Estudo foi destaque na edição de agosto da ACS Biomaterials Science & Engineering e analisou 1.791 trabalhos científicos sobre o aproveitamento da fibroína da seda
Uma pesquisa com participação de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) ganhou destaque internacional ao ser escolhida para a capa da edição de agosto da revista ACS Biomaterials Science & Engineering, da American Chemical Society.
O estudo mostra como casulos do bicho-da-seda podem deixar de ser apenas resíduos da cadeia produtiva e se transformar em matéria-prima para nanomateriais com aplicações em saúde, tecnologia e indústria. A própria revista destaca que o aproveitamento da fibroína pode contribuir para estratégias de economia circular e reduzir impactos ambientais.
Pesquisa analisou quase 1,8 mil estudos
O trabalho realizou uma revisão bibliométrica e sistemática de 1.791 publicações científicas produzidas entre 2001 e 2025.
Os pesquisadores analisaram especialmente a fibroína da seda, uma proteína biodegradável encontrada no casulo do Bombyx mori, espécie conhecida como bicho-da-seda.
A revisão identificou aplicações em áreas como liberação de medicamentos, engenharia de tecidos, eletrônica flexível e construção sustentável. Entre os materiais que podem ser produzidos estão nanopartículas, aerogéis e hidrogéis.
O que a pesquisa encontrou
| Área | Possível aplicação da fibroína |
|---|---|
| Saúde | Liberação controlada de medicamentos |
| Engenharia de tecidos | Desenvolvimento de biomateriais |
| Nanotecnologia | Nanopartículas e outros nanomateriais |
| Eletrônica | Dispositivos e componentes flexíveis |
| Construção | Materiais sustentáveis |
| Economia circular | Aproveitamento de resíduos da indústria da seda |
O levantamento aponta ainda que 60,59% das aplicações analisadas estão relacionadas à liberação de medicamentos, enquanto 18,53% aparecem associadas à engenharia de tecidos.
Material pode ser transformado em produtos de alto valor
A fibroína chama atenção porque combina características como biodegradabilidade, resistência mecânica e possibilidade de processamento em diferentes estruturas.
Na prática, resíduos ou materiais subutilizados da produção de seda podem ser transformados em estruturas nanométricas com propriedades específicas.
A pesquisa também relaciona esse aproveitamento aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, principalmente nas áreas de saúde, inovação, produção responsável e combate às mudanças climáticas.
UFRN amplia pesquisas com materiais sustentáveis
O trabalho faz parte de uma trajetória de pesquisas desenvolvidas na UFRN envolvendo fibroína da seda e nanotecnologia.
Estudos ligados à universidade já investigaram, por exemplo, a produção de nanopartículas de fibroína para aplicações biomédicas. Em uma dessas pesquisas, as partículas apresentaram características de biodegradabilidade e biocompatibilidade que indicaram potencial para utilização como biomaterial.
A universidade também mantém pesquisas relacionadas a materiais têxteis funcionais e nanotecnologia.
Do resíduo ao material tecnológico
A pesquisa sobre a seda segue uma lógica que ganha espaço na ciência e na indústria: transformar resíduos ou matérias-primas subutilizadas em produtos de maior valor agregado.
Essa mesma linha de pesquisa aparece em outro trabalho recente desenvolvido na UFRN com resíduos do polo de confecções de Caruaru e Toritama, no Agreste de Pernambuco.
Nesse caso, pesquisadores transformaram efluentes de lavanderias de jeans em pontos quânticos de carbono, utilizados para produzir nanopigmentos fluorescentes. Os materiais apresentaram, nos testes, propriedades antimicrobianas e proteção ultravioleta, com potencial para aplicação em roupas esportivas, embalagens, tintas e dispositivos eletrônicos.
A tecnologia foi protegida por patente e os primeiros protótipos já foram aplicados em tecidos, embora ainda esteja em fase laboratorial e dependa de novos testes antes de uma eventual produção em escala.


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Ciência nordestina com impacto internacional
A escolha do estudo sobre a fibroína para a capa da ACS Biomaterials Science & Engineering coloca uma pesquisa com participação da UFRN em evidência em uma publicação internacional especializada.
O trabalho mostra como materiais de origem natural podem ganhar novas funções por meio da nanotecnologia e reforça uma tendência de pesquisa que aproxima ciência, sustentabilidade, indústria e economia circular.
No caso da seda, um material tradicional da indústria têxtil passa a ser estudado também como possível matéria-prima para novas tecnologias biomédicas, eletrônicas e industriais.


