De agricultor familiar a mestre em agroecologia e bolsista em uma das principais universidades dos Estados Unidos, Carlos Magno transformou a experiência do Semiárido em uma trajetória dedicada à ciência, à agricultura sustentável e à valorização da Caatinga
Antes de participar de debates sobre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável, Carlos Magno conheceu o Semiárido por dentro. Nascido em uma família de agricultores familiares em São José de Espinharas, no Sertão da Paraíba.
A princípio, ele cresceu em contato com uma realidade que hoje ajuda a apresentar ao mundo como fonte de conhecimento e soluções para enfrentar um planeta cada vez mais quente.
Formado em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Carlos Magno construiu uma trajetória que passou pelo Sertão do Pajeú, Agreste e Recife e ganhou dimensão internacional.
Mestre em Agroecologia pela Universidade Internacional da Andaluzia, na Espanha, ele também foi bolsista Fulbright na Universidade Cornell, nos Estados Unidos, entre 2022 e 2023.
Atualmente, Carlos Magno é coordenador executivo do Centro Sabiá e atua na Plataforma Semiáridos da América Latina, organização que reúne instituições de diferentes países para trocar experiências e construir soluções para os desafios enfrentados pelas populações que vivem em regiões semiáridas.
Do Sertão da Paraíba para universidades e debates internacionais
A história de Carlos Magno começa em São José de Espinharas, município do Sertão paraibano marcado pela agricultura familiar. Depois da graduação em Medicina Veterinária, em 2007, ele se mudou para Pernambuco e passou a trabalhar no Centro Sabiá, organização na qual permanece até hoje.
A trajetória também passou por Triunfo, no Sertão do Pajeú, e por Caruaru, antes da mudança definitiva para o Recife, em 2017.
Assim, ao longo desse caminho, a experiência prática com as comunidades rurais foi se encontrando com a formação acadêmica em agroecologia e desenvolvimento rural sustentável.
Essa combinação ajuda a explicar uma das características do trabalho de Carlos: a defesa de que as respostas para os problemas climáticos não precisam ser importadas de outros lugares.
Contudo, muitas delas já existem nos territórios que convivem há gerações com períodos de seca, irregularidade das chuvas e necessidade de produzir alimentos em condições adversas.
O que o mundo pode aprender com a Caatinga?
Para Carlos Magno, defender a Caatinga não significa apenas proteger árvores, animais e paisagens. Significa também preservar pessoas, culturas, alimentos e modos de vida construídos ao longo de gerações.
“Quando defendo a Caatinga, eu estou defendendo a natureza daqui, mas também o povo desse lugar, nossa comida, nossos modos de vida, nosso jeito de falar e dançar”, afirmou o pesquisador em entrevista ao portal Brasil de Fato.
Essa visão está diretamente relacionada ao conceito de convivência com o Semiárido. Em vez de tratar a região apenas a partir das dificuldades provocadas pela seca, a proposta busca valorizar tecnologias sociais, conhecimentos locais, agricultura familiar e formas de produção adaptadas às características do território.
O próprio Centro Sabiá destaca experiências de agroecologia e agrofloresta desenvolvidas com agricultores familiares como caminhos para produzir alimentos, recuperar solos, preservar água e enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.
A Caatinga pode ser uma escola para o futuro do clima
Uma das iniciativas mais recentes associadas a Carlos Magno é a Caatinga Climate Week, criada para aproximar o debate climático dos territórios onde os efeitos das mudanças ambientais já fazem parte da vida cotidiana.
A proposta se inspira nas grandes semanas climáticas realizadas em diferentes partes do mundo, mas aposta em uma diferença fundamental: levar o debate para dentro do território e colocar agricultores, comunidades, pesquisadores, organizações sociais e gestores públicos em contato direto com experiências desenvolvidas no Semiárido.
Na edição de 2026, a programação apresentou tecnologias sociais de adaptação climática e experiências de agroflorestas, produção de alimentos, recuperação de nascentes, bancos de sementes e criação de animais adaptados às condições locais.
A ideia é inverter uma lógica antiga: em vez de enxergar o Semiárido apenas como uma região que precisa receber soluções, reconhecer que o território também produz conhecimento que pode ajudar outras partes do mundo.
Uma trajetória que conecta ciência e conhecimento popular
A formação acadêmica internacional ampliou o alcance do trabalho de Carlos Magno, mas sua atuação continua fortemente ligada às comunidades rurais.
Na Universidade Cornell, nos Estados Unidos, ele participou do programa Fulbright. Antes disso, havia concluído o mestrado em Agroecologia na Espanha, aprofundando uma área que já fazia parte de sua atuação profissional no Nordeste.
Essa trajetória conecta três universos que muitas vezes aparecem separados: a universidade, o conhecimento produzido pelas comunidades e a formulação de estratégias para enfrentar as mudanças climáticas.
É justamente essa combinação que transformou o pesquisador paraibano em uma das vozes presentes no debate sobre adaptação climática e desenvolvimento sustentável no Semiárido.
Por que a experiência do Nordeste interessa ao mundo?
O Semiárido brasileiro é uma das regiões mais populosas do planeta submetidas a condições semiáridas. A experiência acumulada por comunidades que vivem no território envolve técnicas de armazenamento de água, manejo do solo, produção diversificada e adaptação às variações climáticas.
A Plataforma Semiáridos da América Latina, da qual Carlos Magno participa, trabalha justamente com a troca dessas experiências entre organizações que atuam em diferentes regiões semiáridas do continente. A proposta é construir uma visão compartilhada sobre os desafios e potencialidades desses territórios.
Nesse cenário, a Caatinga deixa de aparecer apenas como um bioma associado à seca e passa a ser apresentada também como território de inovação, biodiversidade e conhecimento.

LEIA TAMBÉM:
- Festival aposta no café para promover turismo rural no Brejo Paraibano
- Entenda como o Nordeste pode ganhar uma ferrovia pelo litoral
- Nordeste tem maior número de semifinalistas do Solve for Tomorrow Brasil 2026
- Nordeste inova e mira na diversidade para crescer a economia
Um nordestino que ajuda a mudar a imagem do Semiárido
A trajetória de Carlos Magno representa uma mudança de perspectiva sobre o próprio Nordeste.
Filho de agricultores familiares, formado em uma universidade pública nordestina, pesquisador com experiência internacional e profissional dedicado ao desenvolvimento rural sustentável, ele leva para outros espaços uma mensagem simples: o Semiárido não é apenas um lugar que precisa ser adaptado às mudanças do clima.
É também um território que já desenvolveu formas próprias de conviver com condições ambientais extremas e que pode ensinar ao mundo como produzir, preservar e viver em um cenário de mudanças climáticas.
Essa talvez seja a parte mais importante de sua trajetória. A experiência que começou no Sertão da Paraíba hoje ajuda a colocar a Caatinga no centro de uma discussão que ultrapassa as fronteiras do Nordeste: como construir um futuro possível em um planeta que está mudando?


