O calor que castiga o Nordeste já não é novidade para ninguém. Contudo, é preciso saber os efeitos dessa ‘quentura’ na saúde da população. Pensando nisso, uma capital no Nordeste vai mapear como as altas temperaturas impactam os moradores.
Antes de mais nada, Teresina já tem números que assustam. A princípio, o Piauí registrou 2.425 mortes associadas a ondas de calor entre 2000 e 2019, de acordo com o levantamento da Fiocruz em parceria com a UFBA. Em suma, o estudo revelou que 86% das vítimas tinham 65 anos ou mais.
Assim, diante desse cenário, a Fundação Municipal de Saúde (FMS) e a Universidade Federal do Piauí (UFPI) lançaram um programa de dois anos para investigar, na prática, como as altas temperaturas impactam a saúde de quem vive na capital.
O que o programa vai investigar sobre o calor
Batizado de “Calor Extremo e Saúde nos Ciclos de Vida em Teresina”, o projeto integra a 13ª edição do PET-Saúde: Clima, iniciativa do Ministério da Saúde que une ensino, serviço e comunidade.
Ao todo, 60 bolsistas de dez cursos da UFPI vão atuar diretamente nas unidades do SUS, organizados em cinco grupos tutoriais, cada um com coordenador, tutor, preceptores da rede municipal e oito estudantes. Juntos, eles vão mapear os pontos mais quentes da cidade, cruzando esses dados com registros de atendimento de saúde nos territórios mais vulneráveis.
Quem são os grupos prioritários
O foco do programa recai sobre três grupos específicos, justamente os que mais sofrem com o calor extremo, segundo estudos recentes:
- Gestantes
- Mulheres na menopausa
- Idosos com risco de comprometimento renal
Uma pesquisa de 2025 já havia mostrado a dimensão do problema entre grávidas: entre 411 gestantes acompanhadas em Teresina, 82% relataram cansaço aumentado com o calor e 91% nunca tinham conversado sobre o tema com profissionais de saúde.
Números que revelam a urgência
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Mortes associadas a ondas de calor no Piauí (2000–2019) | 2.425 |
| Percentual de vítimas com 65 anos ou mais | 86% |
| Bolsistas envolvidos no programa | 60 |
| Cursos da UFPI participantes | 10 |
| Grupos tutoriais | 5 |
| Gestantes que relataram cansaço aumentado com o calor | 82% |
| Gestantes que nunca conversaram sobre o tema com profissionais de saúde | 91% |
| Duração do programa | 2 anos |
Fontes: Fiocruz/UFBA, FMS e UFPI
Teresina já é referência em pesquisas sobre o calor
Portanto, o novo programa entre FMS e UFPI não surge no vácuo. Afinal, Teresina já soma outras iniciativas voltadas ao mesmo problema:
- Projeto internacional sobre gestantes: a capital é a única cidade das Américas em uma pesquisa mundial sobre o impacto do calor extremo em grávidas.
- Combate às ilhas de calor: Teresina é uma das cinco cidades brasileiras escolhidas para um projeto que prevê redução de até 5 °C nas temperaturas de bairros selecionados.
Assim, o novo programa se junta a um esforço mais amplo para transformar a capital piauiense em referência nacional sobre como o poder público pode se preparar para um clima cada vez mais quente — e proteger quem mais sente esse impacto na pele.

Por que isso importa para todo o Nordeste
Teresina é, simbolicamente, um retrato do que pode acontecer com outras capitais nordestinas. Assim, com o avanço das mudanças climáticas e a intensificação de fenômenos como o El Niño, cidades quentes e densamente povoadas tendem a enfrentar:
- Aumento de mortes por calor, especialmente entre idosos;
- Sobrecarga do SUS com atendimentos relacionados a desidratação, problemas renais e cardiovasculares;
- Desigualdade socioespacial, já que os territórios mais vulneráveis são os mais afetados;
- Necessidade de políticas públicas baseadas em dados, e não apenas em estimativas.
O programa de Teresina aponta um caminho: mapear, ouvir a população e agir com base em evidências.


