Imagine um mapa guardado numa biblioteca de Harvard, nos Estados Unidos, há quase 400 anos. Um documento empoeirado, manuscrito por um naturalista alemão a serviço dos holandeses, que descreve com detalhes uma região do Brasil colonial que a historiografia oficial preferiu esquecer: os mocambos onde pessoas negras escravizadas viviam livres, organizadas e resistindo.
Foi esse mapa que o cartógrafo Levy Pereira encontrou no acervo da Universidade de Harvard: a versão original manuscrita do “Brasilia Qua Parte Paret Belgis”, elaborado por George Marcgraf durante a ocupação holandesa no Nordeste, entre 1630 e 1654 .
A descoberta, feita em 2021, só agora começa a render frutos. E o que ela revela pode mudar tudo o que sabíamos sobre Palmares.
O que o mapa tem de tão especial?
A princípio, a cartografia de Marcgraf já era conhecida dos historiadores. O problema é que as versões que circulavam eram reproduções. E essas cópias de cópias, impressas a partir de chapas de cobre que se desgastavam com o tempo. A cada retoque, os erros se acumulavam .
Antes de mais nada, o documento que Levy Pereira encontrou em Harvard é a versão original, feita à mão pelo próprio Marcgraf. Sem erros de impressão, sem distorções. Um retrato fiel do território nordestino como os holandeses o viam — e, mais importante, como os africanos e afrodescendentes o ocupavam .
Assim, com esse mapa em mãos, uma equipe multidisciplinar da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) cruzou os dados cartográficos com imagens de satélite de alta resolução e com os relatos escritos por um comandante holandês que, em 1645, liderou uma expedição militar contra os quilombos .
O nome dele: Johan Blaer (ou Blae r, dependendo da grafia). E o que ele descreveu é revelador.
Os três quilombos que mudaram a história
Blaer era capelão e comandante de uma expedição que saiu de Salgados, em Alagoas, em 26 de fevereiro de 1645, com o objetivo de destruir os mocambos que os holandeses chamavam de “Palmares” .
Em suma, no diário que escreveu, Blaer descreve três quilombos encontrados ao longo do caminho:

A descrição do terceiro quilombo é impressionante. Blaer relata:
“Este Palmares tinha igualmente meia milha de comprido; as casas eram em número de 220 e no meio delas erguia-se uma igreja, quatro forjas e uma grande casa de conselho; havia entre os habitantes toda a sorte de artífices e o seu rei os governava com severa justiça” .
220 casas. Igreja. Quatro forjas. Casa de conselho. Não estamos falando de um esconderijo improvisado na mata. Estamos falando de uma cidade.
O que isso muda?
Até hoje, a historiografia tradicional tratou Palmares como um lugar só — a Serra da Barriga, em Alagoas, onde Zumbi resistiu até 1695. Mas o mapa de Harvard e o relato de Blaer sugerem algo muito maior: uma rede de mocambos interligados, espalhados entre o Agreste pernambucano e o território alagoano .
Segundo o arqueólogo Flávio Moraes, da UFAL, a historiografia sempre olhou para a história negra “pelos instrumentos de opressão e pouco pelos espaços onde essas comunidades viviam e existiam no dia a dia” .
“Na Serra da Barriga foram feitas diversas escavações e nunca encontramos cultura material que nos mostrasse como era o cotidiano desse povo”, diz Moraes .
A nova hipótese — ainda em teste, vale ressaltar — é que Palmares era uma rede em movimento, um sistema de comunidades que se articulavam, se sucediam e se reorganizavam conforme a pressão colonial aumentava.
Quem já dizia isso?
Há um nome que precisa ser lembrado nessa conversa: Beatriz Nascimento (1942-1995).
Historiadora, poeta e ativista sergipana, Beatriz foi uma das maiores pesquisadoras de Palmares no Brasil. Desde a década de 1970, ela defendia exatamente essa perspectiva: o quilombo não como um lugar fixo, mas como uma rede em movimento, um sistema social alternativo que se reconfigurava .
“Palmares tem essa simbologia de ser um local em que o povo negro buscou liberdade”, dizia ela .
A descoberta do mapa de Harvard, quase 30 anos após sua morte, parece dar razão a Beatriz. E isso não é coincidência: é o reconhecimento tardio de uma intelectual que enxergou o que a academia tradicional insistia em ignorar.
O que vem agora?
Ao mesmo tempo, as escavações arqueológicas começaram em janeiro de 2026, com financiamento da Fundação Cultural Palmares e autorização do Iphan . A equipe já esteve em campo em Chã Preta (AL) em janeiro e maio, buscando evidências materiais que confirmem a ligação entre os sítios .
O que eles esperam encontrar?
- Cerâmicas de produção africana (diferentes das indígenas)
- Vestígios de fundição de ferro — os quilombolas dominavam a metalurgia, algo que os indígenas não praticavam
- Urnas funerárias e vestígios de construções
- Restos de paliçadas e fossos — as estruturas de defesa descritas por Blaer
Até agora, tudo é hipótese. Os resultados das escavações ainda não tiveram divulgação, e a validação por historiadores externos à equipe ainda não aconteceu. Contudo, a a pesquisa já tem um mérito inegável: colocar em debate uma visão de Palmares que vai além do mito e busca a materialidade da vida cotidiana .
Por que isso importa?
Porque a história de Palmares não é só sobre resistência. É sobre como pessoas negras escravizadas construíram vidas plenas — com casas, igrejas, forjas, roças e sistemas de governo. É sobre agência, não apenas sobre sofrimento.
E porque, como diz o arqueólogo Onésimo Santos, a impressão que se tem ao ler os livros de história é que “essas pessoas eram fracas, estavam subjugadas, já nasceram escravas” — quando, na verdade, elas foram sequestradas, torturadas e privadas de liberdade. Em resumo, a única forma de enfrentar isso era por meio da resistência organizada .
Portanto, o mapa de Harvard não é só um documento cartográfico. É uma prova material de que a liberdade era possível — e de que ela foi construída, tijolo por tijolo, casa por casa, forja por forja, por pessoas que se recusaram a aceitar a escravidão como destino.

