Imagine a cena: o Esporte Clube Bahia, já campeão brasileiro em 1959 (Taça Brasil) e pentacampeão baiano entre 1958 e 1962, entra em campo com Mané Garrincha e Pelé vestindo a camisa tricolor. Agora, vá além: e se, poucos anos depois, Pelé também desembarcasse em Salvador para jogar na Fonte Nova?
Parece ficção? Pois essas duas histórias reais fizeram parte da trajetória do Bahia nas décadas de 1960 e 1970. Uma foi uma tentativa frustrada de contratação; a outra, uma brincadeira que por algumas horas iludiu a torcida. Ambas, porém, mostram o tamanho da audácia e da grandeza do Esquadrão de Aço naquela época.
1963: O ano em que o Bahia quis Garrincha
A princípio, a história começa em 1962. A Seleção Brasileira acaba de conquistar o bicampeonato mundial no Chile, e o grande protagonista daquela Copa é Mané Garrincha. Pelé, lesionado ainda na fase de grupos, assiste do banco. Garrincha assume o protagonismo e sai do Chile como o melhor jogador do mundo.
No ano seguinte, 1963, o Bahia vivia seu período mais áureo. O clube já havia conquistado a Taça Brasil de 1959 — o equivalente ao Campeonato Brasileiro da época — vencendo o Santos de Pelé na final. Além disso, acumulava cinco títulos baianos consecutivos (1958 a 1962).
Foi nesse contexto de potência nacional que o Bahia resolveu ousar. De acordo com registros da época, o clube enviou uma proposta ao Botafogo para contratar Garrincha por empréstimo de 90 dias.
| Detalhes da tentativa | Informações |
|---|---|
| Ano | 1963 |
| Alvo | Mané Garrincha (Botafogo) |
| Formato | Empréstimo de 90 dias |
| Contexto do Bahia | Campeão da Taça Brasil (1959) e penta-baiano (1958-62) |
| Desfecho | Negociação não avançou; Garrincha permaneceu no Botafogo |
A proposta, no entanto, não avançou. Garrincha nunca vestiu a camisa tricolor, mas o episódio ficou marcado como um dos maiores “e se” da história do futebol nordestino.
Curiosamente, em 1963, o próprio Bahia eliminou o Botafogo (time de Garrincha) na semifinal da Taça Brasil, antes de perder a final para o Santos. Ou seja: o Esquadrão esteve perto de enfrentar e, quem sabe, ter o craque como aliado.
1971: A brincadeira que quase trouxe Pelé ao Bahia
Se a tentativa de contratar Garrincha foi séria, a história envolvendo Pelé teve um tom bem diferente — mas nem por isso menos marcante.
Em 1971, meses após a Seleção Brasileira conquistar o tricampeonato mundial no México, o presidente do Bahia, Alfredo Saad, deu uma declaração bombástica durante o programa de rádio “Resenha do Meio-Dia”, apresentado por França Teixeira, líder de audiência em Salvador na época.
“Pelé, o maior jogador do mundo, reforçará o Tricolor nesta temporada” – Alfredo Saad, presidente do Bahia.
Ao mesmo tempo, a notícia caiu como uma bomba na torcida. O entusiasmo aumentou ainda mais quando o próprio Pelé participou ao vivo da transmissão para confirmar o suposto acordo. O presidente do Santos, Athiê Jorge Coury, também entrou por telefone para falar sobre a negociação.
A torcida tricolor foi à loucura. Por algumas horas, acreditou-se que o Rei do Futebol vestiria a camisa do Esquadrão.
| Detalhes da “negociação” | Informações |
|---|---|
| Ano | 1971 |
| Alvo | Pelé (Santos) |
| Contexto | Brasil tricampeão mundial (1970) |
| Quem anunciou | Presidente Alfredo Saad, em rádio ao vivo |
| Participação de Pelé | Confirmou o acordo por telefone durante a transmissão |
| Desfecho | Tudo não passou de uma brincadeira entre amigos |
A verdade, no entanto, era bem mais simples — e divertida. Alfredo Saad era sócio de Pelé em empreendimentos fora do futebol e mantinha uma relação próxima com o craque. França Teixeira, o apresentador, também fazia parte do círculo de amizade. Os três costumavam se encontrar em uma casa de veraneio em Ilhéus, no litoral sul da Bahia.
Foi desse ambiente de amizade que nasceu a ideia da encenação. A brincadeira durou poucas horas, mas entrou para a história do clube.
Décadas depois, em 2012, Pelé relembrou o episódio em entrevista ao portal iBahia:
“Foi uma brincadeira que nós fizemos, porque eu estava sempre na Bahia nessa época. Eu tinha um sócio que também foi presidente do Bahia, o Sr. Alfredo Saad, que já faleceu, e até hoje a sua esposa, Margarida, é minha grande amiga e mora na Bahia. Eu amo a Bahia e tenho muitos amigos baianos e mil histórias como esta para contar” – Pelé, em 2012.
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E se tivesse dado certo?
Assim, a pergunta fica no ar: e se Garrincha tivesse aceitado jogar no Bahia em 1963? O Esquadrão já havia vencido o Santos de Pelé em 1959. Com Garrincha no time, será que o Bahia teria construído uma dinastia nacional? E se Pelé realmente viesse em 1971, ainda em alto nível?
Em suma, são exercícios de imaginação que alimentam o folclore do futebol brasileiro. O que não é imaginação é o fato de que o Bahia teve a audácia — e a grandeza — para tentar.



