Projeto entre a Diamante Energia e a Uece recebeu R$ 2,7 milhões e vai testar, em escala industrial, a substituição parcial do carvão mineral por biocarvão produzido a partir de um resíduo abundante no litoral cearense
Uma pesquisa desenvolvida no Ceará está transformando um resíduo bastante comum no litoral nordestino em uma possível alternativa para a geração de energia. A casca do coco verde está sendo convertida em biocarvão, ou biochar, que será testado em uma termelétrica do Complexo do Pecém, em São Gonçalo do Amarante.
A princípio, a iniciativa reúne a Diamante Energia e a Universidade Estadual do Ceará (Uece) e recebeu R$ 2,7 milhões por meio do programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) da Aneel. Assim, o projeto busca avaliar se o material consegue substituir parte do carvão mineral sem comprometer o desempenho da usina e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões associadas à geração de energia.
A pesquisa entrou agora em uma etapa importante: o teste em condições reais de operação.
Do coco que seria descartado para a geração de energia
A primeira remessa já chegou à unidade de geração.
A Uece produziu 880 quilos de biocarvão a partir da casca do coco e enviou o material para a UTE Energia Pecém. Esse volume foi misturado a 87,12 toneladas de carvão mineral armazenadas na termelétrica.
Além do mais, a equipe ainda produzirá outros 520 quilos de biocarvão para completar o volume previsto para o experimento. Em outubro, os pesquisadores pretendem acompanhar a combustão da mistura na caldeira industrial.
O teste permitirá observar como o biocarvão se comporta em uma operação industrial de verdade.

A conta chama atenção
Para produzir 1 quilo de biocarvão, o projeto utiliza aproximadamente 8,5 quilos de coco residual. O material pode vir de comércios, fábricas de água de coco e outros pontos de geração do resíduo.
Isso cria uma possibilidade interessante para o Ceará: transformar um problema de descarte em matéria-prima para uma nova cadeia produtiva.
O que é o biocarvão?
O biocarvão, também conhecido como biochar, é um material produzido a partir da transformação térmica de biomassa.
Neste projeto, a matéria-prima é a casca do coco verde.
A Uece utiliza uma unidade piloto de pirólise e torrefação de biomassa, desenvolvida para processar volumes maiores de casca de coco e avaliar fatores como temperatura, tempo de processamento, granulometria, rendimento e qualidade do produto final.
O objetivo não é simplesmente produzir carvão vegetal. A pesquisa procura encontrar uma composição capaz de reduzir emissões sem prejudicar a capacidade energética da termelétrica.

Menos carvão mineral, menor emissão?
Essa é justamente uma das perguntas que o experimento pretende responder.
O estudo vai avaliar o poder calorífico do biocarvão, o comportamento da mistura durante a combustão e os efeitos sobre as emissões atmosféricas.
O material também apresenta menor teor de enxofre em comparação com o carvão mineral, segundo informações divulgadas pela Diamante Energia.
Outro ponto investigado será o potencial de geração de créditos de carbono.
A lógica é que parte do carbono presente na biomassa tem origem biogênica. Assim, aumentar a participação do biocarvão na mistura pode reduzir o componente fóssil utilizado no processo e, potencialmente, diminuir as emissões de CO₂ associadas à geração. O tamanho dessa redução, porém, ainda depende dos resultados dos testes.
Pecém vira laboratório para uma nova etapa da pesquisa
O projeto também coloca o Ceará em uma discussão maior sobre o futuro das termelétricas.
A Energia Pecém possui capacidade instalada de 720 MW e foi recontratada no Leilão de Reserva de Capacidade de 2026 para operar até 2037. A própria Diamante destaca o desenvolvimento de projetos de inovação na unidade, incluindo pesquisas com hidrogênio verde e biochar.
Assim, nesse cenário, o experimento com a casca do coco tenta encontrar uma alternativa para reduzir a dependência exclusiva do combustível fóssil.
A pesquisa tem duração prevista de 24 meses, com conclusão prevista para dezembro de 2026, e inclui a construção e operação da unidade piloto de processamento da biomassa.

Uma possível nova cadeia econômica para o litoral
O projeto pode ter impacto além dos muros da termelétrica.
O Ceará possui uma forte atividade ligada ao coco e uma grande geração de cascas em áreas urbanas, pontos de venda, produtores e fábricas de água de coco. Em vez de simplesmente descartar esse material, uma eventual expansão da tecnologia poderia criar demanda por coleta, transporte, processamento e fornecimento da biomassa.
Entretanto, a própria pesquisa aponta possibilidades de economia circular e geração de empregos associadas ao aproveitamento do resíduo.
Contudo, ainda é cedo para falar em uma substituição em larga escala do carvão mineral. Primeiro, os pesquisadores precisam comprovar o desempenho técnico e ambiental da mistura.
Mas a experiência do Ceará chama atenção justamente por conectar agricultura, resíduos, pesquisa científica, indústria e energia em um único projeto.

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O que acontece agora?
O próximo passo será o teste industrial previsto para outubro de 2026.
Portanto, os pesquisadores vão acompanhar a combustão da mistura na caldeira e analisar seu desempenho. Os resultados devem ajudar a determinar qual percentual de biocarvão pode ser utilizado sem comprometer a geração de energia e qual redução de emissões pode ser alcançada.
Se os resultados forem positivos, o experimento poderá abrir caminho para novas pesquisas e para uma utilização maior da biomassa do coco na geração de energia.
Afinal,de uma casca que muitas vezes termina no lixo, o Ceará tenta criar um combustível capaz de entrar na indústria e ajudar a reduzir a pegada de carbono da geração elétrica.
Os números do projeto
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Investimento | R$ 2,7 milhões |
| Parceiros | Diamante Energia + Uece |
| Origem do biocarvão | Casca de coco verde |
| Primeira remessa | 880 kg |
| Biocarvão adicional | 520 kg |
| Carvão mineral no primeiro blend | 87,12 toneladas |
| Teste industrial | Outubro de 2026 |
| Duração prevista do projeto | 24 meses |
| Previsão de conclusão | Dezembro de 2026 |
| Coco necessário para 1 kg de biocarvão | Cerca de 8,5 kg |
Fontes: Uece, UFRN, Diamante Energia e TrendsCE.


