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Política

Nordeste amplia votação de Lula e ataques à região voltam a ganhar força

Nordeste deu 24,45 milhões de votos a Lula no segundo turno. Caso de jogador do Bahia reacende debate sobre preconceito regional.
Eliseu Lins, da Agência NE9
27 de outubro de 2026 - às 07:39
Atualizado 27 de outubro de 2026 - às 07:39
5 min de leitura

Região somou 24,45 milhões de votos para o presidente no segundo turno; caso do atacante Willian José, do Bahia, reacendeu o debate sobre preconceito contra nordestinos nas redes sociais

O resultado das eleições de 2026 voltou a colocar o Nordeste no centro do debate nacional. Depois de ampliar a votação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno, a região também voltou a enfrentar manifestações ofensivas nas redes sociais. O episódio mais recente envolve o atacante Willian José, do Esporte Clube Bahia, que compartilhou um vídeo com críticas ao eleitorado nordestino.

Os números ajudam a dimensionar a disputa. No segundo turno, realizado em 25 de outubro, Lula recebeu aproximadamente 24,45 milhões de votos nos nove estados nordestinos, o equivalente a cerca de 69,4% dos votos válidos da região. Flávio Bolsonaro (PL) somou aproximadamente 10,8 milhões de votos.

A princípio, a diferença entre os candidatos chegou a 13,65 milhões de votos no Nordeste, resultado que contribuiu de forma expressiva para a vantagem nacional de Lula.

Nordeste amplia votação no segundo turno

Na comparação entre os dois turnos, Lula passou de aproximadamente 21,49 milhões para 24,45 milhões de votos na região. Sua participação nos votos válidos também subiu de 63,77% para cerca de 69,4%.

O resultado, porém, não deve ser interpretado como uma mudança individual de preferência de todos os eleitores. No primeiro turno, a disputa contou com outros candidatos, enquanto o segundo reuniu apenas os dois mais votados.

Além disso, o Nordeste não foi a única região em que os candidatos ampliaram seus totais absolutos de votos entre os turnos. O que diferencia o resultado nordestino é a dimensão da vantagem de Lula e a vitória do petista nos nove estados da região.

Mapa mostra como Lula foi votado nas cinco regiões do Brasil

O resultado do segundo turno das eleições presidenciais de 2026 mostra diferenças importantes na distribuição regional dos votos. O Nordeste foi a região em que Lula obteve sua maior vantagem proporcional, enquanto o Sudeste concentrou o maior volume de votos para os dois candidatos.

No segundo turno, realizado em 25 de outubro, Lula recebeu 24,45 milhões de votos no Nordeste, o equivalente a 69,37% dos votos válidos da região. Flávio Bolsonaro, por sua vez, somou 10,80 milhões de votos nordestinos.

A votação, entretanto, não ficou concentrada apenas no Nordeste. Lula também recebeu mais de 24 milhões de votos no Sudeste, região em que Flávio Bolsonaro terminou à frente. Os números mostram por que é importante analisar o resultado nacional sem reduzir o comportamento eleitoral de milhões de pessoas a estereótipos regionais.

Votação de Lula e Flávio Bolsonaro por região

A tabela abaixo reúne os votos nominais de cada candidato e o percentual de votos válidos no segundo turno, com base nos resultados divulgados a partir dos dados do TSE.

RegiãoVotos de Lula% de LulaVotos de Flávio% de Flávio
Norte5.024.62650,01%5.023.54749,99%
Nordeste24.450.43269,37%10.796.73630,63%
Centro-Oeste3.733.91939,99%5.603.86760,01%
Sudeste24.037.73147,24%26.844.50152,76%
Sul6.809.37037,42%11.385.89362,58%

Ataques ao Nordeste já haviam aparecido após o primeiro turno

A hostilidade contra os nordestinos não começou depois da votação de domingo. Um levantamento da Ativaweb DataLab, publicado pela revista VEJA, identificou 32,8 milhões de menções, links e compartilhamentos relacionados ao comportamento eleitoral do Nordeste nas 72 horas posteriores ao primeiro turno.

Desse total, 82,2% foram classificados como manifestações críticas ao voto da região. O estudo também identificou conteúdos com estereótipos relacionados à pobreza, à dependência de benefícios públicos e à capacidade intelectual dos eleitores.

É importante fazer uma distinção: o levantamento não classificou automaticamente todas as manifestações críticas como xenofobia. O dado demonstra o volume de reações negativas, enquanto a identificação de discriminação depende do conteúdo específico de cada publicação.

Jogador do Bahia compartilha vídeo contra o eleitorado nordestino

O caso de Willian José ampliou a repercussão do tema. O atacante compartilhou um vídeo do influenciador Emerson Barreto que associava os eleitores nordestinos à busca por auxílio estatal e usava uma expressão ofensiva para se referir à região.

Após a repercussão negativa, o jogador publicou uma explicação. Ele afirmou que é nordestino, que sua família também é da região e que conhece as dificuldades enfrentadas pela população. Segundo o atleta, sua crítica era dirigida à atuação dos políticos e à necessidade de melhorias em áreas como educação, saúde e segurança.

Willian José retirou a publicação. O episódio também provocou manifestações de torcedores do Bahia, clube sediado em Salvador.

A controvérsia evidencia uma questão importante: críticas a governos, políticas públicas e escolhas eleitorais fazem parte do debate democrático. Já atribuir características negativas a milhões de pessoas por sua origem regional ultrapassa a discussão sobre candidatos e propostas.

Quando a crítica política pode se transformar em discriminação?

A legislação brasileira prevê punições para determinadas condutas discriminatórias relacionadas à procedência nacional. A Lei nº 7.716/1989, alterada pela Lei nº 14.532/2023, inclui dispositivos sobre discriminação e injúria em razão da procedência nacional.

Afinal, isso não significa que toda crítica ao voto de uma região configure crime. A eventual responsabilização depende do conteúdo, das circunstâncias e da análise jurídica de cada caso.

O debate após as eleições, portanto, exige separar a divergência política legítima das manifestações que humilham, desumanizam ou discriminam pessoas por sua origem.

Portanto, o resultado eleitoral mostra o peso do eleitorado nordestino na disputa presidencial. A repercussão das redes sociais, por sua vez, expõe como uma escolha coletiva pode ser usada como pretexto para generalizações contra uma população inteira.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.