Documento divulgado pelo prefeito Zohran Mamdani recupera a história dos 23 judeus que deixaram o Recife em 1654 e chegaram à então New Amsterdam
Uma história que começou no Recife há quase quatro séculos voltou ao centro da atenção em Nova York. Um documento divulgado nesta terça-feira (29) pela Prefeitura de Nova York, durante a gestão do prefeito Zohran Mamdani, cita a comunidade judaica que vivia em Pernambuco em 1654 ao apresentar o contexto histórico dos judeus na cidade.
A princípio, o relatório “Tackling Hate: The Mamdani Administration’s Strategy to Combat Antisemitism” apresenta a primeira estratégia municipal de Nova York voltada especificamente ao combate ao antissemitismo. Sendo assim, o documento reúne ações de prevenção, segurança, educação, apoio a vítimas e preservação da história e da cultura judaicas.
No capítulo dedicado à história da comunidade judaica nova-iorquina, a Prefeitura registra que 23 judeus sefarditas chegaram de Recife, então uma colônia holandesa, em setembro de 1654. O texto afirma ainda que o grupo enfrentou a oposição do governador Peter Stuyvesant e posteriormente conquistou o direito de organizar a Congregation Shearith Israel, considerada a primeira congregação judaica da América do Norte.
A história começou no Recife
A conexão entre as duas cidades remonta ao período em que os holandeses controlavam Pernambuco.
Durante o domínio holandês, o Recife recebeu uma importante comunidade judaica, formada principalmente por judeus de origem portuguesa e espanhola. O grupo desenvolveu atividades religiosas, comerciais e educacionais na cidade.
Além disso, foi nesse contexto que surgiu a Kahal Zur Israel, na atual Rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife.
A Fundaj registra que a sinagoga funcionou entre 1636 e 1654 e representa a primeira sinagoga oficial dos judeus nas Américas. Assim, quando parte daquela comunidade deixou Pernambuco, o Recife já possuía uma estrutura judaica organizada.

Os 23 judeus deixaram Pernambuco em 1654
A mudança ocorreu depois da retomada de Pernambuco pelos portugueses.
Em 1654, os holandeses perderam o controle da região e a comunidade judaica passou a enfrentar um novo cenário. Muitos judeus deixaram Recife e seguiram para outras partes do Atlântico.
Contudo, entre eles estava o grupo de 23 judeus que chegou a New Amsterdam em setembro daquele ano.
Entretando, a própria Prefeitura de Nova York utiliza essa história em seu novo documento oficial. O relatório cita uma publicação da Jewish Telegraphic Agency de 2024 e a história da Congregation Shearith Israel como fontes para esse trecho.
Assim, existe uma nuance histórica importante: outros judeus já haviam chegado à região pouco antes dos 23 refugiados de Recife. Entre eles estavam Jacob Barsimson, Solomon Pietersen e Asser Levy.
Por isso, a chegada dos 23 deve ser entendida como um marco da formação da primeira comunidade judaica organizada de New Amsterdam, e não como a chegada literal dos primeiros judeus que pisaram na região.
Peter Stuyvesant tentou impedir a permanência
A chegada dos refugiados não aconteceu sem resistência.
Com isso, o governador de New Amsterdam, Peter Stuyvesant, tentou impedir a permanência dos judeus na colônia. Os recém-chegados recorreram à Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, que acabou determinando que eles poderiam permanecer.
Dessa forma, a comunidade judaica conseguiu se estabelecer na colônia.
Além disso, anos depois, essa comunidade daria origem à Congregation Shearith Israel, que continua existindo em Nova York. A Prefeitura de Nova York cita a congregação em seu relatório como a primeira congregação judaica da América do Norte.
De Recife para uma das maiores comunidades judaicas do mundo
A antiga New Amsterdam passou ao domínio inglês em 1664 e recebeu o nome de New York.
Enquanto a cidade crescia, a comunidade judaica também se expandia. A Shearith Israel atravessou os séculos e seus membros participaram de diferentes iniciativas que marcaram a vida judaica e institucional de Nova York.
Ademais, o próprio relatório da administração Mamdani destaca a participação de integrantes da congregação na fundação de instituições como o Mount Sinai Hospital, originalmente chamado Jews’ Hospital, e o 92nd Street Y.
A história também ganhou reconhecimento institucional recente. Em 2024, o Conselho Municipal de Nova York aprovou uma resolução que reconhece o Landing Day, celebrado na segunda semana de setembro, para lembrar a chegada da primeira comunidade judaica a New Amsterdam em 1654. O texto da resolução identifica os 23 judeus como sefarditas e registra que eles haviam fugido do Recife após a retomada portuguesa.
Por que Recife aparece em um plano contra o antissemitismo?
A presença de Recife no documento de 2026 não aparece por acaso.
A estratégia da Prefeitura de Nova York pretende combinar o combate ao antissemitismo com a preservação e valorização da história judaica da cidade. O relatório afirma que ensinar a história, as contribuições e as experiências dos judeus nova-iorquinos também faz parte da estratégia contra o preconceito.
Portanto, o plano estabelece sete objetivos estratégicos, entre eles prevenir violência motivada por ódio, combater o antissemitismo físico, verbal e digital, ampliar a educação sobre a história judaica, apoiar vítimas e proteger e celebrar a vida judaica em Nova York.
Nesse contexto, a história dos 23 judeus que chegaram em 1654 aparece como parte da própria formação histórica da cidade.

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Uma conexão entre Recife e Nova York que atravessou 372 anos
A trajetória pode ser resumida em uma sequência que liga diretamente Pernambuco à história de Nova York:
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 1636 | A Kahal Zur Israel funciona no Recife |
| 1654 | Portugal retoma Pernambuco |
| 1654 | Judeus deixam o Recife |
| Setembro de 1654 | 23 judeus chegam a New Amsterdam |
| 1655 | A permanência dos judeus é assegurada após intervenção da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais |
| 1654 | A comunidade que daria origem à Shearith Israel começa a se organizar |
| 1664 | New Amsterdam passa a se chamar New York |
| 1730 | A primeira sinagoga da congregação é inaugurada na Mill Street |
| 1855 | Abre o Jews’ Hospital |
| 1866 | O hospital passa a se chamar Mount Sinai Hospital |
| 1874 | É criada a Young Men’s Hebrew Association, origem do 92NY |
| 2024 | Nova York reconhece oficialmente o Landing Day |
| 2026 | Prefeitura cita Recife na estratégia municipal de combate ao antissemitismo |
Uma história do Recife que reaparece em Nova York
A referência feita agora pela Prefeitura de Nova York dá um novo capítulo a uma história que começou no Nordeste brasileiro.
Assim, em 1654, judeus que viviam no Recife deixaram Pernambuco em meio à mudança de controle da colônia. Alguns deles chegaram a New Amsterdam e participaram da formação da comunidade judaica que posteriormente se consolidaria em Nova York.
Portanto, quase quatro séculos depois, o Recife voltou a aparecer em um documento oficial da cidade de Nova York, desta vez na estratégia criada para combater o antissemitismo e preservar a memória e a contribuição dos judeus para a cidade.
Afibnal, conexão, vai além de uma curiosidade histórica: um episódio ocorrido no Recife faz parte da própria narrativa oficial que Nova York utiliza hoje para contar a origem de sua comunidade judaica.


