Início » Cotidiano » Nordeste concentra cinco áreas de corais ameaçadas e recebe milhões para proteger recifes

Cotidiano

Nordeste concentra cinco áreas de corais ameaçadas e recebe milhões para proteger recifes

Cinco regiões de recifes do Brasil estão em perigo crítico, todas no Nordeste. Conheça os projetos de pesquisa, restauração e investimentos para proteger os corais.
Eliseu Lins, da Agência NE9
30 de outubro de 2026 - às 08:45
Atualizado 30 de outubro de 2026 - às 08:45
8 min de leitura

O Nordeste reúne um patrimônio natural de grande importância para a biodiversidade, o turismo e a economia costeira. Entretanto, cinco regiões brasileiras de recifes de corais receberam a classificação de “criticamente em perigo” em uma avaliação internacional apresentada durante a COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica, realizada na Armênia.

Todas as áreas brasileiras nessa categoria ficam no Nordeste: Parrachos, Atol das Rocas e Fernando de Noronha, Costa dos Corais, Baía de Todos os Santos e Baixo Sul e Abrolhos.

Apesar do alerta, iniciativas de pesquisa, monitoramento e restauração já mobilizam instituições científicas, organizações ambientais e comunidades costeiras. Entre elas, dois projetos apoiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) somam R$ 50,87 milhões em investimentos para ações de conservação ao longo do litoral brasileiro.

A princípio, o cenário mostra que proteger os recifes significa preservar não apenas a vida marinha, mas também destinos turísticos, atividades pesqueiras e oportunidades de renda para milhares de pessoas.

Cinco regiões de corais ameaçadas ficam no Nordeste

A avaliação da Lista Vermelha de Ecossistemas analisou oito ecorregiões brasileiras de recifes de corais. Desse total, cinco receberam a classificação de criticamente em perigo.

Veja as áreas nordestinas incluídas no levantamento:

Região de recifesEstados relacionados
ParrachosRio Grande do Norte
Atol das Rocas e Fernando de NoronhaRio Grande do Norte e Pernambuco
Costa dos CoraisPernambuco e Alagoas
Baía de Todos os Santos e Baixo SulBahia
AbrolhosBahia

A classificação considera o risco de colapso dos ecossistemas. Isso não significa que todos os corais dessas regiões morreram. Pelo contrário, os ambientes ainda abrigam corais vivos e desempenham funções ecológicas importantes, mas precisam de medidas urgentes de proteção.

Dessa maneira, o estudo também identificou falta de dados suficientes para classificar outras três áreas brasileiras: Parcel de Manuel Luís, Costa Semiárida e Queimada Grande. Portanto, a ausência de classificação não significa que esses ambientes estejam livres de ameaças.

A avaliação considerou as mudanças registradas nos últimos 50 anos e as projeções de estresse térmico para as próximas cinco décadas, com base em cenários climáticos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Projetos investem R$ 50,87 milhões na conservação dos recifes

Enquanto o diagnóstico aponta riscos, projetos de conservação buscam ampliar o conhecimento científico e recuperar ambientes marinhos.

Uma das iniciativas é o projeto De Manuel Luís a Trindade, executado pela Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (FEST), em articulação com o ICMBio. O investimento total chega a R$ 33,01 milhões, incluindo R$ 16,36 milhões em recursos não reembolsáveis do BNDES.

O projeto prevê ações em 14 unidades de conservação, desde o Maranhão até o Espírito Santo. Entre as áreas contempladas estão o Parcel de Manuel Luís, no Maranhão; o Atol das Rocas, no Rio Grande do Norte; Barra do Rio Mamanguape, na Paraíba; Fernando de Noronha e Costa dos Corais, entre Pernambuco e Alagoas; e Abrolhos, na Bahia.

Assim, as atividades incluem mapeamento de áreas recifais, monitoramento de espécies, combate a organismos invasores e produção de informações para orientar políticas de conservação.

Além disso, o projeto prevê capacitar 510 pessoas e estimular iniciativas de turismo de base comunitária e ciência cidadã.

Outra frente é A Virada dos Recifes de Coral, que reúne R$ 17,86 milhões em investimentos. Desse total, R$ 8,59 milhões vêm do BNDES, R$ 5,48 milhões do WWF-Brasil e R$ 3,79 milhões da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

A iniciativa concentra ações no Ceará, em Pernambuco e na Bahia, além de estudos em Alagoas. Entre as atividades estão a restauração de corais, pesquisas genéticas, educação ambiental e desenvolvimento de negócios ligados à conservação.

Ciência busca corais mais resistentes ao aquecimento dos oceanos

Outro desafio é aumentar a capacidade de recuperação dos recifes diante das mudanças climáticas.

Nesse sentido, o projeto Coral Vivo Regenera, do Instituto Coral Vivo, trabalha com pesquisa e restauração de corais entre a Bahia e o Ceará. A iniciativa conta com investimento total de R$ 14 milhões, incluindo R$ 6,6 milhões aprovados pelo BNDES.

Além disso, o trabalho prevê monitoramento do branqueamento, pesquisa de organismos mais resistentes ao estresse térmico e técnicas de reprodução e restauração.

Entre as áreas contempladas estão Abrolhos, na Bahia; Iparana, no Ceará; Fernando de Noronha, Serrambi e Porto de Galinhas, em Pernambuco; e a Costa dos Corais, em Alagoas.

Já o projeto SER Corais, executado pelo Instituto Nautilus de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade, recebeu R$ 5,5 milhões do Fundo Socioambiental do BNDES.

A iniciativa prevê monitorar aproximadamente 2.800 quilômetros de litoral, com pesquisas, mergulhos científicos, produção de mapas e acompanhamento de espécies. O trabalho também busca gerar informações para orientar medidas de conservação.

Entretanto, essas iniciativas complementam o esforço de proteção dos ambientes recifais e mostram como a pesquisa científica pode ajudar a identificar áreas prioritárias e desenvolver técnicas de recuperação.

Corais também protegem o turismo e a economia do Nordeste

A conservação dos recifes tem efeitos que vão muito além da biodiversidade. Esses ambientes abrigam diferentes espécies marinhas, ajudam a proteger a costa e sustentam atividades econômicas importantes para o litoral nordestino.

No turismo, os recifes formam paisagens subaquáticas e piscinas naturais que atraem visitantes de diferentes partes do Brasil e do exterior.

Entre os destinos associados a esses ambientes estão:

  • Maracajaú (RN): conhecido pelos parrachos e passeios de mergulho.
  • Fernando de Noronha (PE): reúne ambientes marinhos de grande biodiversidade.
  • Porto de Galinhas e Tamandaré (PE): destinos conhecidos pelas piscinas naturais e pelos recifes.
  • Maragogi (AL): recebe visitantes interessados nas piscinas naturais da Costa dos Corais.
  • Abrolhos (BA): referência nacional para pesquisas, mergulho e observação da vida marinha.

Além do turismo, os recifes oferecem abrigo, alimentação e áreas de reprodução para diferentes espécies de peixes e outros organismos. Dessa forma, contribuem para a manutenção da pesca e das atividades de comunidades costeiras.

Também funcionam como barreiras naturais, reduzindo parte da energia das ondas e ajudando a proteger trechos do litoral.

Por isso, a conservação desses ecossistemas representa também uma estratégia de proteção econômica para destinos turísticos, pescadores, barqueiros, guias, restaurantes e pequenos empreendedores.

LEIA TAMBÉM:

Aquecimento dos oceanos é uma das principais ameaças

Apesar dos projetos em andamento, os recifes enfrentam desafios importantes.

A avaliação internacional aponta as ondas de calor marinhas como uma das principais ameaças aos corais brasileiros. O aumento da temperatura da água provoca estresse nos organismos e pode desencadear o branqueamento, fenômeno que compromete sua sobrevivência.

Entretanto, o Brasil já registrou episódios severos de estresse térmico em 2019, 2020 e 2024.

Além disso, atividades humanas ampliam a pressão sobre esses ambientes. Entre os fatores estão:

  • Sobrepesca e retirada excessiva de espécies;
  • Poluição e lançamento de sedimentos no mar;
  • Ocupação desordenada da zona costeira;
  • Turismo sem controle ambiental adequado;
  • Exploração de petróleo e gás;
  • Mineração e atividades de navegação;
  • Espécies invasoras, como o coral-sol e o peixe-leão.

Diante desse cenário, os especialistas destacam que os projetos locais são fundamentais, mas não resolvem sozinhos o problema do aquecimento dos oceanos. A redução das emissões de gases de efeito estufa continua essencial para diminuir os riscos climáticos.

Nordeste reúne patrimônio natural e iniciativas de conservação

Portanto, o diagnóstico internacional coloca o litoral nordestino diante de um desafio importante: proteger ecossistemas que sustentam a biodiversidade, o turismo e atividades econômicas de comunidades costeiras.

Ao mesmo tempo, projetos apoiados por instituições públicas e organizações ambientais ampliam o monitoramento, desenvolvem técnicas de restauração e envolvem moradores na conservação.

Afinal, o futuro dos recifes depende da continuidade dessas iniciativas, da proteção das áreas marinhas e de práticas mais responsáveis de pesca, turismo e ocupação do litoral.

Preservar os corais significa manter vivos alguns dos ambientes naturais mais importantes do Nordeste e proteger também parte da economia e da identidade de suas comunidades costeiras.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.