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Etanol de milho avança no Nordeste e abre disputa com a tradicional cana-de-açúcar

Durante décadas, falar em etanol no Brasil era praticamente sinônimo de cana-de-açúcar. O combustível renovável transformou estados como Pernambuco, Alagoas e Paraíba em protagonistas nacionais da produção sucroenergética. Entretanto, um novo competidor vem ganhando espaço ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
29 de maio de 2026 - às 07:15
Atualizado 29 de maio de 2026 - às 07:15
5 min de leitura

Durante décadas, falar em etanol no Brasil era praticamente sinônimo de cana-de-açúcar. O combustível renovável transformou estados como Pernambuco, Alagoas e Paraíba em protagonistas nacionais da produção sucroenergética. Entretanto, um novo competidor vem ganhando espaço rapidamente: o etanol de milho.

Impulsionado pela expansão do agronegócio e pelo crescimento da produção de grãos no Matopiba — região que engloba Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — o combustível produzido a partir do milho começa a atrair investimentos também para o Nordeste.

A princípio, embora ainda esteja longe de ameaçar a liderança da cana na região, o avanço da tecnologia e a disponibilidade de matéria-prima estão criando uma nova dinâmica para o mercado de biocombustíveis nordestino.

O que muda entre o etanol de milho e o de cana?

Para quem abastece o carro, praticamente nada. Os dois combustíveis possuem a mesma finalidade e podem ser utilizados normalmente em veículos flex.

As diferenças aparecem principalmente na cadeia produtiva.

CaracterísticaEtanol de CanaEtanol de Milho
Matéria-primaCana-de-açúcarMilho
Produção concentradaNordeste e SudesteCentro-Oeste e novas fronteiras agrícolas
SafraSazonalProdução durante todo o ano
CoprodutosAçúcar e energia elétricaDDG para ração animal, óleo de milho e energia
Consumo de águaMaiorMenor em plantas modernas
Emissão de carbonoBaixaBaixa, dependendo da matriz energética utilizada

O etanol de milho apresenta uma vantagem importante para regiões produtoras de grãos: a possibilidade de operar durante os 12 meses do ano, sem depender do calendário de colheita da cana.

Além disso, gera subprodutos valiosos para a pecuária, como o DDG (grão seco de destilaria), utilizado na alimentação animal.

Curiosidade

Hoje, boa parte do etanol vendido em estados do Centro-Oeste já é produzido majoritariamente a partir do milho, e milhões de veículos circulam diariamente sem qualquer adaptação ou alteração mecânica em relação ao combustível produzido pela cana. Dessa maneira, isso mostra que a disputa entre os dois modelos está muito mais ligada à economia e ao agronegócio do que ao desempenho dos automóveis.

Nordeste ainda é território da cana

Historicamente, o Nordeste é um dos berços da produção sucroenergética brasileira. Os maiores produtores regionais continuam sendo:

EstadoDestaque
AlagoasMaior produtor de etanol do Nordeste
PernambucoForte tradição sucroalcooleira
ParaíbaProdução relevante de etanol e açúcar
BahiaProdução crescente no oeste e litoral
Rio Grande do NorteProdução regional
SergipeProdução complementar

A maior parte das usinas nordestinas continua integrada à produção de açúcar e etanol de cana. Entretanto, em estados como Alagoas e Pernambuco, o setor é responsável por milhares de empregos e possui forte peso econômico.

Onde o etanol de milho está crescendo no Nordeste?

O avanço ocorre principalmente na região do Matopiba. Dessa maneira, o oeste da Bahia e o sul do Maranhão concentram algumas das áreas agrícolas que mais crescem no país, com grande produção de soja, milho e algodão.

Hoje, os principais projetos ligados ao etanol de milho no Nordeste estão concentrados em:

EstadoRegião
BahiaOeste baiano (Luís Eduardo Magalhães e Barreiras)
MaranhãoSul do estado, próximo ao Matopiba
PiauíRegião dos Cerrados
Tocantins*Integra a área econômica do Matopiba

*Embora não seja Nordeste, o Tocantins influencia diretamente a cadeia produtiva regional.

Nos últimos anos, grupos empresariais passaram a estudar novas plantas industriais para aproveitar a crescente produção de milho dessas regiões.

matopiba
matopiba

O que pode mudar para a economia nordestina?

Especialistas avaliam que o etanol de milho não deve substituir a cana-de-açúcar no Nordeste.

O cenário mais provável é de complementaridade.

Enquanto a Zona da Mata continuará forte na produção tradicional de cana, regiões do interior ligadas ao agronegócio podem desenvolver uma nova indústria baseada no milho.

Isso significa:

  • mais agregação de valor à produção agrícola;
  • geração de empregos industriais;
  • fortalecimento da pecuária por meio dos coprodutos;
  • atração de investimentos para o Matopiba;
  • aumento da oferta regional de biocombustíveis.
OJA EXPORTAÇÃO DA MATOPIBA
SOJA EXPORTAÇÃO DA MATOPIBA FOTO DIVULGAÇÃO

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O futuro dos combustíveis renováveis no Nordeste

Com o crescimento da demanda por combustíveis de menor emissão de carbono, o Brasil deve ampliar sua produção de etanol nos próximos anos.

Portanto, nesse cenário, o Nordeste poderá ter dois polos complementares: a tradicional indústria da cana-de-açúcar no litoral e a emergente indústria do etanol de milho nas áreas agrícolas do interior.

Afinal, a combinação dessas duas cadeias pode transformar a região em uma das principais produtoras de biocombustíveis do país, aproveitando tanto sua tradição histórica quanto a expansão do novo agronegócio do Matopiba.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.