Há quem olhe para o mapa do Brasil e enxergue fronteiras. Outros enxergam culpados.
De tempos em tempos, alguém resolve explicar o país dividindo-o em blocos, como se existissem brasileiros de primeira classe e brasileiros que atrapalham o desenvolvimento nacional. Desta vez, o alvo foi o Nordeste.
É curioso como certas frases envelhecem no instante em que são pronunciadas.
Dizer que “os políticos do Nordeste são inimigos do Brasil” pode soar forte em um palanque. Mas basta percorrer alguns quilômetros para perceber que a realidade é bem mais complexa do que um slogan. A afirmação de do pré-candidato à Presidência Renan Santos só soa como o preconceito recorrente que muita pessoas têm na região.
O Nordeste nunca foi um grande destinatário de recursos públicos. Sempre foi fornecedor de gente, de cultura, de trabalho e de riqueza para o Brasil. Contudo, existem disparidades gigantes quando o assunto são investimentos públicos federais na região.
Foi dali que partiram milhões de trabalhadores que ajudaram a construir Brasília, ergueram avenidas em São Paulo, ocuparam fábricas no Sudeste e participaram da expansão agrícola do Centro-Oeste. Quando o país precisou de braços, eles vieram do Nordeste. Quando precisou de inteligência, vieram pesquisadores, professores, médicos, artistas e empreendedores.
Curiosamente, ninguém os chamou de parasitas quando ajudaram a construir o Brasil.
A história mostra o poder dos nordestinos
O problema de transformar uma região inteira em culpada é que a história insiste em atrapalhar esse discurso. Se existem maus políticos no Nordeste, também existem no Sul, no Sudeste, no Centro-Oeste e no Norte. A corrupção nunca pediu CEP para acontecer.
Reduzir milhões de brasileiros às ações de parte de sua classe política é um atalho perigoso. Afinal, o eleitor nordestino não é diferente do eleitor de qualquer outro lugar: também deseja segurança, emprego, educação, saúde e oportunidades.









O Nordeste também produz riqueza
Produz energia eólica e solar que abastecem o país. Exporta frutas, algodão, minério e produtos industrializados. Desenvolve polos tecnológicos, universidades reconhecidas, centros de pesquisa e um turismo que movimenta bilhões de reais todos os anos.
Mas talvez sua maior contribuição seja outra.
O Nordeste produziu parte da identidade cultural brasileira.
É impossível imaginar o Brasil sem o baião, o forró, o frevo, o maracatu, o cordel, o repente, a literatura de Ariano Suassuna, os versos de João Cabral, a música de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Elba Ramalho, Alceu Valença, Zé Ramalho, Chico César e tantos outros. Isso sem falar nos baianos Gil e Caetano, Jorge Amado, Bethania, Gal e tantos outros.
Não existe um Brasil sem Nordeste.
Assim como não existe um Brasil sem Amazônia, sem Pampas, sem Pantanal ou sem a Serra do Mar.
O verdadeiro inimigo de um país continental talvez não seja uma região.
Talvez seja a insistência em acreditar que o Brasil cabe dentro de um preconceito.
É legítimo criticar governos, partidos, lideranças e políticas públicas. Isso faz parte da democracia. O que empobrece o debate é substituir argumentos por generalizações que transformam milhões de pessoas em caricaturas.
Antes de mais nada, o Brasil não cresce quando uma região aponta o dedo para outra.
Cresce quando entende que suas diferenças são justamente o que o torna único.
Porque o mapa do Brasil não foi desenhado para separar vencedores e vencidos.
Em suma, foi desenhado para lembrar que, apesar das distâncias, todos fazem parte da mesma história.
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