Estado de Sergipe concluiu recompra da distribuidora de gás em 2026, sete anos após vender parte do controle
Em menos de uma década, a Sergipe Gás S.A. (Sergas) percorreu um caminho pouco comum na administração pública brasileira: passou por um processo de privatização parcial e, anos depois, voltou a ser totalmente controlada pelo Governo de Sergipe.
A conclusão da operação ocorreu neste mês, quando o Estado desembolsou R$ 152,7 milhões para adquirir a participação da japonesa Mitsui, tornando-se novamente dono de 100% da distribuidora de gás canalizado.
Antes de mais nada, o caso reacende uma discussão que vem ganhando força no Brasil: serviços considerados essenciais devem permanecer nas mãos do Estado ou da iniciativa privada?

Como começou a privatização da Sergas?
Em 2019, durante o governo Belivaldo Chagas, Sergipe anunciou a privatização parcial da Sergas. Na época, o governo defendia que a abertura para o setor privado permitiria novos investimentos, maior eficiência operacional e ampliação da oferta de gás natural para consumidores e empresas.
Desse modo, naquele período, o Brasil vivia uma forte agenda nacional de desestatizações, impulsionada também pelo novo marco do gás natural e pelas discussões sobre maior concorrência no setor energético.
Assim, a estrutura acionária da empresa passou a contar com participação do Estado e de investidores privados.

O caminho até a reestatização
Em suma, a mudança começou em 2024.
O Governo de Sergipe comprou a participação da Norgás por cerca de R$ 132 milhões. Dessa forma, se tornou novamente acionista majoritário da distribuidora, com aproximadamente 58,5% das ações.
Em seguida, iniciou negociações para adquirir também a participação da Mitsui.
Após mais de um ano de negociações, a Assembleia Legislativa autorizou a operação e, em junho de 2026, foi concluída a compra definitiva das ações da empresa japonesa por R$ 152,7 milhões, fazendo com que a Sergas voltasse a ser totalmente estatal.
Linha do tempo da Sergas
| Ano | Fato |
|---|---|
| 2019 | Governo anuncia a privatização parcial da Sergas |
| 2024 | Estado recompra participação da Norgás e volta a ser acionista majoritário |
| 2025 | Governo inicia negociação para adquirir a participação da Mitsui |
| 2026 | Compra é concluída por R$ 152,7 milhões e Sergas volta a ser 100% estatal |
Por que o governo decidiu recomprar a empresa?
De acordo com o Governo de Sergipe, a recompra da distribuidora busca principalmente:
- aumentar a competitividade do gás natural;
- revisar o contrato de concessão da empresa;
- reduzir custos para consumidores e indústria;
- ampliar a oferta de gás para novos municípios;
- utilizar a distribuidora como instrumento de desenvolvimento econômico do estado.
Com isso, a gestão estadual também argumenta que o controle integral facilita futuras decisões sobre expansão da infraestrutura energética.
Privatizar ou estatizar?
A princípio, a trajetória da Sergas ilustra um fenômeno que começa a aparecer em alguns países: empresas consideradas estratégicas retornando ao controle estatal após experiências de privatização.
Ao mesmo tempo, os defensores da iniciativa privada afirmam que empresas privadas costumam operar com maior eficiência, investir mais rapidamente e reduzir custos operacionais.
Entretanto, quem defende o controle público argumenta que setores como energia, água, gás, saneamento e transporte possuem forte impacto social e não podem ficar sujeitos apenas à lógica do mercado.
Na prática, o debate costuma girar em torno de uma pergunta:
- quem presta o melhor serviço?
- quem consegue investir mais?
- quem oferece menor tarifa?
- quem garante segurança de abastecimento?
A resposta varia conforme cada setor e cada estado.
Debate que vai além de Sergipe
A discussão não é exclusiva da Sergas. Nos últimos anos, o Brasil assistiu a diferentes modelos de gestão em áreas como:
| Serviço | Modelos existentes |
| Energia elétrica | Empresas públicas e privadas |
| Gás canalizado | Estatais, empresas mistas e privadas |
| Saneamento | Crescente participação privada após o novo marco legal |
| Portos e aeroportos | Predominância de concessões privadas |
| Rodovias | Concessões e administração pública |
Dessa maneira, enquanto alguns estados optaram por ampliar privatizações, outros passaram a fortalecer empresas públicas consideradas estratégicas.
A recompra da Sergas coloca Sergipe no grupo dos estados que voltaram a apostar no controle estatal como instrumento de política econômica.

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Uma discussão que continua aberta
O caso da Sergas mostra que decisões sobre privatização nem sempre são definitivas. Mudanças de cenário econômico, estratégias de desenvolvimento e prioridades de governo podem alterar completamente o rumo de empresas públicas.
Portanto, mais do que discutir quem é o proprietário de uma companhia, especialistas lembram que o maior desafio continua sendo entregar serviços eficientes, tarifas competitivas e investimentos capazes de atender à população e impulsionar a economia.
E é justamente aí que permanece uma das maiores dúvidas da gestão pública brasileira: serviços essenciais, como energia, gás, água e saneamento, devem ser administrados pelo Estado ou pela iniciativa privada?


