O São João no Nordeste sempre foi sinônimo de sanfona, zabumba e triângulo. Mas, nos últimos anos, a trilha sonora das festas juninas tem mudado — e a substituição tem gerado revolta entre os artistas do forró, gênero que nasceu e se desenvolveu na região.
Enquanto nomes como Flávio José, Alcimar Monteiro e Santanna amargam a falta de convites ou ficam em horários secundários, prefeituras de municípios pequenos e pobres do interior nordestino estão desembolsando cachês milionários para atrações do sertanejo universitário. E esses artistas são oriundos, em sua maioria, do Centro-Oeste e Sudeste do país.
A jornalista Daniela Lima destacou o assunto durante programa do UOL. Em suma, ela acendeu um alerta não apenas sobre o apagamento cultural, mas também sobre possíveis irregularidades no uso do dinheiro público.
Festa na cidade pequena, cachê de artista global
Antes de mais nada, o fenômeno não é isolado. Em cidades com menos de 50 mil habitantes e orçamentos apertados, contratações de artistas sertanejos com cachês que ultrapassam R$ 500mil. E podem chegar até a R$ 1 milhão têm se tornado recorrentes durante o período junino.
A origem dos recursos, segundo a jornalista, muitas vezes está em emendas parlamentares — verbas federais destinadas por deputados e senadores a municípios para eventos, infraestrutura ou turismo. O problema é que, na prática, não há um controle eficaz sobre a aplicação desses valores.
A revolta dos forrozeiros

Nos últimos dias, artistas do forró têm usado as redes sociais para expor a situação. Flávio José, um dos maiores nomes da história do gênero, gravou vídeos desabafando sobre a falta de convites e a preterição de artistas nordestinos em festas realizadas justamente no berço cultural do forró.
“A gente fica se perguntando: cadê o nosso São João? Cadê o espaço para a sanfona, para a zabumba? Não é contra o sertanejo, mas é a favor da nossa cultura. O Nordeste está perdendo sua identidade nas festas juninas” – Flávio José, cantor e sanfoneiro.
Outros nomes do gênero têm relatado situações semelhantes: propostas para tocar em horários alternativos (início da noite ou madrugada), enquanto os cachês milionários ficam concentrados nos headliners sertanejos.
O São João no Nordeste sempre foi sinônimo de sanfona, zabumba e triângulo. Mas, nos últimos anos, a trilha sonora das festas juninas tem mudado — e a substituição tem gerado revolta entre os artistas do forró, gênero que nasceu e se desenvolveu na região.
Enquanto nomes consagrados como Flávio José, Elba Ramalho e Santanna amargam sem convites ou são escalados para horários secundários, prefeituras de municípios pequenos e pobres do interior nordestino estão desembolsando cachês milionários para atrações do sertanejo universitário — artistas oriundos, em sua maioria, do Centro-Oeste e Sudeste do país.
A denúncia foi levantada pela jornalista Daniela Lima durante programa do UOL, e acendeu um alerta não apenas sobre o apagamento cultural, mas também sobre possíveis irregularidades no uso do dinheiro público.
Festa na cidade pequena, cachê de artista global
O fenômeno não é isolado. Em cidades com menos de 50 mil habitantes e orçamentos apertados, contratações de artistas sertanejos com cachês que ultrapassam 1 milhão têm se tornado recorrentes durante o período junino.
A origem dos recursos, segundo a jornalista, muitas vezes está em emendas parlamentares — verbas federais destinadas por deputados e senadores a municípios para eventos, infraestrutura ou turismo. O problema é que, na prática, não há um controle eficaz sobre como esses valores são aplicados.
“Faltam mecanismos de fiscalização. Isso abre margem para suspeitas de desvio de dinheiro público e até lavagem de dinheiro, com parte dos cachês podendo retornar a agentes públicos por esquemas ilícitos” – Daniela Lima, jornalista.
🚨DANIELA LIMA: Sertanejo engole o forró nas festas juninas do Nordeste com dinheiro público e sem fiscalização
— Pesquisas Eleições (@EleicaoBr2026) June 10, 2026
Prefeituras de municípios pequenos e pobres estão pagando cachês milionários a artistas do sertanejo nas festas juninas usando emendas parlamentares sem controle… pic.twitter.com/ZdK94KFHoj
O que dizem os números
Embora não haja um levantamento nacional consolidado, a percepção de agentes culturais e produtores nordestinos é unânime:
| Indicador | Cenário atual |
|---|---|
| Cachê médio de artista sertanejo | R$ 500 mil até R$ 1,5 milhão (por apresentação) |
| Cachê médio de forrozeiro tradicional | R$ 50 mil até R$ 200 mil (por apresentação) |
| Municípios que preferem sertanejo no São João | Em crescimento exponencial desde 2020 |
| Artistas forrozeiros com redução de convites | Mais de 70% (segundo sindicatos da categoria) |
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O modelo de negócio e os riscos
Daniela Lima aponta que o modelo atual cria um ambiente fértil para irregularidades. Como os valores são altos e a fiscalização é frágil, parte do dinheiro pago aos artistas pode retornar a agentes públicos por meio de contratos paralelos, superfaturamento ou caixa dois.
“Quando você vê uma prefeitura pequena, com dificuldades em áreas como saúde e educação, pagando R$ 800 mil para um cantor sertanejo em uma festa de três dias, é natural que a população levante suspeitas. De onde veio esse dinheiro? Por que não contratar artistas locais, que custam muito menos e valorizam a cultura regional?” – questiona a jornalista.
O que está em jogo
Além do possível desvio de recursos públicos, especialistas em cultura apontam um dano igualmente grave: o esvaziamento da identidade cultural nordestina.
O forró é patrimônio imaterial do Brasil, reconhecido pelo IPHAN. Suas raízes estão fincadas no solo nordestino, e as festas juninas sempre foram seu principal palco. A substituição por um gênero comercial, padronizado e vindo de outras regiões representa, para muitos, uma forma de colonização cultural.
“O São João sempre foi a grande vitrine do forró. Se o forró perde espaço no São João, ele perde sua principal plataforma de renovação e perpetuação. Isso coloca em risco não apenas os artistas, mas todo um ecossistema cultural: sanfoneiros, zabumbeiros, triângulos, dançarinos, aderecistas” – Daniela Lima.
O que dizem as prefeituras e os artistas sertanejos
Procuradas por veículos de imprensa, diversas prefeituras alegam que a contratação de artistas sertanejos atende a uma demanda popular e que os cachês são compatíveis com o mercado. Algumas citam pesquisas internas ou a necessidade de atrair turistas de outras regiões.
Os artistas sertanejos, por sua vez, raramente se manifestam sobre o assunto. Quando questionados, a maioria afirma que apenas aceita convites e não interfere nas escolhas das prefeituras.
Possíveis soluções
Entidades culturais e artistas forrozeiros têm proposto medidas para reverter o quadro:
- Transparência na aplicação de emendas parlamentares, com prestação de contas detalhada sobre contratações artísticas;
- Criação de cotas regionais para festas financiadas com dinheiro público, garantindo percentual mínimo de artistas nordestinos;
- Fiscalização do TCU e CGU sobre contratos milionários firmados por pequenas prefeituras;
- Valorização dos festivais de forró e incentivo a novos talentos do gênero.
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O futuro do São João
Enquanto isso, o São João de 2026 segue com sua programação já definida. Em muitas cidades, os forrozeiros continuam de fora. Flávio José e outros nomes históricos do gênero seguem usando as redes para manter viva a chama da resistência.
“A gente não vai desistir. O forró é maior do que qualquer moda passageira. A sanfona vai continuar gemendo, e o Nordeste vai continuar sendo Nordeste. Pode demorar, mas a cultura da gente volta a ocupar o lugar que nunca deveria ter perdido” – concluiu Flávio José em um de seus vídeos.
A pergunta que fica é: até quando o dinheiro público continuará financiando o apagamento da própria cultura que se pretende celebrar?



