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Como os fungos podem ser a chave para combater a seca no Nordeste

Imagine um exército invisível, de organismos que não são plantas nem animais, vivendo sob nossos pés e trabalhando silenciosamente para restaurar terras degradadas, combater a desertificação e reverter os danos da seca. Isso não é ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
21 de agosto de 2026 - às 08:24
Atualizado 21 de agosto de 2026 - às 08:24
4 min de leitura

Imagine um exército invisível, de organismos que não são plantas nem animais, vivendo sob nossos pés e trabalhando silenciosamente para restaurar terras degradadas, combater a desertificação e reverter os danos da seca. Isso não é ficção científica — é ciência real, e pode ser uma das soluções para o Nordeste brasileiro.

A princípio, pesquisadoras apresentaram, durante a 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Combate à Desertificação (COP17), na Mongólia, evidências de que os fungos micorrízicos são poderosos na recuperação de solos áridos e semiáridos.

O que são os fungos micorrízicos?

Antes de mais nada, esses organismos estabelecem uma simbiose com as raízes das plantas. Enquanto recebem carbono produzido pelas plantas durante a fotossíntese, eles ajudam as plantas a absorver água e nutrientes como fósforo e nitrogênio.

Além disso, as redes de fungos:

  • Agregam partículas do solo, reduzindo a erosão;
  • Aumentam a resistência das plantas à seca;
  • Funcionam como um “sistema circulatório” subterrâneo que conecta a vida acima e abaixo do solo .

Como funciona a estratégia dos fungos de combater a seca?

Em suma, o método testado na Mongólia é simples e adaptável:

  1. Pequenas áreas de pastagem são cercadas para impedir temporariamente a entrada de animais e a ação humana.
  2. Essas áreas funcionam como refúgios de biodiversidade subterrânea — verdadeiros “bancos de sementes” de fungos .
  3. Com o tempo, o solo se recupera, a vegetação volta a crescer e o ciclo se retroalimenta.

“É como um banco de sementes, mas de fungos. Eles criam uma infraestrutura viva subterrânea que mantém o solo unido”, destaca Toby Kiers, diretora-executiva da SPUN, em entrevista à Agência Brasil.

O potencial para o Nordeste

O Nordeste enfrenta desafios semelhantes aos da Mongólia: solos degradados, secas prolongadas e pressão sobre as pastagens. Em suma, os primeiros resultados dos experimentos mongóis são animadores:

IndicadorResultado
Vegetação dentro das áreas protegidasMaior altura do que plantas fora das cercas
Potencial de recuperação de pastagens degradadasAté 91% poderia ser recuperado em algum grau
Biodiversidade fúngica desconhecidaCerca de 90% das sequências de DNA pertencem a espécies ainda não identificadas pela ciência
Unidades taxonômicas identificadas no deserto do Gobi541 espécies associadas a fungos micorrízicos

Fonte: Estudos conduzidos na Mongólia pela equipe da SPUN e da pesquisadora Burenjargal Otgonsuren.

Uma nova fronteira para a ciência e as políticas públicas

Ao mesmo tempo, a pesquisa revelou que a biodiversidade subterrânea é imensa e ainda pouco conhecida. Na região do Gobi, 90% das sequências de DNA fúngico pertenciam a espécies desconhecidas pela ciência. Portanto, isso significa que cada região tem seus próprios fungos adaptados localmente — e protegê-los é essencial.

Seca no Nordeste
A estiagem é um dos grandes problemas do Nordeste. Foto: Agência Brasil

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Embora os experimentos estejam em fase inicial na Mongólia, a mensagem é clara: é preciso olhar para o solo. Cerca de 90% dos hotspots de biodiversidade microbiana estão fora de áreas protegidas , e os fungos ainda não são prioridade nas políticas de combate à desertificação.

Para o Nordeste, onde a seca é uma realidade histórica, investir em pesquisas com fungos nativos pode ser um caminho sustentável e de baixo custo para:

  • Recuperar pastagens degradadas;
  • Aumentar a resiliência da agricultura familiar;
  • Combater a desertificação;
  • Mitigar os efeitos das mudanças climáticas.

Os fungos estão nos mostrando que a solução para alguns dos maiores desafios ambientais pode estar bem debaixo dos nossos pés — invisível, mas poderosa. Proteger a vida subterrânea é proteger o futuro do solo, da água e das plantas. E, quem sabe, pode ser a chave para um Nordeste mais verde e resiliente.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.