Ocupa áreas de seis estados nordestinos, mas segue ameaçado pelo avanço do agronegócio
Quando se fala em Cerrado, a imagem que vem à mente é quase sempre a do Planalto Central — Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais. Pouca gente lembra que o bioma também marca presença significativa no Nordeste, ocupando partes do Maranhão, Piauí, Bahia, Ceará, Pernambuco e Paraíba.
Essa presença, tantas vezes ignorada, é tema de estudos científicos que vêm revelando a riqueza e a vulnerabilidade do Cerrado nordestino. A princípio, esse é um ecossistema que resiste entre a Caatinga, a Amazônia e a Mata Atlântica, mas que enfrenta pressões cada vez maiores.
Onde fica o Cerrado no Nordeste?
Antes de mais nada, ao contrário do que o senso comum sugere, o Nordeste não é feito apenas de Caatinga e Mata Atlântica. Ao mesmo tempo, o Cerrado ocupa pequenas áreas da região, especialmente na transição com outras formações vegetais.
| Estado | Áreas de ocorrência do Cerrado |
|---|---|
| Maranhão | Sul do estado, com predomínio de Cerrado em diversas fitofisionomias |
| Piauí | Sudoeste do estado; maior extensão de Cerrado do Nordeste, com cerca de 11,5 milhões de hectares |
| Bahia | Oeste do estado, incluindo a região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) |
| Ceará | Áreas interioranas do Sul e Centro-Sul, incluindo o Cariri cearense |
| Pernambuco | Microrregião de Araripina e fragmentos na Chapada do Araripe |
| Paraíba | Enclaves em remanescentes de Mata Atlântica, como na APA Barra do Rio Mamanguape |
O Cerrado nordestino é reconhecido cientificamente como uma província fitogeográfica distinta do Cerrado central. Assim, tem características próprias e influências da Caatinga, Amazônia e Mata Atlântica.

Um bioma mais rico do que se pensava
Dessa forma, estudos recentes têm derrubado a ideia de que o Cerrado nordestino seria uma versão empobrecida do Cerrado central. Pesquisadores já catalogaram 936 espécies de plantas lenhosas na região — número que surpreendeu a comunidade científica.
Em suma, a riqueza não está apenas na flora. O Cerrado nordestino abriga espécies endêmicas e serve como corredor ecológico entre diferentes biomas, o que o torna estratégico para a conservação da biodiversidade brasileira.
| Aspecto | Informação |
|---|---|
| Estados nordestinos com Cerrado | MA, PI, BA, CE, PE, PB |
| Maior extensão no Nordeste | Piauí (cerca de 11,5 milhões de hectares) |
| Fitofisionomias | Campo limpo, campo sujo, cerrado sensu stricto, cerradão |
| Áreas de endemismo | Chapada do Araripe, Chapada Diamantina, cerrados litorâneos |
| Riqueza de espécies | 936 espécies lenhosas catalogadas |
| Principais ameaças | Agronegócio, desmatamento, expansão da fronteira agrícola |
As ameaças
A devastação que já consumiu mais de 48% da cobertura original do Cerrado brasileiro também avança sobre a porção nordestina do bioma. A expansão da fronteira agrícola — especialmente na região do Matopiba — tem pressionado os remanescentes de Cerrado no Maranhão, Piauí e Bahia.
Desse modo, o avanço do agronegócio, a pecuária extensiva e a extração de madeira para carvão são as principais frentes de pressão. Em estados como o Ceará e Pernambuco, a situação é ainda mais crítica, já que os fragmentos de Cerrado são menores e mais isolados.
Guimarães Rosa e o Cerrado
A riqueza do Cerrado — e os riscos que ele enfrenta — já eram percebidos por João Guimarães Rosa na década de 1950. Em 1952, o escritor percorreu 240 quilômetros do Cerrado mineiro acompanhando uma comitiva de boiadeiros. As anotações que fez pelo caminho deram origem a Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, publicados em 1956 e que completam 70 anos em 2026.
Segundo a professora Mônica Meyer, da UFMG, a viagem foi um verdadeiro inventário do Cerrado.
“Ele viu que o forno das siderúrgicas era alimentado com o carvão oriundo do Cerrado. Hoje a gente sabe que a devastação é feita pelo agronegócio”, explica a pesquisadora.
Para Meyer, Guimarães Rosa não tratava o Cerrado como cenário, mas como personagem. “O ser humano não está dissociado da natureza. A natureza faz parte do corpo de cada ser vivo.”
O que está em jogo
O Cerrado nordestino é, ao mesmo tempo, um dos biomas mais ricos e um dos mais ameaçados do Brasil. Sua presença em seis estados nordestinos o torna estratégico para a conservação da biodiversidade e para a regulação hídrica de bacias que abastecem milhões de pessoas.
A obra de Guimarães Rosa, 70 anos depois, continua sendo um convite para olhar esse Cerrado — inclusive o nordestino — com outros olhos. Não como um vazio a ser ocupado, mas como um espaço vivo, cheio de histórias, espécies e saberes.
“É um material riquíssimo para trabalhar aspectos da educação ambiental. É, sem sombra de dúvida, uma grande enciclopédia do Cerrado”, conclui Mônica Meyer.
Se Riobaldo atravessou o grande sertão em busca de respostas, o leitor contemporâneo pode encontrar nelas um chamado urgente: conhecer, valorizar e proteger o Cerrado — em todas as suas formas, em todos os cantos do Brasil.

