Durante décadas, falar em etanol no Brasil era praticamente sinônimo de cana-de-açúcar. O combustível renovável transformou estados como Pernambuco, Alagoas e Paraíba em protagonistas nacionais da produção sucroenergética. Entretanto, um novo competidor vem ganhando espaço rapidamente: o etanol de milho.
Impulsionado pela expansão do agronegócio e pelo crescimento da produção de grãos no Matopiba — região que engloba Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — o combustível produzido a partir do milho começa a atrair investimentos também para o Nordeste.
A princípio, embora ainda esteja longe de ameaçar a liderança da cana na região, o avanço da tecnologia e a disponibilidade de matéria-prima estão criando uma nova dinâmica para o mercado de biocombustíveis nordestino.
O que muda entre o etanol de milho e o de cana?
Para quem abastece o carro, praticamente nada. Os dois combustíveis possuem a mesma finalidade e podem ser utilizados normalmente em veículos flex.
As diferenças aparecem principalmente na cadeia produtiva.
| Característica | Etanol de Cana | Etanol de Milho |
|---|---|---|
| Matéria-prima | Cana-de-açúcar | Milho |
| Produção concentrada | Nordeste e Sudeste | Centro-Oeste e novas fronteiras agrícolas |
| Safra | Sazonal | Produção durante todo o ano |
| Coprodutos | Açúcar e energia elétrica | DDG para ração animal, óleo de milho e energia |
| Consumo de água | Maior | Menor em plantas modernas |
| Emissão de carbono | Baixa | Baixa, dependendo da matriz energética utilizada |
O etanol de milho apresenta uma vantagem importante para regiões produtoras de grãos: a possibilidade de operar durante os 12 meses do ano, sem depender do calendário de colheita da cana.
Além disso, gera subprodutos valiosos para a pecuária, como o DDG (grão seco de destilaria), utilizado na alimentação animal.
Curiosidade
Hoje, boa parte do etanol vendido em estados do Centro-Oeste já é produzido majoritariamente a partir do milho, e milhões de veículos circulam diariamente sem qualquer adaptação ou alteração mecânica em relação ao combustível produzido pela cana. Dessa maneira, isso mostra que a disputa entre os dois modelos está muito mais ligada à economia e ao agronegócio do que ao desempenho dos automóveis.
Nordeste ainda é território da cana
Historicamente, o Nordeste é um dos berços da produção sucroenergética brasileira. Os maiores produtores regionais continuam sendo:
| Estado | Destaque |
|---|---|
| Alagoas | Maior produtor de etanol do Nordeste |
| Pernambuco | Forte tradição sucroalcooleira |
| Paraíba | Produção relevante de etanol e açúcar |
| Bahia | Produção crescente no oeste e litoral |
| Rio Grande do Norte | Produção regional |
| Sergipe | Produção complementar |
A maior parte das usinas nordestinas continua integrada à produção de açúcar e etanol de cana. Entretanto, em estados como Alagoas e Pernambuco, o setor é responsável por milhares de empregos e possui forte peso econômico.
Onde o etanol de milho está crescendo no Nordeste?
O avanço ocorre principalmente na região do Matopiba. Dessa maneira, o oeste da Bahia e o sul do Maranhão concentram algumas das áreas agrícolas que mais crescem no país, com grande produção de soja, milho e algodão.
Hoje, os principais projetos ligados ao etanol de milho no Nordeste estão concentrados em:
| Estado | Região |
|---|---|
| Bahia | Oeste baiano (Luís Eduardo Magalhães e Barreiras) |
| Maranhão | Sul do estado, próximo ao Matopiba |
| Piauí | Região dos Cerrados |
| Tocantins* | Integra a área econômica do Matopiba |
*Embora não seja Nordeste, o Tocantins influencia diretamente a cadeia produtiva regional.
Nos últimos anos, grupos empresariais passaram a estudar novas plantas industriais para aproveitar a crescente produção de milho dessas regiões.

O que pode mudar para a economia nordestina?
Especialistas avaliam que o etanol de milho não deve substituir a cana-de-açúcar no Nordeste.
O cenário mais provável é de complementaridade.
Enquanto a Zona da Mata continuará forte na produção tradicional de cana, regiões do interior ligadas ao agronegócio podem desenvolver uma nova indústria baseada no milho.
Isso significa:
- mais agregação de valor à produção agrícola;
- geração de empregos industriais;
- fortalecimento da pecuária por meio dos coprodutos;
- atração de investimentos para o Matopiba;
- aumento da oferta regional de biocombustíveis.

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O futuro dos combustíveis renováveis no Nordeste
Com o crescimento da demanda por combustíveis de menor emissão de carbono, o Brasil deve ampliar sua produção de etanol nos próximos anos.
Portanto, nesse cenário, o Nordeste poderá ter dois polos complementares: a tradicional indústria da cana-de-açúcar no litoral e a emergente indústria do etanol de milho nas áreas agrícolas do interior.
Afinal, a combinação dessas duas cadeias pode transformar a região em uma das principais produtoras de biocombustíveis do país, aproveitando tanto sua tradição histórica quanto a expansão do novo agronegócio do Matopiba.



