Com mais de 12,8 milhões de animais, região concentra cerca de 96% do rebanho caprino brasileiro; criação atravessa a economia, a alimentação e a cultura do Sertão
Se existe um animal que se confunde com a paisagem, a economia e a cultura do Sertão nordestino, ele é a cabra.
A princípio, o tamanho dessa relação aparece nos números. Em 2024, o Brasil tinha 13,29 milhões de caprinos, segundo o IBGE. Desse total, os nove estados do Nordeste reuniam aproximadamente 12,81 milhões de animais, o equivalente a cerca de 96% do rebanho nacional.
Além disso, a concentração não acontece por acaso. Ao longo de séculos, a criação de caprinos encontrou no Semiárido condições que favoreceram a adaptação desses animais. Assim, a cabra deixou de representar apenas uma atividade pecuária e passou a fazer parte da vida de milhares de famílias, principalmente no interior da região.
Por que a cabra se adaptou tão bem ao Sertão?
A resposta começa pelo ambiente.
Grande parte do Nordeste apresenta clima semiárido, com chuvas irregulares, períodos prolongados de estiagem e oferta variável de alimento. Nesse cenário, os caprinos apresentam características que favorecem sua criação em sistemas adaptados às condições locais.
Sendo assim, a Embrapa registra que os animais introduzidos no Brasil durante o período colonial eram pequenos e rústicos. Depois, ao longo das gerações, grupos de caprinos passaram por processos de seleção natural e isolamento geográfico, desenvolvendo características de adaptação e resistência ao calor.
Por isso, a criação se espalhou pelo interior nordestino e encontrou espaço especialmente em propriedades familiares.
A combinação entre animal adaptado, ambiente semiárido e agricultura familiar ajudou a transformar a caprinocultura em uma atividade importante para o Sertão.
A cabra virou patrimônio econômico de muitas famílias
A importância do animal vai muito além da carne.
Em diferentes sistemas produtivos, os caprinos podem fornecer carne, leite, derivados e animais para reprodução, além de integrar sistemas diversificados de produção rural.
Além disso, estudos da Embrapa mostram justamente essa característica. A caprinocultura aparece associada a propriedades familiares que combinam diferentes atividades agrícolas e pecuárias. No Nordeste, a produção de caprinos leiteiros também apresenta forte relação com a agricultura familiar.
Na prática, isso significa que um pequeno rebanho pode fazer parte de uma estratégia econômica maior da propriedade.
Quando a família vende animais, leite ou derivados, o rebanho ajuda a transformar recursos da propriedade em renda.
Bahia tem o maior rebanho de cabras do Brasil
Os números do IBGE mostram a dimensão dessa atividade nos estados nordestinos.
A Bahia lidera o rebanho brasileiro, com 4,2 milhões de caprinos em 2024. Pernambuco aparece em seguida, com 3,42 milhões, enquanto Piauí tinha 2,06 milhões e Ceará, 1,14 milhão.
Veja os números dos nove estados:
| Estado | Rebanho caprino em 2024 |
|---|---|
| Bahia | 4.202.085 |
| Pernambuco | 3.417.381 |
| Piauí | 2.063.920 |
| Ceará | 1.141.714 |
| Paraíba | 848.852 |
| Rio Grande do Norte | 669.004 |
| Maranhão | 379.060 |
| Alagoas | 59.439 |
| Sergipe | 24.865 |
| Nordeste | 12.806.320 |
Os dados são da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) do IBGE. Somados, os nove estados respondem por aproximadamente 96,3% dos 13,29 milhões de caprinos existentes no Brasil.
Do leite ao queijo: outra cadeia que cresceu no Nordeste
A cabra também criou uma cadeia importante de produção de leite e derivados.
Um dos principais exemplos está justamente entre Paraíba e Pernambuco. A Embrapa identifica uma bacia de produção de leite caprino que reúne áreas do Cariri paraibano, Pajeú, Sertão do Moxotó, Vale do Ipojuca e Vale do Ipanema.
Contudo, segundo levantamento da instituição baseado no Censo Agropecuário de 2017, essa bacia produzia cerca de 7,4 milhões de litros de leite caprino por ano, correspondendo a 81% da produção dos dois estados e a 28% da produção nacional naquele levantamento.
O setor também avançou na agregação de valor.
No Cariri paraibano, por exemplo, produtores e laticínios trabalham com queijos de leite de cabra, e produtos da região conquistaram premiações nacionais e internacionais nos últimos anos. A Embrapa destaca ainda a atuação de cooperativas e laticínios ligados à agricultura familiar.
Assim, o animal que se adaptou ao Sertão também passou a participar de uma cadeia que envolve produção, beneficiamento, comercialização e gastronomia.
A cabra também está na mesa do nordestino
A carne caprina ocupa espaço tradicional na gastronomia regional.
Pratos com carne de bode aparecem em diferentes estados do Nordeste, principalmente no interior. Ao mesmo tempo, o leite de cabra abastece uma cadeia de queijos, doces e outros derivados.
Por isso, a presença do animal também chegou à gastronomia e ao turismo gastronômico.
Em muitas cidades do interior, falar em bode ou cabra significa falar de uma comida que faz parte da memória familiar e das tradições locais.
Cabra, bode e a cultura do Nordeste
Existe ainda uma dimensão que não aparece nas estatísticas.
O bode virou personagem da cultura nordestina.
Ele aparece em histórias populares, literatura de cordel, festas, feiras, músicas, expressões regionais e na própria imagem construída sobre o Sertão.
A palavra “bode”, inclusive, ganhou usos que ultrapassam o significado do animal. Em diferentes contextos, ela aparece no humor, na linguagem cotidiana e nas representações culturais da região.
Dessa maneira, a criação de caprinos produziu algo maior que uma cadeia econômica: criou também uma identidade cultural associada ao animal.



A história começou há séculos
A presença da cabra no Nordeste também tem uma história longa.
Segundo publicação da Embrapa, os primeiros animais domésticos chegaram ao Brasil durante a colonização. Eles não correspondiam às raças especializadas conhecidas atualmente. Eram animais de pequeno porte e rústicos, características que facilitavam o transporte marítimo e a sobrevivência.
Depois da chegada ao Brasil, esses animais passaram por gerações de adaptação às condições locais. No Sertão, o processo contribuiu para o desenvolvimento de grupos com características próprias, resistentes ao calor e às condições ambientais.
Portanto, a relação entre cabras e Nordeste não nasceu apenas de uma escolha econômica recente. Ela foi construída ao longo de séculos.
Por que a cabra se tornou tão importante?
| Fator | Relação com o Nordeste |
|---|---|
| Adaptação | Caprinos desenvolveram características adequadas às condições do Semiárido |
| Agricultura familiar | A criação integra diferentes sistemas produtivos |
| Carne | Alimenta mercados e tradições gastronômicas |
| Leite | Sustenta uma cadeia importante em áreas da Paraíba e Pernambuco |
| Queijos | Agregam valor à produção de leite |
| Reprodução | Animais também são comercializados para formação e renovação de rebanhos |
| Cultura | Bode e cabra aparecem em festas, cordel, música e expressões populares |
| Economia local | A atividade movimenta produtores, laticínios, comércio e serviços |
A cabra que virou símbolo do Sertão
Os números ajudam a entender a dimensão econômica. Porém, eles contam apenas uma parte da história.
Com mais de 12,8 milhões de animais, o Nordeste concentra praticamente todo o rebanho caprino brasileiro. Bahia, Pernambuco, Piauí e Ceará concentram sozinhos cerca de 84,5% dos caprinos da região.
Ao mesmo tempo, a cabra está presente na mesa, no trabalho das famílias, na produção de leite e queijo, nas feiras e no imaginário popular.
Por isso, a relação entre o animal e o Nordeste vai muito além da pecuária.
Portanto, a cabra encontrou no Semiárido um ambiente ao qual conseguiu se adaptar. E o nordestino, ao longo de gerações, transformou essa adaptação em alimento, renda, produção e cultura.


