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Nordeste vira segunda maior região do Brasil em gestão de patrimônio

Nordeste ultrapassa o Sul e assume a segunda posição em gestão de patrimônio no Brasil, com R$ 60,5 bilhões sob gestão no primeiro semestre de 2026.
Eliseu Lins, da Agência NE9
15 de outubro de 2026 - às 02:49
Atualizado 15 de outubro de 2026 - às 02:49
7 min de leitura
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O Nordeste ultrapassou o Sul e assumiu a segunda posição entre as regiões brasileiras em volume de patrimônio sob gestão, atrás apenas do Sudeste. O movimento ganhou força nos últimos anos e mostra a expansão do mercado financeiro para além dos grandes centros tradicionais.

Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o Nordeste encerrou 2025 com R$ 55,3 bilhões sob gestão. Naquele momento, o Sul ainda aparecia à frente, com R$ 56,3 bilhões.

Entretanto, o cenário mudou rapidamente. No primeiro semestre de 2026, o patrimônio administrado por instituições na região nordestina chegou a R$ 60,5 bilhões, crescimento de 9,4%. No Sul, por outro lado, o volume recuou 1,2%, para R$ 55,8 bilhões.

Assim, o Nordeste abriu uma vantagem de aproximadamente R$ 4,7 bilhões sobre o Sul.

Nordeste cresceu 752,1% em cinco anos

O avanço fica ainda mais expressivo quando se considera um período maior. Desde 2020, o volume sob gestão no Nordeste aumentou 752,1%, segundo os dados da Anbima.

Entre as cinco regiões brasileiras, nenhuma apresentou crescimento proporcional semelhante no período.

RegiãoCrescimento do patrimônio sob gestão desde 2020
Nordeste752,1%
Norte516,7%
Sul164,3%
Centro-Oeste119,2%
Sudeste115,7%

Portanto, o Nordeste não apenas ganhou uma posição no ranking nacional. A região também apresentou o ritmo de expansão mais acelerado do país desde 2020.

Esse crescimento acompanha a ampliação do mercado de investimentos em estados que, historicamente, receberam menos escritórios especializados em gestão de patrimônio quando comparados com São Paulo e outros grandes centros financeiros.

Quanto dinheiro está sob gestão em cada região?

Apesar da expansão nordestina, o Sudeste continua muito distante das demais regiões quando o assunto é volume absoluto.

No primeiro semestre de 2026, a região concentrava R$ 407,5 bilhões sob gestão. O Nordeste aparecia em segundo, com R$ 60,5 bilhões.

RegiãoPatrimônio sob gestão no 1º semestre de 2026
SudesteR$ 407,5 bilhões
NordesteR$ 60,5 bilhões
SulR$ 55,8 bilhões
Centro-Oeste—
Norte—

A diferença mostra que o mercado brasileiro continua concentrado no Sudeste. Ainda assim, o crescimento das demais regiões reduz gradualmente a distância e cria novos mercados para bancos, gestoras, escritórios de investimentos e empresas especializadas.

Dentro do próprio Sudeste, São Paulo concentra aproximadamente 73% do patrimônio sob gestão da região, reforçando o peso do principal centro financeiro do país.

Fortaleza, Salvador e Teresina ganham espaço

O movimento também aparece nas principais capitais nordestinas.

Fortaleza, no Ceará, tornou-se uma das praças com maior expectativa de expansão para algumas instituições que atuam no segmento de gestão patrimonial. Salvador, na Bahia, e Teresina, no Piauí, também aparecem entre os mercados considerados estratégicos.

Em determinadas operações, as projeções de crescimento nesses três mercados chegam a 25% a 30% ao ano, enquanto a média das demais praças fica próxima de 20%.

A diferença indica que as instituições enxergam espaço para ampliar a presença física e o relacionamento com investidores fora dos grandes centros financeiros tradicionais.

Por que o mercado financeiro está olhando para o Nordeste?

Um dos fatores apontados por profissionais do setor é a existência de uma demanda ainda pouco atendida por serviços personalizados de gestão patrimonial.

O avanço da digitalização dos grandes bancos facilitou o acesso a produtos financeiros. Entretanto, parte dos investidores de maior patrimônio procura um relacionamento mais próximo para tomar decisões que envolvem investimentos, sucessão, proteção patrimonial e planejamento familiar.

Nesse contexto, as gestoras especializadas encontraram espaço para crescer.

Além disso, o aumento da renda e a expansão de empresas e negócios familiares na região ampliam o número de potenciais clientes para serviços de gestão de patrimônio.

Investidores nordestinos começam a diversificar mais

A expansão do mercado também aparece no comportamento dos investidores.

No Ceará, por exemplo, clientes de uma das gestoras citadas pelo levantamento praticamente triplicaram suas alocações no exterior. A estratégia ganhou espaço em carteiras que anteriormente apresentavam pouca ou nenhuma exposição internacional.

Por outro lado, profissionais do setor apontam que investidores nordestinos ainda demonstram forte preferência por ativos reais.

Imóveis e participações em empresas continuam ocupando espaço relevante entre as escolhas patrimoniais. Entretanto, gestores identificam uma mudança gradual para uma visão mais ampla de portfólio, que combina diferentes classes de ativos para equilibrar risco e retorno.

Assim, a expansão da gestão profissional também pode provocar uma mudança na forma como famílias de alta renda organizam seus investimentos.

Mercado vai além das grandes fortunas

Portrait of minded, suited man standing crossed hands over blackboard. money concept

O crescimento do setor não envolve apenas a administração de patrimônios milionários.

Segundo profissionais que acompanham o mercado de capitais nordestino, a região também apresenta expansão na estruturação de fundos de investimento, operações de crédito, FIDCs e CRIs.

Essas operações aproximam empresas locais do mercado de capitais e criam novas alternativas de financiamento.

Na prática, uma empresa que realiza sua primeira emissão de títulos ou estrutura uma operação no mercado passa a construir um histórico junto aos investidores. Posteriormente, esse histórico pode facilitar novas captações.

Esse movimento cria uma segunda frente de expansão para o mercado financeiro regional: além de administrar o patrimônio dos investidores, instituições locais passam a participar da estruturação de operações para empresas.

Bahia, Pernambuco, Ceará e Paraíba formam um novo eixo financeiro

O crescimento não ocorre de maneira uniforme em todos os estados, mas alguns mercados já apresentam maior presença de instituições especializadas.

Ceará, Bahia, Pernambuco e Paraíba aparecem entre os estados com atividade relevante nesse processo, combinando concentração empresarial, famílias de maior patrimônio e demanda por serviços financeiros especializados.

Fortaleza se destaca como um dos principais polos, enquanto Salvador apresenta um mercado relevante associado à economia baiana e à concentração de empresas e famílias de alta renda.

Recife, por sua vez, reúne um dos maiores ecossistemas empresariais e tecnológicos do Nordeste, além de uma forte presença de serviços financeiros.

Na Paraíba, o crescimento acompanha a expansão econômica de João Pessoa e de outros polos do estado.

Salvador completa 476 anos em 2025. Foto: Embratur
A Bahia se destaca como o estado que mais cresceu no Nordeste. Foto: Embratur

Nordeste ainda tem espaço para crescer

Apesar de assumir a segunda posição nacional, o Nordeste ainda representa uma parcela pequena do mercado brasileiro de gestão patrimonial quando comparado ao Sudeste.

Esse contraste, entretanto, pode justamente favorecer novos investimentos no setor.

A diferença entre os R$ 60,5 bilhões administrados no Nordeste e os R$ 407,5 bilhões do Sudeste mostra o tamanho do mercado que ainda pode ser desenvolvido.

Além disso, o crescimento de 752,1% desde 2020 indica que a região já iniciou esse processo de forma acelerada.

Portanto, o avanço do Nordeste na gestão de patrimônio não representa apenas uma mudança no ranking. O movimento revela uma transformação mais ampla no mercado financeiro brasileiro, com instituições buscando novos clientes, empresas acessando o mercado de capitais e famílias ampliando a procura por serviços especializados.

O Sudeste continua líder com ampla vantagem. Porém, pela velocidade de crescimento, o Nordeste já deixou de ser um mercado secundário e passou a ocupar uma posição central na expansão da indústria financeira brasileira.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.