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Conheça duas das frutas mais raras e escondidas do Nordeste

Conheça duas frutas raras do Nordeste: a anona-laranja e um maracujá pouco conhecido que pesquisadores estudam na Caatinga.
Eliseu Lins, da Agência NE9
28 de setembro de 2026 - às 14:33
Atualizado 28 de setembro de 2026 - às 14:33
5 min de leitura

Uma tem fruto vermelho-alaranjado e espinhos nos galhos. A outra é um maracujá pouco conhecido, com flores vermelhas e frutos de apenas algumas dezenas de gramas. As duas existem no Nordeste e ajudam a revelar a diversidade pouco conhecida da Caatinga.

Quando se fala em frutas nordestinas, nomes como caju, umbu, mangaba e seriguela aparecem rapidamente. No entanto, a Caatinga guarda espécies muito menos conhecidas — e algumas delas são tão raras que despertaram o interesse de pesquisadores e colecionadores.

Entre essas plantas estão a Annona spinescens, conhecida como anona-laranja ou araticum de espinho, e a Passiflora luetzelburgii, um maracujá raro encontrado em áreas do Nordeste.

1. A fruta laranja que pesquisadores procuraram durante anos

A Annona spinescens pertence à mesma família botânica das conhecidas pinha, graviola e atemoia.

Porém, ela tem uma aparência bastante diferente. O fruto apresenta coloração vermelho-alaranjada, enquanto a planta possui ramos espinhosos. A espécie cresce como arbusto ou pequena árvore, geralmente entre 2 e 4 metros de altura. Suas sementes são pretas.

E existe uma história curiosa por trás dela.

Durante expedições pelo Vale do São Francisco, pesquisadores do Jardim Botânico Plantarum passaram anos tentando localizar a espécie. A busca terminou na região de Xique-Xique, na Bahia, onde encontraram uma pequena população natural da planta.

O próprio Plantarum descreve a espécie como um araticum vermelho-alaranjado e comestível, que despertava interesse de colecionadores de frutas raras.

Por que ela chama tanta atenção?

A Annona spinescens tem uma combinação pouco comum:

CaracterísticaAnnona spinescens
BiomaCaatinga
FrutoVermelho-alaranjado
ConsumoComestível
PlantaArbusto ou pequena árvore
GalhosEspinhosos
SementesPretas
Ocorrência registradaBahia, Piauí, Mato Grosso e Minas Gerais
Nome popularAnona-laranja / araticum de espinho

O CNCFlora registra ocorrências da espécie em Bahia e Piauí, além de Mato Grosso e Minas Gerais. A avaliação disponível classifica a planta como Quase Ameaçada (NT) e registra uma área de ocupação calculada de apenas 96 km².

O levantamento também aponta pressão sobre habitats no Vale do São Francisco e cita a coleta por colecionadores como uma possível ameaça.

A “anona-laranja” quase desapareceu do radar

O nome popular ajuda a entender por que essa fruta pode surpreender até quem conhece bastante a flora nordestina.

Em registros de cultivo, ela também aparece como “Anona Laranja da Bahia”. O Jardim Botânico Plantarum relata que conseguiu localizar a espécie depois de anos de procura e, posteriormente, coletar sementes para sua propagação.

Assim, uma fruta que praticamente não aparece nas feiras e mercados acabou entrando no circuito de colecionadores de espécies raras.

2. O maracujá nordestino de flores vermelhas

A segunda espécie é ainda mais curiosa. Trata-se da Passiflora luetzelburgii, um maracujá raro encontrado em áreas do Nordeste.

O Jardim Botânico Plantarum registrou a espécie durante uma expedição pela Bahia e a descreveu como um maracujá raro encontrado na região da Chapada Diamantina.

Além disso, a espécie chamou a atenção da Embrapa Semiárido, que estudou suas características morfológicas a partir de plantas mantidas no Banco Ativo de Germoplasma da instituição.

O fruto é pequeno

O estudo da Embrapa encontrou frutos verdes com peso médio de 23 gramas, contendo aproximadamente 55 sementes e polpa de coloração amarelo-esverdeada.

As flores, entretanto, são um dos grandes destaques da planta.

A pesquisa identificou flores vermelhas, com características que despertaram interesse não apenas pela fruta, mas também pelo potencial ornamental da espécie.

Sendo assim, a Embrapa também apontou potencial para utilização em programas de melhoramento genético, graças, entre outros fatores, à elevada viabilidade do pólen observada no material estudado.

Um maracujá diferente dos mais conhecidos

Quando alguém fala em maracujá, normalmente pensa nas variedades cultivadas comercialmente.

A Passiflora luetzelburgii segue outro caminho.

Ela faz parte da diversidade de espécies nativas do gênero Passiflora encontradas no Nordeste e apresenta características próprias de fruto, folhas e flores.

Por isso, pesquisadores estudam a espécie também como recurso genético, e não apenas como uma fruta para consumo.

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O que essas duas frutas revelam sobre a Caatinga?

A Annona spinescens e a Passiflora luetzelburgii mostram que a biodiversidade nordestina vai muito além das frutas que chegaram às feiras e supermercados.

De um lado, a anona-laranja chama atenção pelo fruto vermelho-alaranjado, pelos espinhos e pela raridade registrada no ambiente natural.

De outro, o maracujá Passiflora luetzelburgii surpreende pelas flores vermelhas e pelo potencial científico identificado pela Embrapa.

E existe uma coincidência interessante: as duas espécies foram encontradas ou estudadas em áreas da Bahia durante expedições e pesquisas botânicas, mostrando como a Caatinga ainda guarda espécies pouco conhecidas.

Duas frutas que quase ninguém vê

EspécieNome pelo qual pode ser conhecidaDestaque
Annona spinescensAnona-laranja / araticum de espinhoFruto vermelho-alaranjado e espécie classificada como NT
Passiflora luetzelburgiiMaracujá raroFlores vermelhas e potencial ornamental/genético

Portanto, a próxima vez que alguém disser que conhece todas as frutas do Nordeste, vale fazer uma pergunta:

Já ouviu falar da anona-laranja ou do maracujá Passiflora luetzelburgii?

Provavelmente, a resposta será não. E é justamente aí que está uma das grandes surpresas da biodiversidade nordestina: algumas das frutas mais curiosas da região ainda estão escondidas entre a vegetação da Caatinga.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.