Uma história que começou em Campina Grande transformou uma fibra em produto com reconhecimento internacional
Existe um produto que parece ter saído de uma história de ficção, mas nasceu de uma combinação tipicamente nordestina: pesquisa científica, agricultura familiar, criatividade e capacidade de transformar uma dificuldade em oportunidade.
É o algodão colorido da Paraíba, uma fibra que nasce naturalmente em tons como marrom, bege e verde e que, depois de décadas de pesquisa e melhoramento genético, saiu do interior paraibano para chegar ao mercado da moda e a eventos internacionais.
A princípio, a história tem um personagem fundamental: a Embrapa Algodão, instalada em Campina Grande, que desenvolveu cultivares capazes de transformar uma característica que antes limitava o uso comercial da fibra em um produto com valor agregado.
Como surgiu o algodão colorido paraibano?
Algodões naturalmente coloridos já existiam na natureza e eram utilizados por diferentes povos há milhares de anos. No Brasil, entretanto, essas fibras eram consideradas pouco interessantes para a indústria porque apresentavam características como fibras mais curtas e menor resistência.
Dessa maneira, foi justamente esse problema que passou a ser estudado pela Embrapa Algodão na Paraíba.
As pesquisas para desenvolver algodões naturalmente coloridos começaram no estado por volta de 1990. O objetivo era melhorar características da fibra, como resistência, comprimento e uniformidade, tornando-a adequada para a produção de fios e tecidos.
Assim, o resultado dessa pesquisa foi apresentado ao mercado em 2000, quando a Embrapa lançou a BRS 200 Marrom, considerada a primeira cultivar de algodão colorido geneticamente melhorada plantada comercialmente no Brasil.
A partir daí, novas variedades foram desenvolvidas e a Paraíba passou a construir uma cadeia produtiva própria em torno da fibra.


O detalhe que chama atenção: ele já nasce colorido

Diferentemente de uma roupa convencional, que recebe corantes depois que o tecido é produzido, o algodão colorido já nasce com sua tonalidade natural.
Isso significa que a fibra não precisa passar pelo processo tradicional de tingimento para adquirir sua cor.
Essa característica ajudou a transformar o algodão paraibano em uma matéria-prima especialmente interessante para o mercado de moda sustentável.
Segundo a Embrapa, o melhoramento genético permitiu desenvolver diferentes cultivares, enquanto o cultivo orgânico e agroecológico passou a ampliar ainda mais o apelo ambiental do produto.
Da lavoura do Semiárido para a agricultura familiar
O desenvolvimento do algodão colorido não ficou restrito aos laboratórios.
A nova cadeia produtiva abriu espaço para agricultores familiares, artesãos, cooperativas e pequenas empresas, especialmente no interior da Paraíba.
A própria Embrapa registra o algodão colorido agroecológico como uma oportunidade de geração de emprego e renda para a agricultura familiar do Semiárido, principalmente em nichos de mercado voltados à produção sem agroquímicos e ao comércio de produtos com maior valor agregado.
Em 2020, por exemplo, a produção paraibana de algodão colorido chegou a cerca de 100 hectares, distribuídos entre áreas do Sertão e do Agreste, com variedades como BRS Verde e BRS Rubi.
Mais recentemente, dados da Empaer citados pelo NE9 apontaram crescimento de 400% na produção de algodão agroecológico na Paraíba entre 2021 e 2024, passando de cinco para 68 famílias envolvidas no cultivo.
Uma fibra que virou moda
O algodão colorido também encontrou na moda uma forma de agregar valor à produção.
Empresas paraibanas passaram a transformar a fibra em roupas, redes, bolsas, acessórios e outros produtos, aproximando a agricultura familiar de mercados especializados.
Um dos exemplos mais conhecidos é a Natural Cotton Color, que levou peças produzidas com algodão colorido orgânico da Paraíba para eventos internacionais de moda sustentável.
Em 2024, a coleção Calunga, produzida pela marca, foi apresentada durante a Semana de Moda de Milão, em um evento dedicado à moda sustentável. A coleção reuniu peças inspiradas em tradições afro-brasileiras e utilizou algodão colorido orgânico produzido na Paraíba.
O produto que nasceu de pesquisas realizadas em Campina Grande passou, assim, a circular em um dos principais centros mundiais da moda.

Da Paraíba para o mercado internacional
A internacionalização não é apenas simbólica.
O algodão colorido paraibano conquistou, em 2012, uma Indicação Geográfica (IG) reconhecida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
O reconhecimento identifica a Paraíba como origem dos produtos têxteis confeccionados com essas cultivares e agrega valor à produção.
Produtos confeccionados com a fibra paraibana já alcançaram mercados internacionais, especialmente na Europa, Ásia e América do Norte.
O movimento acompanha uma transformação maior no mercado da moda, que passou a valorizar cada vez mais produtos com rastreabilidade, menor impacto ambiental, produção artesanal e origem conhecida.
O algodão que ajuda a contar uma história do Nordeste
O mais interessante nessa história talvez seja justamente a transformação.
Uma fibra naturalmente colorida que durante muito tempo tinha pouca utilidade industrial passou por pesquisa científica, melhoramento genético e organização de uma cadeia produtiva até se transformar em um produto associado à inovação, sustentabilidade, agricultura familiar e identidade paraibana.
Em 2022, a Assembleia Legislativa da Paraíba reconheceu oficialmente o algodão colorido como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado.
A legislação destacou justamente sua importância histórica, cultural e econômica e o papel da atividade na recuperação da cotonicultura em áreas do interior paraibano.
E a história ainda pode ganhar uma dimensão maior: existe na Câmara dos Deputados o PL 1.304/2024, de autoria do deputado Raniery Paulino, que propõe declarar o algodão colorido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. O projeto ainda está em tramitação.

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De Campina Grande para o mundo
Portanto, a trajetória do algodão colorido mostra como a ciência pode transformar uma característica natural em oportunidade econômica.
Nasceu da pesquisa da Embrapa na Paraíba, ganhou produtores no Semiárido, chegou às mãos de artesãos e empresas, conquistou uma Indicação Geográfica e atravessou o oceano até chegar à moda internacional.
Afinal, mais do que uma fibra diferente, o algodão colorido se tornou um dos exemplos de como tecnologia, tradição e identidade nordestina podem se transformar em produto competitivo no mercado global.


