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Cerrado no Nordeste: o bioma esquecido que resiste entre a Caatinga e a Amazônia

Ocupa áreas de seis estados nordestinos, mas segue ameaçado pelo avanço do agronegócio Quando se fala em Cerrado, a imagem que vem à mente é quase sempre a do Planalto Central — Goiás, Mato Grosso, Minas ...
REDAÇÃO ELISEU, da Agência NE9
11 de setembro de 2026 - às 08:27
Atualizado 11 de setembro de 2026 - às 08:27
5 min de leitura

Ocupa áreas de seis estados nordestinos, mas segue ameaçado pelo avanço do agronegócio

Quando se fala em Cerrado, a imagem que vem à mente é quase sempre a do Planalto Central — Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais. Pouca gente lembra que o bioma também marca presença significativa no Nordeste, ocupando partes do Maranhão, Piauí, Bahia, Ceará, Pernambuco e Paraíba.

Essa presença, tantas vezes ignorada, é tema de estudos científicos que vêm revelando a riqueza e a vulnerabilidade do Cerrado nordestino. A princípio, esse é um ecossistema que resiste entre a Caatinga, a Amazônia e a Mata Atlântica, mas que enfrenta pressões cada vez maiores.

Onde fica o Cerrado no Nordeste?

Antes de mais nada, ao contrário do que o senso comum sugere, o Nordeste não é feito apenas de Caatinga e Mata Atlântica. Ao mesmo tempo, o Cerrado ocupa pequenas áreas da região, especialmente na transição com outras formações vegetais.

EstadoÁreas de ocorrência do Cerrado
MaranhãoSul do estado, com predomínio de Cerrado em diversas fitofisionomias
PiauíSudoeste do estado; maior extensão de Cerrado do Nordeste, com cerca de 11,5 milhões de hectares
BahiaOeste do estado, incluindo a região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia)
CearáÁreas interioranas do Sul e Centro-Sul, incluindo o Cariri cearense
PernambucoMicrorregião de Araripina e fragmentos na Chapada do Araripe
ParaíbaEnclaves em remanescentes de Mata Atlântica, como na APA Barra do Rio Mamanguape

O Cerrado nordestino é reconhecido cientificamente como uma província fitogeográfica distinta do Cerrado central. Assim, tem características próprias e influências da Caatinga, Amazônia e Mata Atlântica.

Cerrado baiano. Foto: Secom-BA
Cerrado baiano. Foto: Secom-BA

Um bioma mais rico do que se pensava

Dessa forma, estudos recentes têm derrubado a ideia de que o Cerrado nordestino seria uma versão empobrecida do Cerrado central. Pesquisadores já catalogaram 936 espécies de plantas lenhosas na região — número que surpreendeu a comunidade científica.

Em suma, a riqueza não está apenas na flora. O Cerrado nordestino abriga espécies endêmicas e serve como corredor ecológico entre diferentes biomas, o que o torna estratégico para a conservação da biodiversidade brasileira.

AspectoInformação
Estados nordestinos com CerradoMA, PI, BA, CE, PE, PB
Maior extensão no NordestePiauí (cerca de 11,5 milhões de hectares)
FitofisionomiasCampo limpo, campo sujo, cerrado sensu stricto, cerradão
Áreas de endemismoChapada do Araripe, Chapada Diamantina, cerrados litorâneos
Riqueza de espécies936 espécies lenhosas catalogadas
Principais ameaçasAgronegócio, desmatamento, expansão da fronteira agrícola

As ameaças

A devastação que já consumiu mais de 48% da cobertura original do Cerrado brasileiro também avança sobre a porção nordestina do bioma. A expansão da fronteira agrícola — especialmente na região do Matopiba — tem pressionado os remanescentes de Cerrado no Maranhão, Piauí e Bahia.

Desse modo, o avanço do agronegócio, a pecuária extensiva e a extração de madeira para carvão são as principais frentes de pressão. Em estados como o Ceará e Pernambuco, a situação é ainda mais crítica, já que os fragmentos de Cerrado são menores e mais isolados.

Guimarães Rosa e o Cerrado

A riqueza do Cerrado — e os riscos que ele enfrenta — já eram percebidos por João Guimarães Rosa na década de 1950. Em 1952, o escritor percorreu 240 quilômetros do Cerrado mineiro acompanhando uma comitiva de boiadeiros. As anotações que fez pelo caminho deram origem a Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, publicados em 1956 e que completam 70 anos em 2026.

Segundo a professora Mônica Meyer, da UFMG, a viagem foi um verdadeiro inventário do Cerrado.

“Ele viu que o forno das siderúrgicas era alimentado com o carvão oriundo do Cerrado. Hoje a gente sabe que a devastação é feita pelo agronegócio”, explica a pesquisadora.

Para Meyer, Guimarães Rosa não tratava o Cerrado como cenário, mas como personagem“O ser humano não está dissociado da natureza. A natureza faz parte do corpo de cada ser vivo.”

O que está em jogo

O Cerrado nordestino é, ao mesmo tempo, um dos biomas mais ricos e um dos mais ameaçados do Brasil. Sua presença em seis estados nordestinos o torna estratégico para a conservação da biodiversidade e para a regulação hídrica de bacias que abastecem milhões de pessoas.

A obra de Guimarães Rosa, 70 anos depois, continua sendo um convite para olhar esse Cerrado — inclusive o nordestino — com outros olhos. Não como um vazio a ser ocupado, mas como um espaço vivo, cheio de histórias, espécies e saberes.

“É um material riquíssimo para trabalhar aspectos da educação ambiental. É, sem sombra de dúvida, uma grande enciclopédia do Cerrado”, conclui Mônica Meyer.

Se Riobaldo atravessou o grande sertão em busca de respostas, o leitor contemporâneo pode encontrar nelas um chamado urgente: conhecer, valorizar e proteger o Cerrado — em todas as suas formas, em todos os cantos do Brasil.