De pequenas comunidades rurais a grandes capitais, a dessalinização vem mudando a realidade de milhares de famílias nordestinas
Em resumo, conviver com a seca sempre foi um dos maiores desafios do Nordeste. Dessa forma, em uma região onde a irregularidade das chuvas faz parte da realidade climática, garantir água para consumo humano tornou-se uma prioridade estratégica.
A tecnologia, antes utilizada apenas em localidades isoladas, agora também integra projetos bilionários para garantir o abastecimento urbano e reduzir os impactos das secas prolongadas.
Nesse cenário, a dessalinização da água desponta como uma das soluções mais importantes para ampliar a segurança hídrica. Assim, a tecnologia permite transformar água salobra — comum em poços do semiárido — e até água do mar em água potável. Desse modo, beneficia desde pequenas comunidades rurais até grandes centros urbanos.
Nos últimos anos, Governos Estaduais e o Governo Federal ampliaram investimentos no setor. Portanto, tornando o Nordeste a principal região brasileira na utilização dessa tecnologia.
Como funciona a dessalinização?
Antes de mais nada, a dessalinização consiste na retirada do excesso de sais e impurezas da água.
No semiárido nordestino, o processo é aplicado principalmente em águas subterrâneas, que frequentemente apresentam altos índices de salinidade.
A princípio, o sistema mais utilizado atualmente é a osmose reversa, considerada uma das tecnologias mais eficientes do mundo.
O processo ocorre em etapas:
- a água é captada de poços ou do mar;
- passa por filtros que retiram sedimentos;
- é submetida a membranas especiais que retêm os sais;
- a água tratada recebe ajustes de qualidade antes de seguir para consumo humano.
O resultado é uma água própria para beber, cozinhar e realizar outras atividades essenciais.
Nordeste lidera os investimentos
Nenhuma outra região brasileira concentra tantos projetos de dessalinização quanto o Nordeste. A tecnologia está presente em praticamente todos os estados da região, especialmente nas áreas do semiárido.
Além dos pequenos sistemas comunitários, começam a surgir grandes plantas industriais capazes de abastecer cidades inteiras.
O maior exemplo é o Ceará.
Ceará construirá a maior usina de dessalinização do Brasil
Fortaleza iniciou a implantação da Dessal do Ceará, considerada a primeira usina brasileira de grande porte voltada ao abastecimento público. Quando entrar em operação, prevista para 2028, a planta deverá produzir:
- 1.000 litros de água por segundo;
- cerca de 12% de toda a demanda da capital cearense;
- abastecimento estimado para aproximadamente 720 mil pessoas.
O investimento ultrapassa R$ 3 bilhões por meio de uma parceria público-privada. O projeto representa uma mudança histórica na matriz de abastecimento do estado, reduzindo a dependência exclusiva dos açudes.
Programa Água Doce já mudou a vida de milhares de famílias
Enquanto grandes usinas atendem áreas urbanas, milhares de comunidades rurais são beneficiadas pelo Programa Água Doce, coordenado pelo Governo Federal em parceria com os estados.
O programa instala dessalinizadores em comunidades onde a única água disponível é salobra.
Hoje, centenas de sistemas operam em estados como:
- Bahia;
- Ceará;
- Pernambuco;
- Paraíba;
- Rio Grande do Norte;
- Alagoas;
- Sergipe;
- Piauí.
Esses equipamentos garantem água potável para milhares de famílias que antes dependiam de carros-pipa ou percorriam longas distâncias em busca de água de qualidade.
Bahia é destaque em número de sistemas
Entre os estados nordestinos, a Bahia concentra um dos maiores números de dessalinizadores instalados pelo Programa Água Doce.
A ampla extensão do semiárido baiano e a quantidade de comunidades abastecidas por poços salobros fizeram do estado um dos principais beneficiados pela iniciativa.
Além da Bahia, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba também ampliaram significativamente suas redes de dessalinização nos últimos anos.

LEIA TAMBÉM:
- Ceará autoriza obras da maior usina de dessalinização do Brasil
- Segurança hídrica: novas barragens na Paraíba mostram que investir em água é estratégico
- Chuva forte avança no Nordeste; confira onde
- Espanha x Argentina: Como a final da Copa reflete as conexões do Nordeste com os dois países
Benefícios vão além da água potável
Ao mesmo tempo, os impactos da dessalinização ultrapassam o abastecimento humano. Em suma, a disponibilidade permanente de água melhora diversos indicadores sociais. Desse modo, entre os principais benefícios estão:
- redução das doenças provocadas pelo consumo de água inadequada;
- maior segurança alimentar;
- permanência das famílias no campo;
- fortalecimento da agricultura familiar;
- redução da dependência de carros-pipa;
- melhoria da qualidade de vida das comunidades.
Em diversas localidades, a água rejeitada pelo processo também vem sendo utilizada em projetos de piscicultura, produção de sal e cultivo de plantas adaptadas à salinidade, aumentando o aproveitamento dos recursos.
Tecnologia fortalece a segurança hídrica
Especialistas apontam que a dessalinização não substitui barragens, adutoras ou a transposição do Rio São Francisco. Na prática, ela complementa essas estruturas.
Ao diversificar as fontes de abastecimento, os estados tornam seus sistemas mais resilientes às mudanças climáticas e às secas prolongadas.
O futuro da água no Nordeste
Com eventos climáticos cada vez mais extremos, a tendência é que a dessalinização ganhe espaço nos próximos anos. A combinação entre: grandes reservatórios, adutoras, transposição, reuso de água e dessalinização; forma hoje a base da estratégia de segurança hídrica adotada por diversos estados nordestinos.
Portanto, mais do que uma solução tecnológica, a dessalinização representa uma ferramenta para garantir desenvolvimento, reduzir desigualdades e oferecer qualidade de vida a milhões de pessoas que vivem em uma das regiões mais desafiadoras do ponto de vista climático no Brasil.


