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Ceará testa biocarvão feito de casca de coco para produzir energia elétrica

Projeto de R$ 2,7 milhões transforma casca de coco em biocarvão e testa substituição parcial do carvão mineral na termelétrica do Pecém.
Redação NE9 Nordeste, da Agência NE9
18 de agosto de 2026 - às 09:14
Atualizado 18 de agosto de 2026 - às 09:14
6 min de leitura

Projeto entre a Diamante Energia e a Uece recebeu R$ 2,7 milhões e vai testar, em escala industrial, a substituição parcial do carvão mineral por biocarvão produzido a partir de um resíduo abundante no litoral cearense

Uma pesquisa desenvolvida no Ceará está transformando um resíduo bastante comum no litoral nordestino em uma possível alternativa para a geração de energia. Dessa forma, a casca do coco verde está sendo convertida em biocarvão, ou biochar, que será testado em uma termelétrica do Complexo do Pecém, em São Gonçalo do Amarante.

A princípio, a iniciativa reúne a Diamante Energia e a Universidade Estadual do Ceará (Uece) e recebeu R$ 2,7 milhões por meio do programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) da Aneel. Assim, o projeto busca avaliar se o material consegue substituir parte do carvão mineral sem comprometer o desempenho da usina e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões associadas à geração de energia.

A pesquisa entrou agora em uma etapa importante: o teste em condições reais de operação.

Do coco que seria descartado para a geração de energia

A primeira remessa já chegou à unidade de geração.

Em suma, a Uece produziu 880 quilos de biocarvão a partir da casca do coco e enviou o material para a UTE Energia Pecém. Ao mesmo tempo, esse volume foi misturado a 87,12 toneladas de carvão mineral armazenadas na termelétrica.

Além disso, a equipe ainda produzirá outros 520 quilos de biocarvão para completar o volume previsto para o experimento. Em outubro, os pesquisadores pretendem acompanhar a combustão da mistura na caldeira industrial.

Antes de mais nada, o teste permitirá observar como o biocarvão se comporta em uma operação industrial de verdade.

Energia Pecem foto divulgação (1)
Energia Pecem foto divulgação

A conta chama atenção

Para produzir 1 quilo de biocarvão, o projeto utiliza aproximadamente 8,5 quilos de coco residual. O material pode vir de comércios, fábricas de água de coco e outros pontos de geração do resíduo.

Desse modo, isso cria uma possibilidade interessante para o Ceará: transformar um problema de descarte em matéria-prima para uma nova cadeia produtiva.

O que é o biocarvão?

O biocarvão, também conhecido como biochar, é um material produzido a partir da transformação térmica de biomassa.

Neste projeto, a matéria-prima é a casca do coco verde.

A Uece utiliza uma unidade piloto de pirólise e torrefação de biomassa, desenvolvida para processar volumes maiores de casca de coco e avaliar fatores como temperatura, tempo de processamento, granulometria, rendimento e qualidade do produto final.

Portanto, o objetivo não é simplesmente produzir carvão vegetal. Em resumo, a pesquisa procura encontrar uma composição capaz de reduzir emissões sem prejudicar a capacidade energética da termelétrica.

biocarvão
biocarvão

Menos carvão mineral, menor emissão?

Essa é justamente uma das perguntas que o experimento pretende responder.

O estudo vai avaliar o poder calorífico do biocarvão, o comportamento da mistura durante a combustão e os efeitos sobre as emissões atmosféricas.

O material também apresenta menor teor de enxofre em comparação com o carvão mineral, segundo informações divulgadas pela Diamante Energia.

Outro ponto investigado será o potencial de geração de créditos de carbono.

A lógica é que parte do carbono presente na biomassa tem origem biogênica. Assim, aumentar a participação do biocarvão na mistura pode reduzir o componente fóssil utilizado no processo e, potencialmente, diminuir as emissões de CO₂ associadas à geração. O tamanho dessa redução, porém, ainda depende dos resultados dos testes.

Pecém vira laboratório para uma nova etapa da pesquisa

O projeto também coloca o Ceará em uma discussão maior sobre o futuro das termelétricas.

A Energia Pecém possui capacidade instalada de 720 MW e foi recontratada no Leilão de Reserva de Capacidade de 2026 para operar até 2037. A própria Diamante destaca o desenvolvimento de projetos de inovação na unidade, incluindo pesquisas com hidrogênio verde e biochar.

Assim, nesse cenário, o experimento com a casca do coco tenta encontrar uma alternativa para reduzir a dependência exclusiva do combustível fóssil.

A pesquisa tem duração prevista de 24 meses, com conclusão prevista para dezembro de 2026, e inclui a construção e operação da unidade piloto de processamento da biomassa.

Uma possível nova cadeia econômica para o litoral

O projeto pode ter impacto além dos muros da termelétrica.

O Ceará possui uma forte atividade ligada ao coco e uma grande geração de cascas em áreas urbanas, pontos de venda, produtores e fábricas de água de coco. Em vez de simplesmente descartar esse material, uma eventual expansão da tecnologia poderia criar demanda por coleta, transporte, processamento e fornecimento da biomassa.

Entretanto, a própria pesquisa aponta possibilidades de economia circular e geração de empregos associadas ao aproveitamento do resíduo.

Contudo, ainda é cedo para falar em uma substituição em larga escala do carvão mineral. Primeiro, os pesquisadores precisam comprovar o desempenho técnico e ambiental da mistura.

Mas a experiência do Ceará chama atenção justamente por conectar agricultura, resíduos, pesquisa científica, indústria e energia em um único projeto.

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O próximo passo será o teste industrial previsto para outubro de 2026.

Portanto, os pesquisadores vão acompanhar a combustão da mistura na caldeira e analisar seu desempenho. Os resultados devem ajudar a determinar qual percentual de biocarvão pode ser utilizado sem comprometer a geração de energia e qual redução de emissões pode ser alcançada.

Se os resultados forem positivos, o experimento poderá abrir caminho para novas pesquisas e para uma utilização maior da biomassa do coco na geração de energia.

Afinal,de uma casca que muitas vezes termina no lixo, o Ceará tenta criar um combustível capaz de entrar na indústria e ajudar a reduzir a pegada de carbono da geração elétrica.

Os números do projeto

IndicadorDado
InvestimentoR$ 2,7 milhões
ParceirosDiamante Energia + Uece
Origem do biocarvãoCasca de coco verde
Primeira remessa880 kg
Biocarvão adicional520 kg
Carvão mineral no primeiro blend87,12 toneladas
Teste industrialOutubro de 2026
Duração prevista do projeto24 meses
Previsão de conclusãoDezembro de 2026
Coco necessário para 1 kg de biocarvãoCerca de 8,5 kg

Fontes: Uece, UFRN, Diamante Energia e TrendsCE.