Uma tem fruto vermelho-alaranjado e espinhos nos galhos. A outra é um maracujá pouco conhecido, com flores vermelhas e frutos de apenas algumas dezenas de gramas. As duas existem no Nordeste e ajudam a revelar a diversidade pouco conhecida da Caatinga.
Quando se fala em frutas nordestinas, nomes como caju, umbu, mangaba e seriguela aparecem rapidamente. No entanto, a Caatinga guarda espécies muito menos conhecidas — e algumas delas são tão raras que despertaram o interesse de pesquisadores e colecionadores.
Entre essas plantas estão a Annona spinescens, conhecida como anona-laranja ou araticum de espinho, e a Passiflora luetzelburgii, um maracujá raro encontrado em áreas do Nordeste.
1. A fruta laranja que pesquisadores procuraram durante anos

A Annona spinescens pertence à mesma família botânica das conhecidas pinha, graviola e atemoia.
Porém, ela tem uma aparência bastante diferente. O fruto apresenta coloração vermelho-alaranjada, enquanto a planta possui ramos espinhosos. A espécie cresce como arbusto ou pequena árvore, geralmente entre 2 e 4 metros de altura. Suas sementes são pretas.
E existe uma história curiosa por trás dela.
Durante expedições pelo Vale do São Francisco, pesquisadores do Jardim Botânico Plantarum passaram anos tentando localizar a espécie. A busca terminou na região de Xique-Xique, na Bahia, onde encontraram uma pequena população natural da planta.
O próprio Plantarum descreve a espécie como um araticum vermelho-alaranjado e comestível, que despertava interesse de colecionadores de frutas raras.

Por que ela chama tanta atenção?
A Annona spinescens tem uma combinação pouco comum:
| Característica | Annona spinescens |
|---|---|
| Bioma | Caatinga |
| Fruto | Vermelho-alaranjado |
| Consumo | Comestível |
| Planta | Arbusto ou pequena árvore |
| Galhos | Espinhosos |
| Sementes | Pretas |
| Ocorrência registrada | Bahia, Piauí, Mato Grosso e Minas Gerais |
| Nome popular | Anona-laranja / araticum de espinho |
O CNCFlora registra ocorrências da espécie em Bahia e Piauí, além de Mato Grosso e Minas Gerais. A avaliação disponível classifica a planta como Quase Ameaçada (NT) e registra uma área de ocupação calculada de apenas 96 km².
O levantamento também aponta pressão sobre habitats no Vale do São Francisco e cita a coleta por colecionadores como uma possível ameaça.
A “anona-laranja” quase desapareceu do radar
O nome popular ajuda a entender por que essa fruta pode surpreender até quem conhece bastante a flora nordestina.
Em registros de cultivo, ela também aparece como “Anona Laranja da Bahia”. O Jardim Botânico Plantarum relata que conseguiu localizar a espécie depois de anos de procura e, posteriormente, coletar sementes para sua propagação.
Assim, uma fruta que praticamente não aparece nas feiras e mercados acabou entrando no circuito de colecionadores de espécies raras.
2. O maracujá nordestino de flores vermelhas

A segunda espécie é ainda mais curiosa. Trata-se da Passiflora luetzelburgii, um maracujá raro encontrado em áreas do Nordeste.
O Jardim Botânico Plantarum registrou a espécie durante uma expedição pela Bahia e a descreveu como um maracujá raro encontrado na região da Chapada Diamantina.
Além disso, a espécie chamou a atenção da Embrapa Semiárido, que estudou suas características morfológicas a partir de plantas mantidas no Banco Ativo de Germoplasma da instituição.
O fruto é pequeno
O estudo da Embrapa encontrou frutos verdes com peso médio de 23 gramas, contendo aproximadamente 55 sementes e polpa de coloração amarelo-esverdeada.
As flores, entretanto, são um dos grandes destaques da planta.
A pesquisa identificou flores vermelhas, com características que despertaram interesse não apenas pela fruta, mas também pelo potencial ornamental da espécie.
Sendo assim, a Embrapa também apontou potencial para utilização em programas de melhoramento genético, graças, entre outros fatores, à elevada viabilidade do pólen observada no material estudado.
Um maracujá diferente dos mais conhecidos
Quando alguém fala em maracujá, normalmente pensa nas variedades cultivadas comercialmente.
A Passiflora luetzelburgii segue outro caminho.
Ela faz parte da diversidade de espécies nativas do gênero Passiflora encontradas no Nordeste e apresenta características próprias de fruto, folhas e flores.
Por isso, pesquisadores estudam a espécie também como recurso genético, e não apenas como uma fruta para consumo.

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O que essas duas frutas revelam sobre a Caatinga?
A Annona spinescens e a Passiflora luetzelburgii mostram que a biodiversidade nordestina vai muito além das frutas que chegaram às feiras e supermercados.
De um lado, a anona-laranja chama atenção pelo fruto vermelho-alaranjado, pelos espinhos e pela raridade registrada no ambiente natural.
De outro, o maracujá Passiflora luetzelburgii surpreende pelas flores vermelhas e pelo potencial científico identificado pela Embrapa.
E existe uma coincidência interessante: as duas espécies foram encontradas ou estudadas em áreas da Bahia durante expedições e pesquisas botânicas, mostrando como a Caatinga ainda guarda espécies pouco conhecidas.
Duas frutas que quase ninguém vê
| Espécie | Nome pelo qual pode ser conhecida | Destaque |
|---|---|---|
| Annona spinescens | Anona-laranja / araticum de espinho | Fruto vermelho-alaranjado e espécie classificada como NT |
| Passiflora luetzelburgii | Maracujá raro | Flores vermelhas e potencial ornamental/genético |
Portanto, a próxima vez que alguém disser que conhece todas as frutas do Nordeste, vale fazer uma pergunta:
Já ouviu falar da anona-laranja ou do maracujá Passiflora luetzelburgii?
Provavelmente, a resposta será não. E é justamente aí que está uma das grandes surpresas da biodiversidade nordestina: algumas das frutas mais curiosas da região ainda estão escondidas entre a vegetação da Caatinga.


