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A direita no Brasil nasceu com Bolsonaro? Entenda a direita no Nordeste

Nos últimos meses, em meio ao ambiente eleitoral, uma discussão ganhou força nas redes sociais: a direita brasileira surgiu com a família Bolsonaro? Ou a direita no Brasil possui raízes muito mais antigas? A princípio, ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
15 de junho de 2026 - às 14:10
Atualizado 15 de junho de 2026 - às 14:10
5 min de leitura

Nos últimos meses, em meio ao ambiente eleitoral, uma discussão ganhou força nas redes sociais: a direita brasileira surgiu com a família Bolsonaro? Ou a direita no Brasil possui raízes muito mais antigas?

A princípio, a resposta dada por historiadores e cientistas políticos é clara: a direita brasileira existe muito antes do bolsonarismo. Assim, o movimento liderado por Jair Bolsonaro representa uma nova fase da direita nacional, marcada pelo forte uso das redes sociais, pautas conservadoras nos costumes e um discurso de enfrentamento ao sistema político tradicional.

Mas a história da direita no Brasil remonta ao Império, passa pela República Velha, pelo Estado Novo, pela Ditadura Militar e chega à redemocratização.

Nordeste também teve uma forte tradição conservadora

Ao contrário da percepção atual, o Nordeste nem sempre foi identificado com partidos de esquerda.

Durante grande parte do século XX, especialmente entre as décadas de 1930 e 1990, o poder político regional esteve concentrado nas mãos de grandes famílias, oligarquias estaduais e grupos conservadores ligados ao agronegócio, ao comércio e às elites locais.

O chamado coronelismo moldou durante décadas a política nordestina, baseado na influência econômica, no controle local e no clientelismo eleitoral. Dessa maneira, esses grupos dominaram assembleias legislativas, governos estaduais e bancadas federais por várias gerações.

Da ARENA ao PFL

Durante o regime militar (1964-1985), boa parte das lideranças conservadoras do Nordeste integrou a ARENA, partido que dava sustentação política ao governo militar.

Com a redemocratização, muitos desses grupos migraram para novas legendas, como:

  • PDS;
  • PFL (atual União Brasil);
  • PP;
  • parte do PMDB;
  • posteriormente PSDB e outras legendas de centro-direita.

Esse processo ficou conhecido por estudiosos como a reorganização da direita brasileira no período democrático.

As principais lideranças conservadoras do Nordeste

Diversos nomes marcaram a história da direita e do conservadorismo político nordestino nas últimas décadas.

Maranhão

José Sarney tornou-se uma das figuras mais influentes da política brasileira. Ex-presidente da República, comandou por décadas um dos grupos políticos mais longevos do país, inicialmente ligado à ARENA e depois ao PDS e PMDB.

Bahia

Antônio Carlos Magalhães (ACM) foi um dos principais líderes conservadores brasileiros. Seu grupo político dominou a política baiana durante décadas e exerceu enorme influência nacional através do antigo PFL.

Pernambuco

Marco Maciel construiu uma das carreiras mais importantes da direita brasileira. Ex-governador, senador, presidente da Câmara, presidente nacional do PFL e vice-presidente da República, tornou-se uma das maiores referências do conservadorismo institucional brasileiro.

Ceará

O Ceará viveu diferentes fases políticas. Após o período de influência dos militares, representados por nomes como Virgílio Távora, ganhou destaque o projeto das chamadas “Mudanças”, liderado por Tasso Jereissati, frequentemente associado ao liberalismo econômico e ao centro-direita, além de exercer papel nacional dentro do PSDB.

Alagoas

Fernando Collor de Mello surgiu no fim dos anos 1980 defendendo uma agenda de modernização econômica, combate à inflação e redução do tamanho do Estado, tornando-se presidente da República em 1989.

Paraíba

Na Paraíba, grupos ligados a Wilson Braga, Ronaldo Cunha Lima, José Maranhão e outras lideranças tradicionais alternaram períodos de maior aproximação com o centro, centro-direita e conservadorismo regional, refletindo a dinâmica própria da política estadual.

A nova direita no Brasil está mais para o sudeste

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O que mudou na direita com Bolsonaro?

Especialistas apontam que Jair Bolsonaro não criou a direita brasileira, mas promoveu uma profunda transformação em sua forma de atuação.

Até 2018, a direita brasileira era representada principalmente por partidos tradicionais, lideranças regionais e políticos ligados às antigas estruturas partidárias.

Com Bolsonaro, surgiu uma direita fortemente mobilizada pelas redes sociais, baseada em movimentos de rua, comunicação digital, maior identificação ideológica e participação direta de eleitores, diminuindo a dependência das antigas oligarquias estaduais.

Essa mudança alterou significativamente o cenário político nacional e também o Nordeste, onde passaram a surgir novas lideranças conservadoras independentes das tradicionais famílias políticas e com bem menos força na mídia.

Uma história muito anterior ao bolsonarismo

Portanto, do ponto de vista histórico, afirmar que a direita brasileira nasceu com Bolsonaro não encontra respaldo na literatura acadêmica.

Afinal, o que ocorreu foi uma renovação de lideranças e de estratégias de mobilização. Antes do bolsonarismo, o país já possuía partidos conservadores, liberais e de centro-direita, além de importantes grupos políticos regionais — especialmente no Nordeste — que exerceram forte influência durante boa parte do século XX.

Assim, o bolsonarismo representa uma nova etapa da direita brasileira, mas não seu ponto de origem. A trajetória desse campo político passa por diferentes períodos históricos, governos, partidos e lideranças que antecedem em muitas décadas o atual cenário político brasileiro.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.