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Do gibão à bombacha: as semelhanças entre Sertão e Pampas

Sertão e Pampas são territórios muito diferentes, mas têm algo em comum: pecuária, cavalos, couro e fortes tradições culturais. Veja as diferenças e semelhanças
Eliseu Lins, da Agência NE9
13 de agosto de 2026 - às 12:07
Atualizado 13 de agosto de 2026 - às 12:07
8 min de leitura

Separados por milhares de quilômetros, mas unidos pela pecuária, pelo cavalo e pela cultura

Quando se fala em Sertão nordestino e Pampas gaúchos, a primeira impressão é de que estamos diante de dois mundos completamente diferentes. De um lado, a paisagem marcada pela Caatinga, pela seca e pelas longas estiagens. Do outro, os campos verdes do Sul, as coxilhas, o frio e os grandes espaços abertos.

Mas existe uma ligação curiosa entre esses dois territórios: a pecuária ajudou a moldar a economia, os costumes e personagens que se tornaram símbolos de suas respectivas regiões.

O vaqueiro nordestino e o gaúcho dos Pampas nasceram em ambientes naturais muito diferentes, mas desenvolveram uma relação semelhante com o campo, o cavalo, o gado e uma cultura própria.

A princípio, a comparação, portanto, não é sobre quem é melhor. É sobre descobrir como dois territórios tão distantes ajudaram a construir diferentes versões da identidade rural brasileira.

Caatinga e Pampa: dois biomas completamente diferentes

A primeira grande diferença está na natureza.

A Caatinga, predominante no Sertão nordestino, é o único bioma exclusivamente brasileiro. Está associada ao semiárido e possui uma vegetação adaptada à escassez de água e aos períodos prolongados de estiagem.

Já o Pampa brasileiro está restrito ao Rio Grande do Sul e integra uma formação maior de campos naturais que se estende pelo Uruguai e pela Argentina. No Brasil, o bioma ocupa principalmente a metade sul do estado, com paisagens de campos, coxilhas, banhados e matas associadas aos cursos d’água.

CaracterísticaSertão nordestinoPampas
Bioma predominanteCaatingaPampa
PaisagemCaatinga, serras, vales e áreas semiáridasCampos, planícies e coxilhas
ClimaSemiárido em grande parte do SertãoTemperado/subtropical
VegetaçãoPlantas adaptadas à secaPredomínio de vegetação campestre
DistribuiçãoPredominantemente Nordeste, com extensão da Caatinga até MGRS no Brasil, com continuidade para Uruguai e Argentina
Pecuária tradicionalGado, caprinos, ovinos e equinosPrincipalmente pecuária bovina e ovina

Dessa forma, o contraste é enorme. Enquanto a vegetação da Caatinga desenvolveu estratégias para sobreviver à falta de água, os campos do Pampa são formados principalmente por espécies herbáceas que compõem extensas paisagens abertas.

Vaqueiro e gaúcho: dois personagens do campo

Talvez seja aqui que a comparação fique mais interessante.

No Sertão, surgiu a figura do vaqueiro, personagem diretamente ligado ao manejo do gado e à vida na Caatinga.

A necessidade de atravessar áreas de vegetação fechada e espinhosa ajudou a formar uma indumentária característica: gibão, chapéu, botas, perneiras e outras peças de couro.

A cultura do vaqueiro também produziu manifestações como o aboio, canto utilizado tradicionalmente para conduzir o gado e que acabou se transformando em uma importante expressão da cultura popular nordestina.

Nos Pampas, o personagem equivalente é o gaúcho, ligado à vida campeira, à criação de animais, ao cavalo e às grandes extensões de campos.

No Rio Grande do Sul, a relação entre o homem do campo e o Pampa continua associada à pecuária e às tradições campeiras. Em regiões como a Fronteira Oeste, estâncias, cavalos e criação de gado fazem parte da identidade cultural e econômica do território.

O couro virou identidade nos dois territórios

Existe outra semelhança curiosa: o couro ultrapassou a função prática e virou elemento cultural.

No Sertão, o couro era fundamental para proteger o vaqueiro da vegetação espinhosa da Caatinga. A tradição produziu peças como:

  • gibão;
  • chapéu;
  • perneira;
  • botas;
  • arreios;
  • selas.

A própria cultura do vaqueiro nordestino é frequentemente associada à chamada civilização do couro, formada a partir da expansão da pecuária sertaneja.

Nos Pampas, o couro também aparece nos equipamentos utilizados no trabalho com o gado e nos elementos da tradição campeira, como arreios, botas e outros acessórios ligados ao cavalo.

Ou seja: em dois extremos do país, o couro nasceu da necessidade do trabalho e acabou se transformando em símbolo cultural.

homem com vestimento de couro para lidar com o gado na caatinga
vaqueiro nordestino foto reprodução

O cavalo também é protagonista

Se existe um animal capaz de aproximar ainda mais os dois territórios, é o cavalo.

No Sertão, ele está presente na rotina do vaqueiro, nas cavalgadas, na pega de boi e nas vaquejadas.

Nos Pampas, o cavalo também é parte fundamental da vida campeira, das cavalgadas e das atividades tradicionais do campo.

A diferença está principalmente no ambiente.

Além disso, o vaqueiro nordestino precisa lidar com uma paisagem muitas vezes seca e espinhosa. O homem dos Pampas trabalha em extensas áreas abertas, onde os campos naturais formam uma paisagem completamente diferente.

O cavalo é o mesmo símbolo de liberdade e trabalho, mas a paisagem ao redor muda tudo.

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Cavalo Genesis 66 foto Divulgacao Haras Monte Siao

A música também nasceu da vida no campo

A cultura rural dos dois territórios produziu diferentes formas de expressão musical.

No Nordeste, a vida sertaneja está presente no aboio, repente, cantoria, forró, baião e xote, entre outras manifestações.

Entretanto, o aboio tem uma relação particularmente direta com a pecuária: nasceu como canto de trabalho para conduzir o gado e posteriormente ganhou espaço como manifestação artística.

No Sul, a cultura dos Pampas se expressa em gêneros e tradições associadas à música nativista e à cultura campeira, incluindo manifestações como a milonga, vaneira e chamamé.

São ritmos diferentes, instrumentos diferentes e histórias diferentes, mas existe uma origem comum: a necessidade de transformar a vida do campo em música e memória.

E na mesa? Carne é protagonista

A pecuária também deixou uma marca evidente na alimentação.

No Sertão, a tradição culinária inclui carne de sol, carne de bode, queijo coalho, cuscuz e preparações com milho e mandioca.

Nos Pampas, o churrasco tornou-se um dos principais símbolos da identidade gaúcha, acompanhado por produtos e costumes associados à vida campeira.

A carne de sol é um dos pratos tipicamente nordestino.
SertãoPampas
Carne de solChurrasco
Carne de bodeCarne bovina
Queijo coalhoQueijos coloniais
CuscuzArroz carreteiro
Manteiga de garrafaChimichurri e outros acompanhamentos
Milho e mandiocaProdutos ligados à pecuária e à agricultura regional

Mais uma vez, a comparação mostra que a pecuária não produziu apenas atividade econômica: produziu comida, hábitos e identidade.

Dois territórios que ainda precisam preservar sua natureza

A comparação também revela um desafio comum: a preservação dos ambientes naturais.

A Caatinga é extremamente importante para milhões de pessoas e possui biodiversidade própria, mas sofre com desmatamento, degradação do solo e processos de desertificação. O ICMBio destaca que parte significativa do bioma já sofreu alterações provocadas pela ação humana.

No Pampa, a expansão de atividades agrícolas e a transformação dos campos naturais também pressionam os remanescentes do bioma. O IBGE já identificou o Pampa como o bioma brasileiro com uma das maiores perdas percentuais de áreas naturais no período analisado entre 2000 e 2018.

Assim, isso coloca Sertão e Pampas diante de uma questão semelhante: como manter uma atividade econômica tradicional sem destruir o ambiente que sustenta essa própria cultura?

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pamxas x sertão ia
pamxas x sertão ia

Sertão e Pampas não são iguais. Na verdade, suas diferenças são enormes.

Afinal, um enfrenta a escassez de água e a resistência da Caatinga. O outro apresenta extensos campos naturais e um clima completamente diferente.

Mas os dois mostram como o território pode influenciar profundamente a formação de uma sociedade.

O vaqueiro e o gaúcho, o gibão e a bombacha, o aboio e a música campeira, a carne de sol e o churrasco, a Caatinga e os campos do Pampa.

Portanto, são histórias diferentes, construídas em paisagens diferentes, mas que ajudam a contar uma mesma história: a diversidade do Brasil rural.

E talvez seja justamente essa a maior semelhança entre Sertão e Pampas: ambos transformaram o ambiente onde vivem em cultura.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.