Com nove canções reimaginadas pelo cantor cearense, álbum reúne participações de Geraldo Azevedo, Rita Benneditto, Zé Ibarra e artistas contemporâneos da música paraibana
EU MANDEI MEU AMOR PRO ESPAÇO, primeiro álbum do cearense Lucas Bezerra, chega às plataformas de streaming no dia 07 de agosto através do selo latino-americano Cantores del Mundo. Ao longo de nove faixas, o cantor presta homenagem ao compositor paraibano Carlos Antônio Bezerra da Silva, conhecido artisticamente como Totonho, principalmente por seu projeto Totonho & Os Cabra, ativo desde o início do milênio.
Totonho aparece na vida de Lucas Bezerra logo em sua juventude. Além do sobrenome, os dois compartilham suas origens no sertão Cariri — Totonho nasceu em Monteiro, no cariri paraibano, e Lucas no Crato, cariri cearense. Em comum, há também o movimento migratório para cidades como João Pessoa, Rio de Janeiro e São Paulo, realizado por ambos os artistas. Durante o período em que morou na Paraíba, Lucas Bezerra conheceu o trabalho de Totonho e, em 2021, começou a conceber a ideia desse disco.
Desde a década de 70, Totonho está envolvido com o fazer musical. Monteiro era considerada a “Meca dos repentistas nordestinos”, o que teve grande influência no envolvimento artístico do paraibano. Aos nove anos de idade, o compositor criou a banda Os Renegados, que tocava com instrumentos de lata. Nos anos 80, contribuiu com a criação do Musiclube da Paraíba, em João Pessoa, por onde passaram nomes como Chico César, Jarbas Mariz, Pedro Osmar e Paulo Ró. Formou-se em Arte e Educação ainda em João Pessoa, mudando-se para o Rio de Janeiro para cursar uma pós-graduação e apostar suas fichas na música. Nessa trajetória, abriu shows, por exemplo, de Geraldo Azevedo e João Bosco, além de reunir, na década de 90, o grupo Totonho e os Cabra, que se classificou no Projeto Pixinguinha, o que permitiu uma turnê inicial em diversos cantos do Brasil.

Até o presente, Totonho segue ativo com o ofício da composição, com uma produção que conta com cinco álbuns de estúdio desde o ano 2000. Em 2026, seu mais recente álbum, Aí Dentu: Funk de Embolada e Hip Hop do Mato (2025), foi vencedor do Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira, demonstrando a atualidade longeva do artista em um álbum que mistura as batidas do funk com ritmos tradicionais do Nordeste. A experimentação não é novidade para Totonho, que sempre desafiou as fronteiras dos gêneros musicais.
Na contramão da homenagem póstuma, o primeiro álbum de estúdio de Lucas Bezerra lança mão de uma linguagem criativa, ao mesmo tempo que acessível, para destacar a obra de um compositor vivo. “Laurita Dias [diretora artística do disco] foi interlocutora fundamental nesse processo […], e Arthus Fochi [produtor e diretor musical] teve uma sensibilidade linda na construção dos arranjos, da sonoridade do disco, que é intencionalmente muito diferente da de Totonho. As canções de Totonho dão muito pano pra manga. É impressionante”, afirma Lucas Bezerra.
Gravado entre 2023 e 2026 entre as cidades do Rio de Janeiro (RJ), Maceió (AL), Recife (PE), João Pessoa (PB), Copenhague (Dinamarca) e Malmö (Suécia), EU MANDEI MEU AMOR PRO ESPAÇO dá destaque à palavra, à poesia de Totonho, trabalhando o silêncio, a tensão e a surpresa através de delicadas camadas, digno das composições selecionadas para o projeto, as quais deixam em aberto mistérios e que giram principalmente em torno da matéria humana, do sentimento de solidão e do sofrimento amoroso, sempre atrelados a uma visualidade, através de paisagens, e às vivências do compositor. Neste sentido, para Lucas Bezerra, “ela [a solidão] aparece de muitos modos ao longo do álbum, nunca como um sentimento isolado ou ensimesmado, mas como uma experiência comum, compartilhada, diversa. Num tempo como o de hoje, em que estamos digitalmente conectados e, muitas vezes, profundamente sós, essas canções […] dão algum estalo para pensar as formas de viver, de amar, de estar no mundo”.
A escolha das participações especiais no álbum não foi menos significativa que a relação entre Lucas Bezerra e Totonho. Rita Benneditto é parceira de longa data de Totonho. Na mesma época em que o compositor saía da Paraíba em direção ao Sudeste, a cantora e compositora maranhense fazia o mesmo. Ambos construíram uma relação de amizade e reconhecimento musical mútuo. Nos anos 90, Totonho foi o ato de abertura de shows de grandes nomes da MPB, entre eles Geraldo Azevedo, um dos grandes mestres da música brasileira, com quem inclusive já realizou parcerias musicais. Zé Ibarra, cantor e compositor carioca, quando tinha menos de dez anos de idade, gravou zabumba na faixa Poeira Estelar, do álbum Sabotador de Satélite (2005), de onde veio a faixa-título do projeto de Lucas Bezerra, escolhida para acolher essa participação.
Como representação da continuidade da obra de Totonho e afirmação de sua influência, um time de cantautores paraibanos também foi convocado para participar de EU MANDEI MEU AMOR PRO ESPAÇO: Chico Limeira, Elon, Nathalia Bellar, Nina Ferreira e Titá Moura são expoentes da música paraibana contemporânea e, cada um à sua maneira, carregam as influências poéticas, sonoras e afetivas do conterrâneo. Outros nomes presentes na ficha técnica do disco são Juliana Linhares (RN) e Ítallo França (AL), parceiros de Lucas, que gravaram os vocais de apoio nas faixas vai nevar e tudo pra ser feliz.
Em seu primeiro disco, EU MANDEI MEU AMOR PRO ESPAÇO, Lucas Bezerra buscou não as canções mais emblemáticas de Totonho para uma coletânea, mas “um conjunto de músicas que compartilhassem um mesmo universo de imagens e de perguntas. Um repertório que pudesse sustentar um arco dramático próprio, internamente coeso, embora diverso”. A partir disso, o disco se mostra como apenas uma das diversas leituras possíveis da obra de Carlos Antônio Bezerra da Silva, sem uma vontade de mimetizar o estilo das produções ou de interpretar as letras da mesma forma que fez seu autor.
Faixa a faixa
O disco abre com glaciais, que introduz “o universo poético de Totonho, marcado pela força das imagens e por associações inesperadas” através de um arranjo cheio de tensão. Uma música minimalista e pungente, a versão de Lucas Bezerra substitui o piano da original por um violão, um baixo e uma guitarra. Arthus Fochi é responsável pelas respirações ao fundo da faixa, o que reforça o sentimento de mistério e a construção de uma atmosfera gélida tão quanto agulhada.
A segunda música do álbum, vai nevar, funciona quase como uma vinheta, dando uma espécie de alívio depois da tensão da primeira faixa, a partir de uma sonoridade mais solar, com a presença de percussão e sopros. Com imagens poéticas bem-humoradas e mais leves que as de glaciais, vai nevar conta também com os vocais de Juliana Linhares e Ítallo França.
A canção que dá nome ao disco, eu mandei meu amor pro espaço, conta com a participação de Zé Ibarra e, para Lucas Bezerra, “é nela que os principais temas e imagens que atravessam o disco aparecem condensados, sintetizando o fio narrativo que conduz a escuta”. Como, para Guimarães Rosa, o sertão é o mundo, para Totonho, a tristeza do mundo, que o impede de amar plenamente, é expandida para todo o sistema solar. Nessa sofrência interplanetária, o cósmico é concebido através dos sintetizadores, em contraposição a violões e um bandoneon que trazem uma atmosfera sertaneja à composição.
Em nhem nhem nhem, “um momento de expansão e celebração” no disco, Lucas Bezerra convida Chico Limeira, Elon, Nathalia Bellar, Nina Ferreira e Titá Moura para uma polifonia de sonhos abundantes. Não à toa, a canção virou uma espécie de hino entre os componentes da cena independente paraibana: através de uma poesia de associações únicas, os lamentos se mostram coletivos e dançantes, fáceis de imaginar sendo reproduzidos em uma apresentação ao vivo, juntamente ao público.
Geraldo Azevedo aparece em rosa da matinha, um forró sonoramente mais tradicional, que versa sobre um amor o qual não se sustentou frente à inevitável passagem do tempo. O frescor da canção se deve ao fato de que “Em Totonho, o fim de um amor nunca se resume ao adeus: ele faz nascer realeza, batalhão, barragem, piabas, Egito, Jordânia e Sertânia em um mesmo percurso de imagens”. Entre uma rosa flor e uma Rosa pessoa, o eu-lírico tenta se acomodar à ideia desse fim, transitando entre as sonoridades de um xote e de um coco, arquitetura melódica e narrativa já presente na gravação original da música, no álbum Coco Ostentação (2016).
Com uma abertura de violoncelos dramáticos, tudo pra ser feliz convida o ouvinte a uma reflexão acerca da inutilidade dos bens adquiridos ao longo da vida frente ao desastre da ausência. Ausência essa que encontra sua significação também na partida, no movimento de emigração de sua terra natal. Lucas Bezerra, em sua versão, faz da canção um “desabafo dramático”, com as vozes de apoio de Ítallo França e Juliana Linhares, essa última responsável pelos sussurros de “‘mas é bonita e gostosa’, uma escolha de interpretação tão sutil quanto irresistível”.
O primeiro single do álbum, o arqueiro zen, tem também as vozes de Rita Benneditto, e, através de imagens que suscitam uma imprevisibilidade, articula diferentes camadas de sentido. Em meio à letra, Totonho cita Jean Charles de Menezes, homem brasileiro morto por engano pela polícia britânica em 2005. Esses universos distintos são corroborados pela união harmônica entre as vozes de Lucas e Rita, que flutuam com a graça de uma afinidade interpretativa notória.
Em meu amor é pobre, não há nada para se trocar, para se prometer à amada. A canção havia sido registrada apenas no disco ao vivo Canções para Macho Chorar e Roer Unha (2023), ganhando em EU MANDEI MEU AMOR PRO ESPAÇO sua primeira gravação em estúdio. Aqui, o eu-lírico oferece tudo o que tem (uma paisagem) em troca de um beijo de um minuto, parcelado em três vezes de vinte segundos, um exemplo de como, na obra de Totonho, “o desejo e a falta encontram uma forma muito própria de se dizer”.
O álbum se encerra com um convite indecente em amassar a lataria, canção na qual aparecem as vozes de Lucas Bezerra, de Arthus Fochi e do próprio Totonho. Um arrasta-pé clássico, que justapõe amor e acidente através de seres apaixonados que destroem coisas sem nem se dar conta de que o fazem, de tão inebriados. A canção-memorabília apresenta a voz de Totonho gravada num áudio de WhatsApp, enviado espontaneamente a Lucas na noite de São João de 2021, no qual o compositor paraibano canta um trecho de Roendo Unha, uma composição de Luiz Gonzaga e Luiz Ramalho.
Ficha técnica
1. Glaciais (Totonho/Antonio Reguete M. de Souza)
Arthus Fochi – violão-base (aço), violões de ponteio, baixo elétrico, bandolim, guitarra elétrica, coros, respiração
Lucas Bezerra – voz
2. Vai Nevar (Totonho)
Arthus Fochi – guitarras e violão
Ítallo França – vocais de apoio
Juliana Linhares – vocais de apoio
Lucas Bezerra – voz
Pablo Arruda – baixo elétrico
Pedro Fonte – bateria
Pedro Paulo Jr. – trompete, flugelhorn
3. Eu Mandei Meu Amor Pro Espaço (part. Zé Ibarra) (Totonho)
Arthus Fochi – violões, guitarra, synth bass and synth
Lucas Bezerra – voz
Martín Lima – bandoneon
Pedro Fonte – bateria
Zé Ibarra – voz
4. Nhem Nhem Nhem (part. Chico Limeira, Elon, Nathalia Bellar, Nina Ferreira e Titá Moura) (Totonho)
Arthus Fochi – violão, baixo elétrico, guitarra elétrica
Chico Limeira – voz, coro
Elon – voz, coro
Lucas Bezerra – voz, coro
Nathalia Bellar – voz, coro
Nina Ferreira – voz, coro
Pedro Fonte – bateria
Pedro Paulo Jr. – trompete
Titá Moura – voz, coro
5. Rosa da Matinha (part. Geraldo Azevedo) (Totonho)
Arthus Fochi – violão, baixo elétrico, programação
Geraldo Azevedo – voz
Lucas Bezerra – voz
Lucas Dan – acordeon
Morten Lind – clarinete
Maju Nunes – triângulo
Rafa Barros – percussões
Yuri Villar – flauta transversal
6. Tudo Pra Ser Feliz (Totonho)
Arthus Fochi – violão
Ítallo França – vocais de apoio
Juliana Linhares – vocais de apoio
Lucas Bezerra – voz
Rennan Lindemute – violoncelo
7. O Arqueiro Zen (part. Rita Benneditto) (Totonho)
Arthus Fochi – violão
Lucas Bezerra – voz
Morten Lind – clarinete
Rennan Lindemute – violoncelo
Rita Benneditto – voz
8. Meu Amor é Pobre (Totonho)
Arthus Fochi – guitarra elétrica
Lucas Bezerra – voz
Mina Awny – piano
Sammi Elgameil – sax soprano
Victor Ribeiro – violão de 7 cordas
9. Amassar a Lataria (part. Arthus Fochi e Totonho) (Totonho)
Citação: “Roendo Unha”, de Luiz Gonzaga e Luiz Ramalho, na voz de Totonho
Arthus Fochi – violões e vocais de apoio
Alexander Kraglund – gaita
Lucas Bezerra – voz
Pablo Arruda – baixo elétrico
Pedro Fonte – bateria
Rafa Barros – percussões
Totonho – voz
Victor Ribeiro – guitarra elétrica
As gravações foram realizadas entre 2023 e 2026 nas cidades de Rio de Janeiro, Recife, João Pessoa e Maceió, no Brasil; Copenhague, na Dinamarca; e Malmö, na Suécia. Em estúdio, as captações foram conduzidas por Felipe Moura, Gui Marques e Davi Mello, no Rio de Janeiro; por Arthus Fochi, em Copenhague e Malmö; por Jader Finamore e Rafael Souza Faria, em João Pessoa; e por Dinho Zampier, em Maceió.
Produção musical: Arthus Fochi
Direção musical: Arthus Fochi e Lucas Bezerra
Direção artística: Laurita Dias
Projeto gráfico, capa e identidade visual: Iramaya Rocha
Arranjos: Arthus Fochi
Edição de áudio: Arthus Fochi, Gui Marques e Lucas Bezerra
Mixagem e masterização: Gui Marques no Estúdio Frigideira, Glória, Rio de Janeiro
Lançamento: Cantores del Mundo
Release: Yagho Szulik
Assessoria de imprensa: Wagner Rodolfo

