culturais da região.

Dessa maneira, a criação de caprinos produziu algo maior que uma cadeia econômica: criou também uma identidade cultural associada ao animal.

A história começou há séculos

A presença da cabra no Nordeste também tem uma história longa.

Segundo publicação da Embrapa, os primeiros animais domésticos chegaram ao Brasil durante a colonização. Eles não correspondiam às raças especializadas conhecidas atualmente. Eram animais de pequeno porte e rústicos, características que facilitavam o transporte marítimo e a sobrevivência.

Depois da chegada ao Brasil, esses animais passaram por gerações de adaptação às condições locais. No Sertão, o processo contribuiu para o desenvolvimento de grupos com características próprias, resistentes ao calor e às condições ambientais.

Portanto, a relação entre cabras e Nordeste não nasceu apenas de uma escolha econômica recente. Ela foi construída ao longo de séculos.

Por que a cabra se tornou tão importante?

FatorRelação com o Nordeste
AdaptaçãoCaprinos desenvolveram características adequadas às condições do Semiárido
Agricultura familiarA criação integra diferentes sistemas produtivos
CarneAlimenta mercados e tradições gastronômicas
LeiteSustenta uma cadeia importante em áreas da Paraíba e Pernambuco
QueijosAgregam valor à produção de leite
ReproduçãoAnimais também são comercializados para formação e renovação de rebanhos
CulturaBode e cabra aparecem em festas, cordel, música e expressões populares
Economia localA atividade movimenta produtores, laticínios, comércio e serviços

A cabra que virou símbolo do Sertão

Os números ajudam a entender a dimensão econômica. Porém, eles contam apenas uma parte da história.

Com mais de 12,8 milhões de animais, o Nordeste concentra praticamente todo o rebanho caprino brasileiro. Bahia, Pernambuco, Piauí e Ceará concentram sozinhos cerca de 84,5% dos caprinos da região.

Ao mesmo tempo, a cabra está presente na mesa, no trabalho das famílias, na produção de leite e queijo, nas feiras e no imaginário popular.

Por isso, a relação entre o animal e o Nordeste vai muito além da pecuária.

Portanto, a cabra encontrou no Semiárido um ambiente ao qual conseguiu se adaptar. E o nordestino, ao longo de gerações, transformou essa adaptação em alimento, renda, produção e cultura.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.