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Muro de 570 metros em praia de Pernambuco: entenda a disputa que já dura quatro anos

Muro de 570 metros em Maracaípe teve demolição suspensa pelo TRF-5. Entenda a disputa judicial, os impactos ambientais e a cronologia do caso.
Eliseu Lins, da Agência NE9
6 de novembro de 2026 - às 07:59
Atualizado 6 de novembro de 2026 - às 07:59
8 min de leitura
Muro de 570 metros no Pontal de Maracaípe, em Ipojuca, é alvo de disputa judicial e ambiental.
Barraqueiros dividem espaço no Pontal com o muro construído pelo empresário João Vita Fragoso foto Pedro Stropasolas

Construído no Pontal de Maracaípe, em Ipojuca, muro teve demolição determinada pela Justiça Federal, mas o TRF-5 suspendeu a ordem até o julgamento definitivo da ação.

Um muro de mais de 570 metros continua no centro de uma disputa judicial e ambiental no litoral sul de Pernambuco. A estrutura fica no Pontal de Maracaípe, em Ipojuca, e provoca questionamentos sobre ocupação de área pública, impactos ambientais e acesso à praia.

A princípio, o caso começou em 2022, quando a Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH) autorizou uma intervenção de contenção costeira com até 250 metros de extensão. Entretanto, a estrutura construída chegou a 570,8 metros, mais que o dobro do tamanho inicialmente autorizado.

Em maio de 2026, a Justiça Federal determinou a demolição integral do muro. Porém, em 19 de outubro, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5) suspendeu essa ordem até que a primeira instância profira uma sentença na ação civil pública.

Assim, a decisão mais recente não declarou o muro legal nem afastou os questionamentos ambientais. Na prática, apenas interrompeu temporariamente a demolição enquanto a Justiça analisa o caso.

Por que construíram um muro no Pontal de Maracaípe?

A estrutura surgiu como uma obra de contenção para proteger um imóvel contra os efeitos da erosão costeira. O responsável pela construção defendeu a necessidade de proteger a propriedade diante do avanço do mar.

Em julho de 2022, a CPRH autorizou uma contenção de até 250 metros, com utilização de troncos de coqueiros e sacos de fibra.

No entanto, a construção iniciada em maio de 2023 alcançou 570,8 metros. Além de ultrapassar a extensão autorizada, a estrutura passou a enfrentar questionamentos sobre a ocupação de áreas protegidas e a interferência no acesso à praia.

A partir daí, o caso deixou de envolver apenas a proteção de um imóvel e passou a reunir questões ambientais, fundiárias e de interesse público.

Muro tem mais que o dobro da extensão autorizada

A diferença entre o tamanho permitido e a estrutura efetivamente construída é um dos principais pontos da disputa.

CaracterísticaMedida
Extensão autorizada pela CPRH250 metros
Extensão identificada na construção570,8 metros
Excedente em relação à autorização320,8 metros
Proporção do tamanho construído2,28 vezes o autorizado

Além da extensão, a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) identificou a ocupação de 1.089,61 metros quadrados de área federal.

Uma perícia judicial também apontou que a estrutura está integralmente em área de preservação ambiental. Esses elementos passaram a integrar os argumentos apresentados no processo.

Quais impactos ambientais foram apontados?

O debate não se limita ao tamanho do muro. Os documentos técnicos mencionados no processo também relacionam a construção a possíveis impactos sobre o ambiente costeiro.

Entre os problemas identificados pela perícia estão:

  • Supressão de vegetação de restinga: retirada de vegetação que ajuda a proteger e estabilizar a faixa costeira.
  • Alteração da dinâmica natural da praia: interferência nos processos de movimentação de areia e na configuração da faixa litorânea.
  • Impactos sobre tartarugas marinhas: interferência em áreas utilizadas pelos animais para desova.
  • Resíduos plásticos: decomposição dos sacos de ráfia utilizados na estrutura, com possibilidade de liberação de resíduos no ambiente.
  • Possíveis efeitos sobre manguezais e o estuário: preocupação com áreas naturais próximas à foz do Rio Maracaípe.

O laudo pericial de setembro de 2025 apontou irregularidades e recomendou a demolição. Além disso, os questionamentos envolvem a ocupação de área pública e a necessidade de preservar os ecossistemas costeiros.

Muro também virou disputa pelo acesso à praia

Outro ponto importante envolve o direito de circulação na faixa de areia.

Sendo assim, moradores e comerciantes questionaram as dificuldades de acesso provocadas pela estrutura. Segundo os elementos apresentados na perícia, o muro pode eliminar a faixa de areia transitável durante a maré alta.

Esse aspecto amplia a discussão porque as praias brasileiras integram o patrimônio público e devem garantir o acesso da população, respeitadas as regras ambientais e de segurança.

Assim, o caso de Maracaípe reúne três questões centrais: a proteção de propriedades particulares, a preservação ambiental e o acesso público ao litoral.

Entenda a cronologia do muro de Maracaípe

A disputa passou por órgãos ambientais, Ministério Público e diferentes instâncias da Justiça. Veja os principais acontecimentos:

DataO que aconteceu
5 de julho de 2022CPRH autorizou uma contenção com até 250 metros de extensão.
22 de maio de 2023Começou a construção do muro, que alcançou 570,8 metros.
9 de setembro de 2023CPRH negou um pedido de manutenção da estrutura. Posteriormente, cancelou a autorização ambiental diante das irregularidades identificadas.
2024Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública contra o responsável pela construção.
Outubro de 2024Tribunal de Justiça de Pernambuco derrubou uma liminar que impedia a retirada da estrutura e determinou a demolição.
17 de dezembro de 2024TRF-5 autorizou a produção de provas antes de uma nova tentativa de remoção.
14 de janeiro de 2025Governo de Pernambuco iniciou a demolição do muro, com participação da CPRH.
15 de janeiro de 2025O responsável reconstruiu a estrutura poucas horas depois da retirada, alegando que uma decisão judicial permitia sua permanência durante a produção de provas.
24 de setembro de 2025Laudo pericial apontou irregularidades, impactos ambientais e recomendou a demolição.
15 de maio de 2026Justiça Federal determinou a retirada integral do muro em até 15 dias.
19 de outubro de 2026Desembargador federal Leonardo Carvalho, do TRF-5, suspendeu a ordem de demolição até a sentença da primeira instância.
Novembro de 2026Novas reportagens divulgaram a suspensão e os detalhes da disputa judicial.

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Por que a Justiça suspendeu a demolição?

Esse é o ponto central da notícia mais recente.

Em maio de 2026, a 35ª Vara Federal de Pernambuco determinou que o responsável retirasse integralmente a estrutura em até 15 dias. Caso ele não cumprisse a ordem, órgãos ambientais poderiam executar a demolição e cobrar os custos.

Assim, o responsável recorreu ao TRF-5 e apresentou argumentos para manter o muro, entre eles a necessidade de proteger o imóvel contra a erosão marinha.

Ao analisar o recurso, em 19 de outubro, o desembargador federal Leonardo Carvalho considerou que a demolição antes da sentença poderia produzir efeitos irreversíveis e comprometer uma eventual solução diferente ao final do processo.

Por isso, suspendeu temporariamente a ordem de retirada até que a primeira instância julgue a ação civil pública.

Isso significa que o muro permanece no local enquanto o processo continua. Não significa, porém, que a Justiça tenha reconhecido a legalidade da obra ou descartado os impactos ambientais apontados pela perícia.

O que ainda falta decidir?

A disputa continua na 35ª Vara Federal de Pernambuco. A sentença deverá analisar os argumentos das partes e as provas reunidas durante o processo.

Entre os pontos que ainda exigem definição estão:

  1. A legalidade da construção e o alcance da autorização ambiental concedida em 2022.
  2. A ocupação de área federal e as questões relacionadas ao patrimônio público.
  3. Os impactos ambientais apontados pela perícia.
  4. A responsabilidade do proprietário pelos possíveis danos.
  5. A eventual demolição ou manutenção da estrutura.

Com isso, o futuro do muro ainda depende de uma decisão judicial definitiva na primeira instância, sem prejuízo de novos recursos.

Um caso que ultrapassa os limites de uma propriedade particular

O muro do Pontal de Maracaípe se tornou um exemplo de como intervenções na faixa costeira podem gerar conflitos entre interesses privados, proteção ambiental e uso público das praias.

Afinal, em um destino turístico como Maracaípe, a conservação da paisagem e o acesso ao litoral também têm importância econômica e social. Afinal, a praia integra o patrimônio natural que sustenta atividades como turismo, pesca, comércio e serviços.

´Portanto, enquanto a Justiça não apresenta uma decisão definitiva, a estrutura permanece no centro de um debate que envolve não apenas um imóvel, mas também o futuro de uma área costeira de interesse coletivo.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.