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Mineradora ligada a bilionária trumpista avança sobre terras raras na Bahia

Uma empresa australiana avança sobre uma das áreas com maior potencial para exploração de terras raras no Nordeste justamente no momento em que o Brasil acaba de criar uma nova política nacional para minerais críticos ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
23 de setembro de 2026 - às 08:59
Atualizado 23 de setembro de 2026 - às 08:59
9 min de leitura

Uma empresa australiana avança sobre uma das áreas com maior potencial para exploração de terras raras no Nordeste justamente no momento em que o Brasil acaba de criar uma nova política nacional para minerais críticos e estratégicos.

O caso envolve a Brazilian Rare Earths (BRE) e o Projeto Monte Alto, localizado entre os municípios de Ubaíra e Irajuba, no Vale do Jiquiriçá, na Bahia.

A empresa tem entre seus acionistas a Hancock Prospecting, companhia controlada pela bilionária australiana Gina Rinehart, conhecida por seu apoio ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e à agenda política MAGA. A informação sobre a participação acionária foi publicada pelo Intercept Brasil e reproduzida pelo Brasil 247.

O caso ganhou relevância porque o projeto não está apenas no radar de uma empresa estrangeira. A própria Agência Nacional de Mineração (ANM) reconhece o Monte Alto como um dos principais projetos brasileiros de terras raras em argilas iônicas.

Ao mesmo tempo, o Governo Federal sancionou, em 16 de setembro, a Lei nº 15.506/2026, que criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). A nova legislação busca ampliar a pesquisa, a produção, o beneficiamento e a transformação desses recursos dentro do país.

O que existe no Projeto Monte Alto?

O Projeto Monte Alto está situado no Vale do Jiquiriçá, região do interior da Bahia que passou a concentrar parte importante da pesquisa por terras raras.

Segundo a reportagem do Intercept Brasil, a Brazilian Rare Earths controla atualmente cerca de 167,6 mil hectares na região, onde mantém pesquisas minerárias autorizadas pela ANM.

A ANM já havia incluído o projeto no Sumário Mineral Brasileiro 2025, na relação dos principais projetos de terras raras de argilas iônicas divulgados em 2024.

Mas na lista oficial, o projeto aparece desta forma:

EstadoMunicípiosEmpresaProjeto
BahiaUbaíra / IrajubaBrazilian Rare EarthsMonte Alto/Borborema Mineração

A mesma tabela da ANM relaciona outros seis projetos de terras raras na Bahia, mostrando que o movimento não se limita à Brazilian Rare Earths.

Bahia virou um dos principais focos de terras raras do Brasil

O interesse empresarial tem uma explicação geológica.

Um estudo publicado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) em 2025 afirma que a Bahia reúne uma combinação particularmente favorável de unidades geológicas com potencial para depósitos de terras raras.

O documento classifica o estado como polo emergente de exploração de terras raras e aponta diferentes ambientes geológicos com potencial para mineralizações.

O SGB também destaca o potencial das chamadas argilas iônicas, especialmente relevantes para terras raras pesadas, e informa que dados do SIGMINE/ANM indicavam que a Bahia concentrava aproximadamente 38% das áreas requeridas para terras raras no Brasil.

Isso ajuda a explicar por que diferentes empresas estrangeiras e brasileiras passaram a disputar espaço no estado.

27 empresas solicitaram pesquisas relacionadas a terras raras

O movimento também aparece nos dados oficiais da mineração baiana.

O relatório Desempenho da Mineração Baiana 2025, elaborado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia com dados da ANM, mostra que as terras raras responderam por 15% dos requerimentos de pesquisa mineral registrados no estado em 2024.

Foram 27 titulares diferentes envolvidos nesses requerimentos.

O levantamento mostra ainda que municípios como Maracás e Caetité aparecem entre aqueles com grande número de requerimentos de pesquisa envolvendo diferentes substâncias, incluindo terras raras.

No caso de Caetité, os requerimentos abrangem, além de terras raras, ferro, manganês, urânio, quartzito, diatomito e outras substâncias.

O mapa da mineração baiana está mudando

A corrida pelas terras raras acontece dentro de um cenário mais amplo.

A Bahia já possui tradição na exploração de minerais metálicos e industriais, mas o interesse crescente por elementos utilizados em tecnologias avançadas coloca novas áreas do estado no radar de empresas de mineração.

O SGB destaca que a diversidade geológica baiana cria oportunidades para diferentes tipos de depósitos de terras raras.

Por que as terras raras são tão importantes?

Apesar do nome, “terras raras” não significa necessariamente que esses elementos sejam extremamente raros na natureza.

O problema está na concentração, separação e processamento economicamente viáveis. Os elementos de terras raras são utilizados em tecnologias como:

  • motores de veículos elétricos;
  • turbinas eólicas;
  • equipamentos eletrônicos;
  • ímãs permanentes;
  • equipamentos médicos;
  • sistemas de defesa;
  • tecnologias aeroespaciais.

A própria ANM destaca aplicações de terras raras em veículos elétricos, energias renováveis, tecnologias digitais e defesa. Por isso, esses minerais ganharam importância econômica e geopolítica nos últimos anos.

O que muda com a nova política brasileira?

A mudança aconteceu poucos dias antes da repercussão sobre o Projeto Monte Alto.

Em 16 de setembro de 2026, o governo federal sancionou a Lei nº 15.506, que criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

Contudo, a legislação não trata apenas da extração. Ela estabelece instrumentos para estimular toda a cadeia, incluindo:

pesquisa → lavra → beneficiamento → transformação → reciclagem e mineração urbana

O objetivo declarado pelo governo é aumentar a agregação de valor dentro do Brasil, estimulando também tecnologia, inovação, segurança energética e desenvolvimento regional.

A nova lei cria incentivos

A legislação também criou mecanismos de financiamento e incentivos para projetos considerados prioritários.

Entre eles está um programa que poderá permitir às empresas transformar em crédito fiscal até 20% dos gastos com beneficiamento, transformação e mineração urbana, dentro das condições estabelecidas pela política.

Com isso, o programa terá limite fiscal de R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034.

A lei também criou o Fundo Garantidor da Atividade Mineral, que poderá receber até R$ 2 bilhões da União, além de recursos de estados, municípios e entes privados.

E em que estágio está o projeto da Bahia?

Apesar do potencial, o Monte Alto ainda não é uma mina comercial em operação.

Segundo a reportagem do Intercept, a ANM concedeu em março de 2026 uma Guia de Utilização que permite, desde que sejam obtidas as demais licenças necessárias, uma lavra experimental de até 2 mil toneladas de minério por ano durante três anos.

Entretanto, a própria Borborema informou que a extração ainda não começou e depende das autorizações ambientais e radiológicas aplicáveis.

O licenciamento ambiental da futura operação comercial deverá passar pelo Ibama, que informou ao Intercept que ainda aguardava o Estudo de Impacto Ambiental e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental da empresa.

O projeto também envolve a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) por causa da presença de materiais radioativos associados à mineralização.

Moradores relatam pressão para vender propriedades

A expansão do projeto também provocou conflito fundiário na comunidade rural de Monte Alto.

Segundo o Intercept, moradores relataram mudanças na rotina provocadas pela circulação de máquinas e sondagens e afirmaram ter recebido propostas para venda de propriedades.

A reportagem afirma que aproximadamente 120 famílias vivem na localidade e que pelo menos 17 teriam vendido seus imóveis à companhia. A empresa não confirmou esse número.

Em abril, 104 das 117 famílias então contabilizadas na comunidade assinaram um manifesto entregue à Borborema. O documento relatou insegurança, desinformação, desgaste social e questionamentos sobre negociações imobiliárias.

A empresa negou as acusações de pressão ou constrangimento.

Segundo a Borborema, as negociações são individuais e baseadas em avaliações técnicas. A companhia também afirmou que não admite pressão, constrangimento ou conduta inadequada por parte de funcionários, prestadores ou representantes.

MONTE ALTO Mineração
MONTE ALTO Mineração

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Por que o caso interessa ao Nordeste?

O Projeto Monte Alto representa uma discussão que vai além da mineração baiana.

A Bahia aparece hoje em uma posição estratégica na busca brasileira por terras raras. Ao mesmo tempo, o governo federal criou uma política específica para tentar transformar esses recursos em cadeias produtivas de maior valor agregado.

Isso coloca uma questão importante para o desenvolvimento regional:

O Nordeste vai apenas fornecer o minério ou também poderá participar das etapas de beneficiamento, transformação, tecnologia e fabricação de produtos de maior valor?

A nova política federal prevê justamente instrumentos para incentivar essa segunda possibilidade.

Bahia entra no mapa global dos minerais estratégicos

Portanto, a combinação de geologia favorável, projetos privados, presença de capital estrangeiro e uma nova política federal coloca as terras raras baianas em uma posição estratégica.

No caso do Monte Alto, entretanto, ainda existe uma diferença importante entre potencial mineral, pesquisa, lavra experimental e produção comercial.

O projeto avançou na pesquisa e recebeu autorização para uma lavra experimental limitada, mas ainda depende de licenças e avaliações para chegar à exploração comercial.

Enquanto isso, a nova política brasileira começa a definir como o país pretende lidar com recursos que passaram a ter importância não apenas econômica, mas também tecnológica e geopolítica.

E a Bahia está no centro dessa nova disputa.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.