Início » Economia » Tungstênio volta ao radar e reforça força da mineração do RN

Economia

Tungstênio volta ao radar e reforça força da mineração do RN

Ouro já é produzido em Currais Novos e empresa australiana avalia antiga mina de tungstênio em Parelhas, reforçando a mineração no Seridó.
Eliseu Lins, da Agência NE9
6 de outubro de 2026 - às 15:00
Atualizado 6 de outubro de 2026 - às 15:00
8 min de leitura

O Seridó do Rio Grande do Norte pode estar entrando em uma nova fase da mineração. Em Currais Novos, o ouro já saiu da fase de projeto e entrou em produção comercial. Agora, em Parelhas, uma empresa australiana avalia a retomada de uma antiga mina de tungstênio explorada durante a Segunda Guerra Mundial.

A princípio, os dois movimentos acontecem em municípios diferentes e envolvem minerais distintos. Ainda assim, eles revelam uma mudança importante: o potencial mineral do Seridó voltou a atrair investimentos, tecnologia e empresas internacionais.

A novidade mais recente veio da australiana Gold Mountain, que garantiu exclusividade por 12 meses para avaliar a possível aquisição da área da antiga mina Malhada do Angico, próxima a Parelhas. A área tem aproximadamente 857 hectares.

Enquanto isso, cerca de 100 quilômetros ao sul, a Mina Borborema, em Currais Novos, já produz ouro comercialmente e começa a consolidar o metal como uma das principais forças das exportações do Rio Grande do Norte.

O ouro de Currais Novos já virou realidade

A história mais avançada dessa nova etapa está em Currais Novos.

A Mina Borborema alcançou produção comercial em setembro de 2025, depois de 19 meses de construção. A operação já processava cerca de 4.500 toneladas de minério por dia, com recuperação superior a 90%.

Além disso, os números de 2026 mostram que a operação ganhou escala.

No primeiro semestre, a Borborema produziu 31.352 onças equivalentes de ouro (GEO). Para todo o ano, a Aura Minerals trabalha com uma projeção entre 65 mil e 77 mil GEO.

Borborema em números

IndicadorResultado
LocalizaçãoCurrais Novos (RN)
RegiãoSeridó potiguar
Produção comercialSetembro de 2025
Produção no 1º semestre de 202631.352 GEO
Projeção para 202665 mil a 77 mil GEO
Vida útil estimada35,4 anos
Reservas provadas e prováveis1,988 milhão de GEO
Área das concessões29 km²

A estimativa de vida útil e os números futuros fazem parte do estudo de viabilidade atualizado da operação.

O ouro já mudou as exportações do Rio Grande do Norte

O impacto da Borborema também aparece nos números do comércio exterior.

O Rio Grande do Norte exportou US$ 248,7 milhões em ouro em 2025. Já no primeiro semestre de 2026, as vendas externas do metal alcançaram US$ 157,5 milhões.

Além do mais, no período, o ouro respondeu por 24,6% da pauta exportadora potiguar. O salto fica ainda mais evidente quando se olha para o período anterior.

Entre 2020 e 2024, o estado havia exportado aproximadamente US$ 5,5 milhões em ouro durante os cinco anos somados.

Portanto, a Borborema mudou rapidamente o peso do metal na economia potiguar.

O ouro deixou de ser apenas uma promessa de mineração no Seridó e passou a gerar produção e exportação em escala relevante.

Aura prepara nova etapa para a operação

A força da mineração de ouro no Seridó também aparece em uma decisão recente da Aura.

A empresa anunciou uma operação de R$ 612 milhões para internalizar a operação e a manutenção da frota de três minas brasileiras, incluindo a Borborema. A mudança está prevista para janeiro de 2027, caso sejam cumpridas as condições necessárias.

A estratégia deve ampliar o controle da companhia sobre equipamentos, manutenção e mão de obra.

Além disso, a Aura estima uma redução entre US$ 150 e US$ 200 no custo total de sustentação por onça de ouro vendida a partir de 2027.

Ou seja, a empresa está reorganizando sua operação justamente quando a mina potiguar começa a completar seu primeiro ciclo anual de produção.

Agora, o tungstênio volta ao mapa

Parelhas foto prefeitura

Enquanto Currais Novos consolida o ouro, Parelhas pode recuperar uma atividade mineral que marcou a história do Seridó.

A Gold Mountain anunciou que garantiu o direito exclusivo para avaliar e potencialmente adquirir a área da antiga Malhada do Angico.

A região já teve exploração de scheelita, principal minério de tungstênio encontrado no local, durante a Segunda Guerra Mundial. A antiga operação ficou sob responsabilidade da Mineração Fluminense.

Além disso, o momento internacional também aumenta o interesse pelo mineral.

O tungstênio é utilizado na produção de ligas de alta resistência e aços especiais, além de possuir aplicações em setores como defesa, indústria aeroespacial e semicondutores.

Em 2026, os preços do mineral dispararam em meio à redução da oferta e à busca de países ocidentais por alternativas à dependência da China, que responde por cerca de 80% da produção mundial de tungstênio, segundo a CNN Brasil.

Mas a mina ainda não foi reativada

Há uma diferença importante entre avaliar uma mina e reativá-la.

A Gold Mountain ainda não comprou o projeto. A empresa fechou um acordo que garante 12 meses de exclusividade para realizar análises técnicas, jurídicas e regulatórias antes de decidir pela aquisição. Até agora, desembolsou R$ 1 milhão.

Outros R$ 2 milhões poderão ser pagos caso o negócio avance.

EtapaValor
Pagamento inicialR$ 1 milhão
Segunda parcela potencialR$ 1 milhão
Terceira parcela potencialR$ 1 milhão
Total potencialR$ 3 milhões

A próxima etapa depende, entre outros fatores, de uma decisão favorável da Agência Nacional de Mineração (ANM) sobre o Relatório Final de Pesquisa apresentado em 2016.

Portanto, o tungstênio é uma possibilidade em avaliação, enquanto o ouro já está em produção.

Empresa começa novas pesquisas na área

Mesmo antes de concluir a aquisição, a Gold Mountain já iniciou trabalhos de exploração.

A companhia está realizando perfurações com trado nos rejeitos deixados pela antiga operação para medir os teores de tungstênio, avaliar a espessura do material e coletar amostras para testes metalúrgicos. Os resultados ainda não foram divulgados.

Além disso, a empresa prepara uma campanha de sondagem diamantada para investigar a continuidade da mineralização abaixo e ao redor das antigas áreas de lavra.

O programa deverá testar aproximadamente 2 quilômetros da formação geológica, chegando a cerca de 120 metros de profundidade, desde que as autorizações ambientais e regulatórias necessárias sejam obtidas.

O Seridó reúne ouro e mineral estratégico

É justamente a combinação dos dois movimentos que torna a história relevante.

Em Currais Novos, o ouro já está sendo produzido.

Em Parelhas, o tungstênio volta a ser investigado.

E os dois casos colocam o Seridó diante de uma nova realidade econômica.

Currais NovosParelhas
OuroTungstênio
Mina BorboremaMalhada do Angico
Produção comercialProjeto em avaliação
Aura MineralsGold Mountain
Exportações já realizadasPesquisa e sondagem
Operação industrialPossível retomada

Assim, o Seridó não aparece apenas como uma região com potencial mineral. A região começa a reunir produção efetiva de ouro e novas oportunidades ligadas a minerais estratégicos.

Por que o momento é importante para o Seridó?

A mineração sempre fez parte da história econômica do Seridó. Entretanto, a escala atual é diferente.

A Borborema trouxe uma operação industrial de ouro com perspectiva de décadas de atividade. O estudo atualizado aponta 35,4 anos de vida útil estimada e reservas provadas e prováveis de aproximadamente 1,988 milhão de GEO.

Além disso, a Aura mantém direitos de exploração em aproximadamente 410 km² ao longo da tendência mineral de Borborema, o que pode abrir espaço para novas descobertas e expansão dos recursos no futuro.

Agora, o interesse pelo tungstênio acrescenta outro componente à equação.

O mineral ganhou importância estratégica justamente em um momento de disputa internacional por cadeias de fornecimento de minerais críticos.

Portanto, o Seridó pode estar diante de uma combinação pouco comum:

ouro em produção + exploração de novos recursos + minerais estratégicos + capital estrangeiro + tecnologia de mineração.

GEOPARQUE SERIDO RN foto divulgação

LEIA TAMBÉM:

Uma nova fase para a mineração potiguar

Portanto, a possível retomada do tungstênio não significa que uma nova mina já esteja garantida. A Gold Mountain ainda precisa concluir estudos, obter autorizações e decidir se seguirá com a aquisição.

Por outro lado, o movimento acontece em uma região que já apresenta uma demonstração concreta de que grandes projetos de mineração podem sair do papel.

A Mina Borborema já produz ouro, exporta e movimenta investimentos em Currais Novos.

Agora, Parelhas volta a aparecer no mapa internacional por causa de um mineral que já teve papel importante na história mundial.

Se os estudos confirmarem um depósito economicamente viável, o tungstênio poderá representar um segundo grande eixo da mineração moderna do Seridó.

Afinal, é justamente isso que torna a notícia maior do que a possível reativação de uma antiga mina: o Seridó potiguar começa a construir uma nova fase de sua história mineral, com o ouro já provando seu potencial e o tungstênio podendo abrir uma nova frente no futuro.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.