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Universidades Federais do Nordeste: 10 pesquisas que mostram a força da ciência na região

Conheça 10 pesquisas de universidades federais do Nordeste em saúde e tecnologia, com prêmios científicos, inovação e cooperação internacional.
Eliseu Lins, da Agência NE9
20 de outubro de 2026 - às 09:21
Atualizado 20 de outubro de 2026 - às 09:21
13 min de leitura
pessoas no laboratório
Pernambuco inova transformando ciência em oportunidade de negócios.

De biomateriais feitos com pele de tilápia à inteligência artificial na saúde, universidades federais nordestinas desenvolvem soluções, recebem prêmios e ampliam a cooperação científica internacional.

As universidades federais do Nordeste desenvolvem pesquisas que vão além das salas de aula. Em laboratórios, hospitais universitários e centros de inovação, pesquisadores investigam tratamentos para queimaduras, ferramentas de inteligência artificial para identificar doenças, dispositivos de triagem e tecnologias que podem melhorar o atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS).

A diversidade desses projetos ajuda a dimensionar o papel da ciência produzida na região. Há iniciativas que conquistaram premiações nacionais, estudos publicados em periódicos científicos e projetos que estabeleceram conexões com instituições internacionais.

O tema ganhou espaço no debate público após declarações atribuídas ao influenciador Pablo Marçal sobre universidades federais nordestinas. Independentemente da disputa política, os resultados documentados permitem examinar a contribuição dessas instituições a partir de pesquisas, tecnologias e reconhecimento acadêmico.

A seguir, o Portal NE9 reúne dez exemplos desenvolvidos por universidades federais do Nordeste ou por pesquisadores e ecossistemas de inovação diretamente ligados a essas instituições.

1. UFC transforma pele de tilápia em biomaterial para tratamentos médicos

Universidade Federal do Ceará (UFC) — Ceará

Uma das pesquisas nordestinas de maior repercussão na área da saúde investiga o uso da pele de tilápia como biomaterial para tratar queimaduras, feridas e outras condições médicas.

Pesquisadores do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da UFC desenvolveram estudos que ampliaram as possibilidades de aplicação desse material, inclusive em procedimentos cirúrgicos e na medicina regenerativa.

Em setembro de 2020, o projeto conquistou o primeiro lugar no Prêmio Euro Inovação na Saúde, após concorrer com mais de 1.600 trabalhos inscritos. A equipe recebeu € 500 mil pelo reconhecimento.

Além disso, o grupo acumulou publicações científicas e parcerias com pesquisadores de diferentes países.

A princípio, a trajetória mostra como a pesquisa universitária pode transformar um material de origem animal em uma alternativa tecnológica para a medicina.

Por que importa: o estudo abre caminhos para desenvolver biomateriais e ampliar as opções de tratamento. Entretanto, cada aplicação exige avaliação científica e regulatória própria.

2. UFC cria jogo de realidade virtual para prevenir quedas entre idosos

Universidade Federal do Ceará (UFC) — Ceará

A tecnologia também pode ajudar a prevenir acidentes. Na UFC, a pesquisadora Jamylle Lucas Diniz desenvolveu uma tese que resultou no PrevineQuedas, um jogo sério de realidade virtual voltado à capacitação de profissionais de saúde para prevenir quedas de pessoas idosas em casa.

O trabalho venceu o Prêmio Capes de Tese 2026 na área de Enfermagem. A iniciativa utiliza recursos digitais para simular situações e apoiar o treinamento dos profissionais.

Além disso, a proposta enfrenta um problema relevante de saúde pública: as quedas podem provocar fraturas, perda de autonomia e internações, especialmente entre pessoas idosas.

Por que importa: a pesquisa aproxima a tecnologia da prevenção e da formação profissional, com potencial para apoiar estratégias de cuidado à população idosa.

3. Biomaterial desenvolvido no ecossistema da UFC busca regenerar ossos

UFC Sobral e ecossistema de inovação — Ceará

A pesquisa em biomateriais também aparece na odontologia. O BioMemBone é uma tecnologia que busca desenvolver um material bioativo e reabsorvível para a regeneração óssea guiada.

A proposta pretende ampliar a oferta de alternativas nacionais para procedimentos odontológicos. O projeto envolve a empresa Biohealing Tecnologia em Biomateriais e pesquisadores ligados ao ecossistema de inovação de Sobral.

Assim, em 2025, a iniciativa apareceu entre os projetos de destaque da etapa regional Nordeste do Prêmio Finep de Inovação, na categoria Deep Tech.

É importante diferenciar o estágio da tecnologia: o reconhecimento está ligado ao desenvolvimento, à ampliação da produção e aos estudos de viabilidade e avaliação clínica. Isso não significa, por si só, que o material já tenha comprovação definitiva para todas as aplicações ou ampla disponibilidade comercial.

Por que importa: o projeto mostra como a pesquisa e a inovação podem conectar universidades, empresas e desenvolvimento de tecnologias médicas nacionais.

4. UFPE participa de pesquisa sobre risco de recaída da leucemia

Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) — Pernambuco

A pesquisa em oncologia também reúne pesquisadores nordestinos. Um estudo publicado em 2025 na revista científica Signal Transduction and Targeted Therapy investigou a relação entre o DNA mitocondrial e o risco de recaída em pacientes com leucemia mieloide aguda.

O trabalho envolveu colaboração científica e ganhou reconhecimento no Prêmio Octavio Frias de Oliveira 2026, dedicado à pesquisa em oncologia.

A investigação busca contribuir para compreender fatores associados à evolução da doença e à possibilidade de retorno do câncer após o tratamento.

No entanto, um biomarcador investigado em estudo científico não representa automaticamente um teste disponível para uso clínico. Pesquisas desse tipo precisam de validação e de avaliação adicional antes de orientar decisões médicas de rotina.

Por que importa: compreender os fatores associados à recaída pode ajudar a orientar futuras pesquisas sobre prognóstico e resistência ao tratamento.

5. UFPI desenvolve inteligência artificial para auxiliar na detecção do glaucoma

Universidade Federal do Piauí (UFPI) — Piauí

A inteligência artificial também entrou na pesquisa oftalmológica. O pesquisador Luis Eduardo Silva Brito, da UFPI, desenvolveu uma plataforma web que utiliza deep learning para apoiar a detecção automática do glaucoma a partir de imagens do fundo do olho.

O projeto venceu o Prêmio Destaque na Iniciação Científica e Tecnológica 2026, promovido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O glaucoma pode provocar perda progressiva da visão e, em muitos casos, evolui sem sintomas perceptíveis nas fases iniciais. Por isso, ferramentas que ajudem a identificar casos suspeitos podem contribuir para organizar o rastreamento e priorizar avaliações oftalmológicas.

Ainda assim, a plataforma deve ser entendida como uma tecnologia de apoio à detecção. A confirmação diagnóstica exige avaliação profissional e os procedimentos clínicos adequados.

Por que importa: o projeto combina inteligência artificial e saúde para investigar formas de apoiar a identificação de uma doença que pode comprometer a visão.

6. UFRN desenvolve ferramentas digitais para acompanhar a esclerose lateral amiotrófica

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) — Rio Grande do Norte

A esclerose lateral amiotrófica (ELA) é uma doença neurodegenerativa que exige acompanhamento clínico e produz desafios para pacientes, familiares e serviços de saúde.

Na UFRN, iniciativas ligadas ao Registro Nacional de ELA e ao Observatório Nacional de ELA buscam reunir e analisar informações clínicas e epidemiológicas sobre a doença.

Contudo, essas ferramentas fazem parte de uma frente de saúde digital que pode ajudar pesquisadores a compreender melhor a distribuição dos casos, as necessidades dos pacientes e as lacunas no atendimento.

Uma publicação científica de pesquisadora ligada à iniciativa recebeu reconhecimento em evento nacional especializado em telessaúde e saúde digital em 2025.

Por que importa: sistemas de informação bem estruturados podem subsidiar pesquisas, planejamento de serviços e políticas públicas para pessoas que convivem com doenças raras ou pouco frequentes.

7. UFRN desenvolve dispositivo para triagem de osteoporose

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) — Rio Grande do Norte

Outra iniciativa da universidade é o Osseus, dispositivo desenvolvido para apoiar a triagem de osteoporose sem utilizar radiação ionizante.

A proposta busca identificar pessoas que precisam de exames complementares, como a densitometria óssea. Assim, o equipamento pode funcionar como ferramenta auxiliar na identificação de casos suspeitos, desde que respeite os limites de precisão e indicação clínica.

Com isso, o projeto recebeu reconhecimento em premiação nacional na área de telessaúde e saúde digital em 2025.

A osteoporose fragiliza os ossos e aumenta o risco de fraturas. Por isso, tecnologias de triagem podem ajudar a organizar o encaminhamento de pacientes para avaliação, especialmente quando os serviços de saúde enfrentam dificuldades para atender toda a demanda.

Por que importa: a pesquisa procura desenvolver uma alternativa tecnológica para apoiar a identificação de pessoas que necessitam de investigação clínica.

8. Laboratório da UFRN passa a integrar rede de inovação ligada a Harvard

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) — Rio Grande do Norte

O reconhecimento internacional também aparece na cooperação entre instituições. Em março de 2026, o Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS), da UFRN, anunciou sua entrada na rede de hubs de inovação da Escola de Saúde Pública de Harvard, nos Estados Unidos.

A iniciativa prevê trabalho em inteligência artificial aplicada aos sistemas de saúde, com foco em auditoria e economia da saúde.

Na prática, essa linha de pesquisa pode investigar como ferramentas digitais ajudam a identificar inconsistências, analisar custos e melhorar a gestão de recursos públicos.

Além disso, o laboratório também participou da organização, em Natal, de uma etapa do HSIL Hackathon 2026, iniciativa internacional que reuniu pesquisadores e equipes para desenvolver soluções para sistemas de saúde.

Por que importa: a participação em uma rede internacional amplia as oportunidades de colaboração, intercâmbio de conhecimento e desenvolvimento de projetos conjuntos. A parceria, por si só, não comprova a eficácia clínica de uma ferramenta específica.

Os catalisadores promovem a desoxigenação de óleos vegetais, transformando-os em biocombustíveisFoto: Cícero Oliveira – Agecom/UFRN
Os catalisadores promovem a desoxigenação de óleos vegetais, transformando-os em biocombustíveisFoto: Cícero Oliveira – Agecom/UFRN

9. UFPE pesquisa o custo-efetividade da ampliação do acesso ao DIU

Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) — Pernambuco

A contribuição científica das universidades não se limita ao desenvolvimento de equipamentos ou medicamentos. Pesquisas sobre organização dos serviços também podem ajudar a melhorar o atendimento à população.

Uma tese de doutorado de Juliana da Silva Nogueira Carvalho avaliou a custo-efetividade da ampliação da inserção de dispositivos intrauterinos (DIU) por enfermeiros capacitados em Pernambuco.

O estudo recebeu o primeiro lugar na categoria tese de doutorado do 17º Prêmio de Incentivo em Ciência, Tecnologia e Inovação para o SUS.

A investigação trata de uma questão prática: como ampliar o acesso ao planejamento reprodutivo e, ao mesmo tempo, avaliar os custos e os resultados de diferentes estratégias de atendimento.

Por que importa: estudos de custo-efetividade ajudam gestores a comparar alternativas e planejar políticas de saúde com base em evidências.

10. UFPB e UFBA integram projetos de saúde com cooperação internacional

Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Universidade Federal da Bahia (UFBA) — Paraíba e Bahia

A cooperação internacional também abre caminhos para universidades nordestinas. Em maio de 2026, a UFPB anunciou a aprovação de três projetos na área de Ciências da Saúde no programa BRICS-NU/Capes, com participação da UFBA em iniciativas conjuntas.

Os projetos envolvem temas como neurociência e comunicação, equidade em saúde, segurança alimentar e preparação dos sistemas de saúde para epidemias.

Uma das propostas, coordenada pela UFPB, conta com colaboração da United Arab Emirates University, dos Emirados Árabes Unidos. Outras iniciativas envolvem pesquisadores da UFBA e da UFPB.

Cada projeto aprovado poderá receber até R$ 1,88 milhão ao longo de quatro anos, com execução prevista a partir de 2027.

Portanto, nesse caso, o reconhecimento está na seleção para cooperação científica internacional e no apoio à pesquisa. Como a execução ainda está prevista para começar, não se deve apresentar os projetos como resultados clínicos já alcançados.

Por que importa: a colaboração entre universidades de diferentes países permite compartilhar conhecimento, desenvolver pesquisas conjuntas e formar pesquisadores em temas relevantes para a saúde pública.

entrada da UFPB em João Pessoa foto reprodução
entrada da UFPB em João Pessoa foto reprodução

O que esses dez exemplos revelam sobre as universidades federais do Nordeste?

Os casos mostram que a pesquisa universitária atua em diferentes frentes. Algumas equipes desenvolvem tecnologias com potencial de aplicação clínica; outras criam ferramentas digitais, investigam doenças ou avaliam políticas públicas.

A tabela resume os exemplos e o tipo de reconhecimento documentado:

Universidade ou ecossistemaPesquisa ou iniciativaReconhecimento ou conexão
UFCPele de tilápia para uso médicoPrêmio Euro Inovação na Saúde, 2020
UFCJogo de realidade virtual para prevenção de quedasPrêmio Capes de Tese, 2026
UFC e ecossistema de SobralBiomaterial para regeneração ósseaDestaque regional no Prêmio Finep, 2025
UFPE e parceirosEstudo sobre risco de recaída da leucemiaPublicação científica e reconhecimento em oncologia
UFPIIA para apoiar detecção de glaucomaPrêmio Destaque CNPq, 2026
UFRNRegistro e observatório de ELAReconhecimento científico nacional em saúde digital
UFRNDispositivo de triagem de osteoporoseReconhecimento científico nacional em saúde digital
UFRNIA aplicada à gestão da saúdeIntegração do LAIS à rede de hubs de Harvard
UFPEAvaliação econômica da ampliação do acesso ao DIUPrêmio de incentivo à ciência e inovação no SUS
UFPB e UFBAProjetos de pesquisa em saúdeSeleção no programa internacional BRICS-NU/Capes

Além disso, é importante observar que os reconhecimentos têm naturezas diferentes. Um prêmio, uma publicação científica, a seleção de um projeto e a participação em uma rede internacional não são equivalentes. Ainda assim, todos ajudam a mostrar a variedade de atividades acadêmicas desenvolvidas na região.

Universidades públicas: pesquisa, formação e contribuição social

Portanto, as universidades federais cumprem funções que se conectam: formam profissionais, produzem conhecimento, desenvolvem tecnologias e colaboram com serviços públicos e empresas.

Além disso, na área da saúde, essa atuação pode contribuir para a prevenção de doenças, a avaliação de tratamentos, a gestão do SUS e a formação de especialistas.

Afinal, os dez exemplos também mostram que a ciência nordestina não se limita a uma única área ou instituição. Ceará, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Bahia aparecem em pesquisas que abordam problemas concretos e estabelecem diferentes formas de reconhecimento acadêmico.

Por isso, avaliar uma universidade exige observar seus resultados, sua produção científica, a formação que oferece e a contribuição de suas pesquisas para a sociedade. Os casos apresentados não representam toda a produção científica regional, mas oferecem exemplos verificáveis do trabalho realizado nas instituições federais do Nordeste.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.