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Prefeitura de Nova York cita Recife em plano de combate ao antissemitismo

Documento da Prefeitura de Nova York cita Recife ao contar a história dos 23 judeus que deixaram Pernambuco em 1654 e ajudaram a formar a comunidade judaica da cidade.
Eliseu Lins, da Agência NE9
30 de setembro de 2026 - às 06:15
Atualizado 30 de setembro de 2026 - às 06:15
7 min de leitura
Kahal Zur Israel, situada em Recife, foi primeira sinanoga das Américas Foto WIKICOMMONS
Kahal Zur Israel, situada em Recife, foi primeira sinanoga das Américas Foto WIKICOMMONS

Documento divulgado pelo prefeito Zohran Mamdani recupera a história dos 23 judeus que deixaram o Recife em 1654 e chegaram à então New Amsterdam

Uma história que começou no Recife há quase quatro séculos voltou ao centro da atenção em Nova York. Um documento divulgado nesta terça-feira (29) pela Prefeitura de Nova York, durante a gestão do prefeito Zohran Mamdani, cita a comunidade judaica que vivia em Pernambuco em 1654 ao apresentar o contexto histórico dos judeus na cidade.

A princípio, o relatório “Tackling Hate: The Mamdani Administration’s Strategy to Combat Antisemitism” apresenta a primeira estratégia municipal de Nova York voltada especificamente ao combate ao antissemitismo. Sendo assim, o documento reúne ações de prevenção, segurança, educação, apoio a vítimas e preservação da história e da cultura judaicas.

No capítulo dedicado à história da comunidade judaica nova-iorquina, a Prefeitura registra que 23 judeus sefarditas chegaram de Recife, então uma colônia holandesa, em setembro de 1654. O texto afirma ainda que o grupo enfrentou a oposição do governador Peter Stuyvesant e posteriormente conquistou o direito de organizar a Congregation Shearith Israel, considerada a primeira congregação judaica da América do Norte.

A história começou no Recife

A conexão entre as duas cidades remonta ao período em que os holandeses controlavam Pernambuco.

Durante o domínio holandês, o Recife recebeu uma importante comunidade judaica, formada principalmente por judeus de origem portuguesa e espanhola. O grupo desenvolveu atividades religiosas, comerciais e educacionais na cidade.

Além disso, foi nesse contexto que surgiu a Kahal Zur Israel, na atual Rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife.

A Fundaj registra que a sinagoga funcionou entre 1636 e 1654 e representa a primeira sinagoga oficial dos judeus nas Américas. Assim, quando parte daquela comunidade deixou Pernambuco, o Recife já possuía uma estrutura judaica organizada.

Os 23 judeus deixaram Pernambuco em 1654

A mudança ocorreu depois da retomada de Pernambuco pelos portugueses.

Em 1654, os holandeses perderam o controle da região e a comunidade judaica passou a enfrentar um novo cenário. Muitos judeus deixaram Recife e seguiram para outras partes do Atlântico.

Contudo, entre eles estava o grupo de 23 judeus que chegou a New Amsterdam em setembro daquele ano.

Entretando, a própria Prefeitura de Nova York utiliza essa história em seu novo documento oficial. O relatório cita uma publicação da Jewish Telegraphic Agency de 2024 e a história da Congregation Shearith Israel como fontes para esse trecho.

Assim, existe uma nuance histórica importante: outros judeus já haviam chegado à região pouco antes dos 23 refugiados de Recife. Entre eles estavam Jacob Barsimson, Solomon Pietersen e Asser Levy.

Por isso, a chegada dos 23 deve ser entendida como um marco da formação da primeira comunidade judaica organizada de New Amsterdam, e não como a chegada literal dos primeiros judeus que pisaram na região.

Peter Stuyvesant tentou impedir a permanência

A chegada dos refugiados não aconteceu sem resistência.

Com isso, o governador de New Amsterdam, Peter Stuyvesant, tentou impedir a permanência dos judeus na colônia. Os recém-chegados recorreram à Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, que acabou determinando que eles poderiam permanecer.

Dessa forma, a comunidade judaica conseguiu se estabelecer na colônia.

Além disso, anos depois, essa comunidade daria origem à Congregation Shearith Israel, que continua existindo em Nova York. A Prefeitura de Nova York cita a congregação em seu relatório como a primeira congregação judaica da América do Norte.

De Recife para uma das maiores comunidades judaicas do mundo

A antiga New Amsterdam passou ao domínio inglês em 1664 e recebeu o nome de New York.

Enquanto a cidade crescia, a comunidade judaica também se expandia. A Shearith Israel atravessou os séculos e seus membros participaram de diferentes iniciativas que marcaram a vida judaica e institucional de Nova York.

Ademais, o próprio relatório da administração Mamdani destaca a participação de integrantes da congregação na fundação de instituições como o Mount Sinai Hospital, originalmente chamado Jews’ Hospital, e o 92nd Street Y.

A história também ganhou reconhecimento institucional recente. Em 2024, o Conselho Municipal de Nova York aprovou uma resolução que reconhece o Landing Day, celebrado na segunda semana de setembro, para lembrar a chegada da primeira comunidade judaica a New Amsterdam em 1654. O texto da resolução identifica os 23 judeus como sefarditas e registra que eles haviam fugido do Recife após a retomada portuguesa.

Por que Recife aparece em um plano contra o antissemitismo?

A presença de Recife no documento de 2026 não aparece por acaso.

A estratégia da Prefeitura de Nova York pretende combinar o combate ao antissemitismo com a preservação e valorização da história judaica da cidade. O relatório afirma que ensinar a história, as contribuições e as experiências dos judeus nova-iorquinos também faz parte da estratégia contra o preconceito.

Portanto, o plano estabelece sete objetivos estratégicos, entre eles prevenir violência motivada por ódio, combater o antissemitismo físico, verbal e digital, ampliar a educação sobre a história judaica, apoiar vítimas e proteger e celebrar a vida judaica em Nova York.

Nesse contexto, a história dos 23 judeus que chegaram em 1654 aparece como parte da própria formação histórica da cidade.

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Uma conexão entre Recife e Nova York que atravessou 372 anos

A trajetória pode ser resumida em uma sequência que liga diretamente Pernambuco à história de Nova York:

AnoO que aconteceu
1636A Kahal Zur Israel funciona no Recife
1654Portugal retoma Pernambuco
1654Judeus deixam o Recife
Setembro de 165423 judeus chegam a New Amsterdam
1655A permanência dos judeus é assegurada após intervenção da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais
1654A comunidade que daria origem à Shearith Israel começa a se organizar
1664New Amsterdam passa a se chamar New York
1730A primeira sinagoga da congregação é inaugurada na Mill Street
1855Abre o Jews’ Hospital
1866O hospital passa a se chamar Mount Sinai Hospital
1874É criada a Young Men’s Hebrew Association, origem do 92NY
2024Nova York reconhece oficialmente o Landing Day
2026Prefeitura cita Recife na estratégia municipal de combate ao antissemitismo

Uma história do Recife que reaparece em Nova York

A referência feita agora pela Prefeitura de Nova York dá um novo capítulo a uma história que começou no Nordeste brasileiro.

Assim, em 1654, judeus que viviam no Recife deixaram Pernambuco em meio à mudança de controle da colônia. Alguns deles chegaram a New Amsterdam e participaram da formação da comunidade judaica que posteriormente se consolidaria em Nova York.

Portanto, quase quatro séculos depois, o Recife voltou a aparecer em um documento oficial da cidade de Nova York, desta vez na estratégia criada para combater o antissemitismo e preservar a memória e a contribuição dos judeus para a cidade.

Afibnal, conexão, vai além de uma curiosidade histórica: um episódio ocorrido no Recife faz parte da própria narrativa oficial que Nova York utiliza hoje para contar a origem de sua comunidade judaica.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.