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Editorial

Por que o Nordeste é alvo de xenofobia até nas urnas?

Após a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições de 2026, o Brasil testemunhou mais uma vez uma onda de ataques xenofóbicos contra o eleitor nordestino nas redes sociais. A princípio, um dos comentários ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
7 de outubro de 2026 - às 08:49
Atualizado 7 de outubro de 2026 - às 08:49
5 min de leitura

Após a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições de 2026, o Brasil testemunhou mais uma vez uma onda de ataques xenofóbicos contra o eleitor nordestino nas redes sociais.

A princípio, um dos comentários que mais chamou atenção foi do jornalista de extrema direita Rodrigo Constantino. Ele publicou um vídeo em que chamou a Bahia de “câncer do Brasil” e Salvador de “lixo”.

Antes de mais nada, não se trata de um episódio isolado. Ele revela um fenômeno antigo: por que o Nordeste brasileiro, uma das regiões mais populosas e com uma das identidades culturais mais fortes do país, se torna alvo de discurso de ódio até durante os períodos eleitorais?

O Estopim: o resultado das urnas

No primeiro turno de 2026, Lula venceu em todos os nove estados do Nordeste, o que se tornou a característica política mais marcante da região nesta eleição. Na Bahia, Lula obteve mais de 66% dos votos válidos, muito à frente de seu adversário. No Piauí, a situação foi ainda mais expressiva: Lula ultrapassou 70% dos votos.

Ao mesmo tempo, o Nordeste reafirmou sua centralidade na política progressista: Jerônimo Rodrigues foi reeleito na Bahia, Rafael Fonteles no Piauí e Elmano de Freitas no Ceará, todos já no primeiro turno.

Esse resultado eleitoral desencadeou a reação indignada da direita. O vídeo de Constantino surgiu exatamente nesse contexto, atacando não apenas o resultado das urnas, mas toda a população baiana: “Baianos, salvo raras exceções, vocês são a vergonha do Brasil.”

Raízes históricas: xenofobia de décadas

Contudo, essa onda de ódio e xenofobia contra o Nordeste não começou hoje. Desde as primeiras eleições após a redemocratização, narrativas preconceituosas semelhantes se repetem, ainda que naquela época o PT não fosse majoritário na região.

Assim, esse preconceito se faz presente em forma de mentiras e invenções que se expandem desde a massificação da internet com as redes sociais.

Desde 1989, a cada eleição, quase todas as vezes em que o Nordeste foi citado, ele foi associado ao PT. Em cerca de metade dos casos, essa associação foi negativa; em uma a cada cinco menções, havia um estereótipo negativo ou ataque direto.

A lógica política: por que atacar o Nordeste?

Assim, vincular o PT a todo tipo de problema do Nordeste revela um mecanismo político de estigmatizar toda a região e o partido político. E essa ação dos sudestinos em atacar os nordestinos só divide ainda mais o país, que já se encontra dividido por demais.

O Nordeste não é “terra de ninguém”

Constantino afirmou em seu vídeo que o Nordeste “não quer trabalhar”, usando isso como “evidência anedótica” para seu preconceito. No entanto, os dados oficiais pintam um quadro completamente oposto.

Em agosto de 2026, o Nordeste criou 59.356 empregos formais, o maior saldo mensal da região no ano, respondendo por 35,8% dos postos de trabalho gerados no Brasil no mês. No acumulado de janeiro a agosto de 2026, a região alcançou 211.915 empregos com carteira assinada, o equivalente a 18,7% da geração líquida nacional.

Todos os nove estados nordestinos encerraram agosto com saldo positivo. Pernambuco liderou com 13.428 novas vagas, seguido pela Bahia (11.647) e pelo Ceará (9.295). A Bahia acumulou 72.768 postos no ano, o melhor desempenho da região.

eleições 2026 no nordeste montagem IA ne9
eleições 2026 no nordeste montagem IA ne9

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Consequências eleitorais: o preço do ódio

O potencial impacto desse discurso de ódio não pode ser ignorado. Rego alerta que o sentimento anti-Lula motivado pela xenofobia pode “desequilibrar o segundo turno”.

No entanto, os dados também revelam uma realidade sutil. Apesar de manter vantagem esmagadora no Nordeste, Lula perdeu 258.555 votos na região em comparação com 2022, com queda em seis dos nove estados. A Bahia registrou a maior redução, com 208.310 votos a menos. O estado está sob governo do PT por 19 anos.

Opinião é diferente de ódio

O Nordeste se tornou alvo de ódio não por qualquer “defeito objetivo”, mas porque fez uma escolha política oposta à da extrema direita. Atacar o Nordeste é, em essência, atacar uma escolha política — tentando, por meio da estigmatização de uma região e de seu povo, enfraquecer a legitimidade dessa escolha no processo democrático.

Como observa Rego, classificar uma região como naturalmente “de esquerda” ou “de direita” é uma construção histórica, não uma propriedade essencial. O Paraná é o berço do MST; o Rio Grande do Sul já foi epicentro do progressismo; o PT foi fundado por jovens paulistas que participaram de um movimento operário com bases nordestinas.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.