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Por que os forrozeiros estão perdendo espaço no São João?

O São João no Nordeste sempre foi sinônimo de sanfona, zabumba e triângulo. Mas, nos últimos anos, a trilha sonora das festas juninas tem mudado — e a substituição tem gerado revolta entre os artistas ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
10 de junho de 2026 - às 14:12
Atualizado 10 de junho de 2026 - às 14:12
8 min de leitura

O São João no Nordeste sempre foi sinônimo de sanfona, zabumba e triângulo. Mas, nos últimos anos, a trilha sonora das festas juninas tem mudado — e a substituição tem gerado revolta entre os artistas do forró, gênero que nasceu e se desenvolveu na região.

Enquanto nomes como Flávio José, Alcimar Monteiro Santanna amargam a falta de convites ou ficam em horários secundários, prefeituras de municípios pequenos e pobres do interior nordestino estão desembolsando cachês milionários para atrações do sertanejo universitário. E esses artistas são oriundos, em sua maioria, do Centro-Oeste e Sudeste do país.

A jornalista Daniela Lima destacou o assunto durante programa do UOL. Em suma, ela acendeu um alerta não apenas sobre o apagamento cultural, mas também sobre possíveis irregularidades no uso do dinheiro público.

Festa na cidade pequena, cachê de artista global

Antes de mais nada, o fenômeno não é isolado. Em cidades com menos de 50 mil habitantes e orçamentos apertados, contratações de artistas sertanejos com cachês que ultrapassam R$ 500mil. E podem chegar até a R$ 1 milhão têm se tornado recorrentes durante o período junino.

A origem dos recursos, segundo a jornalista, muitas vezes está em emendas parlamentares — verbas federais destinadas por deputados e senadores a municípios para eventos, infraestrutura ou turismo. O problema é que, na prática, não há um controle eficaz sobre a aplicação desses valores.

A revolta dos forrozeiros

cantor com sanfona
Flávio Jose foto divulgação

Nos últimos dias, artistas do forró têm usado as redes sociais para expor a situação. Flávio José, um dos maiores nomes da história do gênero, gravou vídeos desabafando sobre a falta de convites e a preterição de artistas nordestinos em festas realizadas justamente no berço cultural do forró.

“A gente fica se perguntando: cadê o nosso São João? Cadê o espaço para a sanfona, para a zabumba? Não é contra o sertanejo, mas é a favor da nossa cultura. O Nordeste está perdendo sua identidade nas festas juninas” – Flávio José, cantor e sanfoneiro.

Outros nomes do gênero têm relatado situações semelhantes: propostas para tocar em horários alternativos (início da noite ou madrugada), enquanto os cachês milionários ficam concentrados nos headliners sertanejos.

O São João no Nordeste sempre foi sinônimo de sanfona, zabumba e triângulo. Mas, nos últimos anos, a trilha sonora das festas juninas tem mudado — e a substituição tem gerado revolta entre os artistas do forró, gênero que nasceu e se desenvolveu na região.

Enquanto nomes consagrados como Flávio JoséElba Ramalho e Santanna amargam sem convites ou são escalados para horários secundários, prefeituras de municípios pequenos e pobres do interior nordestino estão desembolsando cachês milionários para atrações do sertanejo universitário — artistas oriundos, em sua maioria, do Centro-Oeste e Sudeste do país.

A denúncia foi levantada pela jornalista Daniela Lima durante programa do UOL, e acendeu um alerta não apenas sobre o apagamento cultural, mas também sobre possíveis irregularidades no uso do dinheiro público.

Festa na cidade pequena, cachê de artista global

O fenômeno não é isolado. Em cidades com menos de 50 mil habitantes e orçamentos apertados, contratações de artistas sertanejos com cachês que ultrapassam 1 milhão têm se tornado recorrentes durante o período junino.

A origem dos recursos, segundo a jornalista, muitas vezes está em emendas parlamentares — verbas federais destinadas por deputados e senadores a municípios para eventos, infraestrutura ou turismo. O problema é que, na prática, não há um controle eficaz sobre como esses valores são aplicados.

“Faltam mecanismos de fiscalização. Isso abre margem para suspeitas de desvio de dinheiro público e até lavagem de dinheiro, com parte dos cachês podendo retornar a agentes públicos por esquemas ilícitos” – Daniela Lima, jornalista.

O que dizem os números

Embora não haja um levantamento nacional consolidado, a percepção de agentes culturais e produtores nordestinos é unânime:

IndicadorCenário atual
Cachê médio de artista sertanejoR$ 500 mil até R$ 1,5 milhão (por apresentação)
Cachê médio de forrozeiro tradicionalR$ 50 mil até R$ 200 mil (por apresentação)
Municípios que preferem sertanejo no São JoãoEm crescimento exponencial desde 2020
Artistas forrozeiros com redução de convitesMais de 70% (segundo sindicatos da categoria)

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O modelo de negócio e os riscos

Daniela Lima aponta que o modelo atual cria um ambiente fértil para irregularidades. Como os valores são altos e a fiscalização é frágil, parte do dinheiro pago aos artistas pode retornar a agentes públicos por meio de contratos paralelos, superfaturamento ou caixa dois.

“Quando você vê uma prefeitura pequena, com dificuldades em áreas como saúde e educação, pagando R$ 800 mil para um cantor sertanejo em uma festa de três dias, é natural que a população levante suspeitas. De onde veio esse dinheiro? Por que não contratar artistas locais, que custam muito menos e valorizam a cultura regional?” – questiona a jornalista.

O que está em jogo

Além do possível desvio de recursos públicos, especialistas em cultura apontam um dano igualmente grave: o esvaziamento da identidade cultural nordestina.

O forró é patrimônio imaterial do Brasil, reconhecido pelo IPHAN. Suas raízes estão fincadas no solo nordestino, e as festas juninas sempre foram seu principal palco. A substituição por um gênero comercial, padronizado e vindo de outras regiões representa, para muitos, uma forma de colonização cultural.

“O São João sempre foi a grande vitrine do forró. Se o forró perde espaço no São João, ele perde sua principal plataforma de renovação e perpetuação. Isso coloca em risco não apenas os artistas, mas todo um ecossistema cultural: sanfoneiros, zabumbeiros, triângulos, dançarinos, aderecistas” – Daniela Lima.

O que dizem as prefeituras e os artistas sertanejos

Procuradas por veículos de imprensa, diversas prefeituras alegam que a contratação de artistas sertanejos atende a uma demanda popular e que os cachês são compatíveis com o mercado. Algumas citam pesquisas internas ou a necessidade de atrair turistas de outras regiões.

Os artistas sertanejos, por sua vez, raramente se manifestam sobre o assunto. Quando questionados, a maioria afirma que apenas aceita convites e não interfere nas escolhas das prefeituras.

Possíveis soluções

Entidades culturais e artistas forrozeiros têm proposto medidas para reverter o quadro:

  1. Transparência na aplicação de emendas parlamentares, com prestação de contas detalhada sobre contratações artísticas;
  2. Criação de cotas regionais para festas financiadas com dinheiro público, garantindo percentual mínimo de artistas nordestinos;
  3. Fiscalização do TCU e CGU sobre contratos milionários firmados por pequenas prefeituras;
  4. Valorização dos festivais de forró e incentivo a novos talentos do gênero.

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O futuro do São João

Enquanto isso, o São João de 2026 segue com sua programação já definida. Em muitas cidades, os forrozeiros continuam de fora. Flávio José e outros nomes históricos do gênero seguem usando as redes para manter viva a chama da resistência.

“A gente não vai desistir. O forró é maior do que qualquer moda passageira. A sanfona vai continuar gemendo, e o Nordeste vai continuar sendo Nordeste. Pode demorar, mas a cultura da gente volta a ocupar o lugar que nunca deveria ter perdido” – concluiu Flávio José em um de seus vídeos.

A pergunta que fica é: até quando o dinheiro público continuará financiando o apagamento da própria cultura que se pretende celebrar?

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.