Imagine um exército invisível, de organismos que não são plantas nem animais, vivendo sob nossos pés e trabalhando silenciosamente para restaurar terras degradadas, combater a desertificação e reverter os danos da seca. Isso não é ficção científica — é ciência real, e pode ser uma das soluções para o Nordeste brasileiro.
A princípio, pesquisadoras apresentaram, durante a 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Combate à Desertificação (COP17), na Mongólia, evidências de que os fungos micorrízicos são poderosos na recuperação de solos áridos e semiáridos.
O que são os fungos micorrízicos?
Antes de mais nada, esses organismos estabelecem uma simbiose com as raízes das plantas. Enquanto recebem carbono produzido pelas plantas durante a fotossíntese, eles ajudam as plantas a absorver água e nutrientes como fósforo e nitrogênio.
Além disso, as redes de fungos:
- Agregam partículas do solo, reduzindo a erosão;
- Aumentam a resistência das plantas à seca;
- Funcionam como um “sistema circulatório” subterrâneo que conecta a vida acima e abaixo do solo .
Como funciona a estratégia dos fungos de combater a seca?
Em suma, o método testado na Mongólia é simples e adaptável:
- Pequenas áreas de pastagem são cercadas para impedir temporariamente a entrada de animais e a ação humana.
- Essas áreas funcionam como refúgios de biodiversidade subterrânea — verdadeiros “bancos de sementes” de fungos .
- Com o tempo, o solo se recupera, a vegetação volta a crescer e o ciclo se retroalimenta.
“É como um banco de sementes, mas de fungos. Eles criam uma infraestrutura viva subterrânea que mantém o solo unido”, destaca Toby Kiers, diretora-executiva da SPUN, em entrevista à Agência Brasil.
O potencial para o Nordeste
O Nordeste enfrenta desafios semelhantes aos da Mongólia: solos degradados, secas prolongadas e pressão sobre as pastagens. Em suma, os primeiros resultados dos experimentos mongóis são animadores:
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Vegetação dentro das áreas protegidas | Maior altura do que plantas fora das cercas |
| Potencial de recuperação de pastagens degradadas | Até 91% poderia ser recuperado em algum grau |
| Biodiversidade fúngica desconhecida | Cerca de 90% das sequências de DNA pertencem a espécies ainda não identificadas pela ciência |
| Unidades taxonômicas identificadas no deserto do Gobi | 541 espécies associadas a fungos micorrízicos |
Fonte: Estudos conduzidos na Mongólia pela equipe da SPUN e da pesquisadora Burenjargal Otgonsuren.
Uma nova fronteira para a ciência e as políticas públicas
Ao mesmo tempo, a pesquisa revelou que a biodiversidade subterrânea é imensa e ainda pouco conhecida. Na região do Gobi, 90% das sequências de DNA fúngico pertenciam a espécies desconhecidas pela ciência. Portanto, isso significa que cada região tem seus próprios fungos adaptados localmente — e protegê-los é essencial.

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O que isso significa para o Brasil?
Embora os experimentos estejam em fase inicial na Mongólia, a mensagem é clara: é preciso olhar para o solo. Cerca de 90% dos hotspots de biodiversidade microbiana estão fora de áreas protegidas , e os fungos ainda não são prioridade nas políticas de combate à desertificação.
Para o Nordeste, onde a seca é uma realidade histórica, investir em pesquisas com fungos nativos pode ser um caminho sustentável e de baixo custo para:
- Recuperar pastagens degradadas;
- Aumentar a resiliência da agricultura familiar;
- Combater a desertificação;
- Mitigar os efeitos das mudanças climáticas.
Os fungos estão nos mostrando que a solução para alguns dos maiores desafios ambientais pode estar bem debaixo dos nossos pés — invisível, mas poderosa. Proteger a vida subterrânea é proteger o futuro do solo, da água e das plantas. E, quem sabe, pode ser a chave para um Nordeste mais verde e resiliente.


