Imagine a cena: estamos em 1982. Zé Ramalho, já consagrado como um dos maiores artistas da MPB, lança seu quarto álbum de estúdio: Força Verde. A faixa-título, que abre o disco, tem uma pegada mística, com versos profundos e uma atmosfera quase sobrenatural. Típico do Zé Ramalho.
Só que tinha um detalhe: a letra não era dele.
A princípio, a história por trás dessa música é um emaranhado de plágio, super-heróis e poesia irlandesa que parece roteiro de filme. E o melhor: ninguém sabia de nada. Até que um leitor de quadrinhos descobriu tudo e resolveu abrir o jogo.
A descoberta que veio do jornal
Tudo começou quando um leitor assíduo de HQs ouviu a música Força Verde e algo o chamou atenção. Ele conhecia aquelas palavras. Não da música. De uma revista do Incrível Hulk.
Esse leitor então procurou o jornalista paraibano Wellington Farias e fez a denúncia. O resultado: uma matéria revelando o plágio. Mas ele foi além: não só Zé Ramalho havia copiado a Marvel, como o roteirista da HQ, Roy Thomas, também tinha se inspirado — ou melhor, adaptado — um poema do dramaturgo irlandês William Butler Yeats.
Ou seja: um poeta irlandês do século XIX inspirou um roteirista americano, que inspirou um cantor paraibano, sem que nenhum dos dois soubesse do outro. Uma corrente de plágio atravessando o Atlântico e o tempo.

O poema, a HQ do Incrível Hulk e a música: a linha do tempo
Assim, para entender o que aconteceu, é preciso montar o quebra-cabeça:
| Ano | Evento | Personagem |
|---|---|---|
| 1892 | William Butler Yeats publica o poema “The Sorrow of Love” | Poeta irlandês |
| 1972 | Roy Thomas adapta o poema para a introdução de The Incredible Hulk #138 (publicado no Brasil pela GEA) | Roteirista da Marvel |
| 1982 | Zé Ramalho lança Força Verde com a letra copiada da HQ — e nega o plágio | Cantor paraibano |
| Década de 2010 | Zé Ramalho finalmente admite a inspiração, citando Yeats — mas não a HQ | Cantor paraibano |
A ironia é que a versão de Yeats e a versão da HQ não são idênticas. Roy Thomas adaptou o poema para encaixar na narrativa do Hulk, com imagens mais “heróicas” e menos melancólicas. E foi essa versão adaptada que Zé Ramalho copiou — integralmente.
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A defesa e a confissão
Por anos, Zé Ramalho negou o plágio. Dizia que a inspiração vinha de Yeats diretamente. Mas os fãs de quadrinhos sabiam: a letra da música era a mesmíssima versão da revista do Hulk, com as adaptações de Roy Thomas.
Anos depois, o cantor finalmente assumiu. Disse que os produtores do estúdio estavam cientes da cópia durante a gravação e que “não viram problema algum”. Mas a confissão veio tarde — e com um detalhe curioso: Zé Ramalho continuou citando apenas Yeats, sem mencionar o Hulk.



