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Dessalinização ganha força no Nordeste e se torna aliada da segurança hídrica

De pequenas comunidades rurais a grandes capitais, a dessalinização vem mudando a realidade de milhares de famílias nordestinas Em resumo, conviver com a seca sempre foi um dos maiores desafios do Nordeste. Dessa forma, em ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
17 de julho de 2026 - às 09:41
Atualizado 17 de julho de 2026 - às 09:41
5 min de leitura

De pequenas comunidades rurais a grandes capitais, a dessalinização vem mudando a realidade de milhares de famílias nordestinas

Em resumo, conviver com a seca sempre foi um dos maiores desafios do Nordeste. Dessa forma, em uma região onde a irregularidade das chuvas faz parte da realidade climática, garantir água para consumo humano tornou-se uma prioridade estratégica.

A tecnologia, antes utilizada apenas em localidades isoladas, agora também integra projetos bilionários para garantir o abastecimento urbano e reduzir os impactos das secas prolongadas.

Nesse cenário, a dessalinização da água desponta como uma das soluções mais importantes para ampliar a segurança hídrica. Assim, a tecnologia permite transformar água salobra — comum em poços do semiárido — e até água do mar em água potável. Desse modo, beneficia desde pequenas comunidades rurais até grandes centros urbanos.

Nos últimos anos, Governos Estaduais e o Governo Federal ampliaram investimentos no setor. Portanto, tornando o Nordeste a principal região brasileira na utilização dessa tecnologia.

Como funciona a dessalinização?

Antes de mais nada, a dessalinização consiste na retirada do excesso de sais e impurezas da água.

No semiárido nordestino, o processo é aplicado principalmente em águas subterrâneas, que frequentemente apresentam altos índices de salinidade.

A princípio, o sistema mais utilizado atualmente é a osmose reversa, considerada uma das tecnologias mais eficientes do mundo.

O processo ocorre em etapas:

  1. a água é captada de poços ou do mar;
  2. passa por filtros que retiram sedimentos;
  3. é submetida a membranas especiais que retêm os sais;
  4. a água tratada recebe ajustes de qualidade antes de seguir para consumo humano.

O resultado é uma água própria para beber, cozinhar e realizar outras atividades essenciais.

Nordeste lidera os investimentos

Nenhuma outra região brasileira concentra tantos projetos de dessalinização quanto o Nordeste. A tecnologia está presente em praticamente todos os estados da região, especialmente nas áreas do semiárido.

Além dos pequenos sistemas comunitários, começam a surgir grandes plantas industriais capazes de abastecer cidades inteiras.

O maior exemplo é o Ceará.

Ceará construirá a maior usina de dessalinização do Brasil

Fortaleza iniciou a implantação da Dessal do Ceará, considerada a primeira usina brasileira de grande porte voltada ao abastecimento público. Quando entrar em operação, prevista para 2028, a planta deverá produzir:

  • 1.000 litros de água por segundo;
  • cerca de 12% de toda a demanda da capital cearense;
  • abastecimento estimado para aproximadamente 720 mil pessoas.

O investimento ultrapassa R$ 3 bilhões por meio de uma parceria público-privada. O projeto representa uma mudança histórica na matriz de abastecimento do estado, reduzindo a dependência exclusiva dos açudes.

Programa Água Doce já mudou a vida de milhares de famílias

Enquanto grandes usinas atendem áreas urbanas, milhares de comunidades rurais são beneficiadas pelo Programa Água Doce, coordenado pelo Governo Federal em parceria com os estados.

O programa instala dessalinizadores em comunidades onde a única água disponível é salobra.

Hoje, centenas de sistemas operam em estados como:

  • Bahia;
  • Ceará;
  • Pernambuco;
  • Paraíba;
  • Rio Grande do Norte;
  • Alagoas;
  • Sergipe;
  • Piauí.

Esses equipamentos garantem água potável para milhares de famílias que antes dependiam de carros-pipa ou percorriam longas distâncias em busca de água de qualidade.

Bahia é destaque em número de sistemas

Entre os estados nordestinos, a Bahia concentra um dos maiores números de dessalinizadores instalados pelo Programa Água Doce.

A ampla extensão do semiárido baiano e a quantidade de comunidades abastecidas por poços salobros fizeram do estado um dos principais beneficiados pela iniciativa.

Além da Bahia, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba também ampliaram significativamente suas redes de dessalinização nos últimos anos.

Usina de dessalinização Foto Cagece Divulgação
Usina de dessalinização no Ceará Foto Cagece Divulgação

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Benefícios vão além da água potável

Ao mesmo tempo, os impactos da dessalinização ultrapassam o abastecimento humano. Em suma, a disponibilidade permanente de água melhora diversos indicadores sociais. Desse modo, entre os principais benefícios estão:

  • redução das doenças provocadas pelo consumo de água inadequada;
  • maior segurança alimentar;
  • permanência das famílias no campo;
  • fortalecimento da agricultura familiar;
  • redução da dependência de carros-pipa;
  • melhoria da qualidade de vida das comunidades.

Em diversas localidades, a água rejeitada pelo processo também vem sendo utilizada em projetos de piscicultura, produção de sal e cultivo de plantas adaptadas à salinidade, aumentando o aproveitamento dos recursos.

Tecnologia fortalece a segurança hídrica

Especialistas apontam que a dessalinização não substitui barragens, adutoras ou a transposição do Rio São Francisco. Na prática, ela complementa essas estruturas.

Ao diversificar as fontes de abastecimento, os estados tornam seus sistemas mais resilientes às mudanças climáticas e às secas prolongadas.

O futuro da água no Nordeste

Com eventos climáticos cada vez mais extremos, a tendência é que a dessalinização ganhe espaço nos próximos anos. A combinação entre: grandes reservatórios, adutoras, transposição, reuso de água e dessalinização; forma hoje a base da estratégia de segurança hídrica adotada por diversos estados nordestinos.

Portanto, mais do que uma solução tecnológica, a dessalinização representa uma ferramenta para garantir desenvolvimento, reduzir desigualdades e oferecer qualidade de vida a milhões de pessoas que vivem em uma das regiões mais desafiadoras do ponto de vista climático no Brasil.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.