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Dia Nacional do Teatro: 3 peças que levaram o Nordeste para os palcos

No Dia Nacional do Teatro, conheça 3 peças que levaram histórias e personagens do Nordeste para palcos do Brasil e do mundo.
Eliseu Lins, da Agência NE9
19 de setembro de 2026 - às 12:30
Atualizado 19 de setembro de 2026 - às 12:30
8 min de leitura

O teatro brasileiro também tem sotaque nordestino. No Dia Nacional do Teatro, celebrado neste sábado (19), o NE9 lembra três peças que ajudaram a levar personagens, histórias, conflitos e características da cultura nordestina para palcos de diferentes partes do país.

As três obras têm algo em comum: foram escritas por autores ligados ao Nordeste e transformaram elementos da região em matéria-prima para o teatro brasileiro.

A princípio, O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e O Santo e a Porca, também de Suassuna, atravessaram gerações e continuam recebendo novas montagens.

Sendo assim, a data de 19 de setembro é dedicada ao teatro no calendário cultural brasileiro. O mesmo dia também marca oficialmente o Dia Nacional do Teatro Acessível, instituído pela Lei nº 13.442/2017.

1. O Auto da Compadecida — Ariano Suassuna

Peça o Alto da Compadecida Foto José Hidalgo

Poucas obras representam tanto a cultura popular nordestina nos palcos brasileiros quanto O Auto da Compadecida.

Escrita em 1955 pelo paraibano Ariano Suassuna, a peça combina elementos da literatura de cordel, dos autos populares, da religiosidade e do humor para contar as aventuras de João Grilo e Chicó, dois personagens que enfrentam a pobreza utilizando inteligência, esperteza e humor.

A história se passa em Taperoá, no sertão da Paraíba, e coloca no mesmo universo personagens como cangaceiros, comerciantes, religiosos, autoridades, João Grilo, Chicó, o Diabo e a Compadecida.

A primeira montagem ocorreu no Recife, em 1956, pelo Teatro Adolescente do Recife, no Teatro de Santa Isabel. A estreia, entretanto, não teve grande público. Contudo, a trajetória da obra mudaria posteriormente: a peça conquistou reconhecimento, recebeu a Medalha de Ouro da Associação Brasileira de Críticos Teatrais e passou a ser encenada em diferentes países.

A Funarte destaca que a obra projetou Ariano Suassuna nacionalmente e reúne elementos da literatura de cordel, da comédia e da tradição religiosa popular brasileira.

Veja a peça:

Por que a peça fez tanto sucesso?

Um dos diferenciais está justamente na mistura.

Suassuna transformou referências populares nordestinas em uma dramaturgia capaz de dialogar com públicos de diferentes regiões. João Grilo e Chicó, por exemplo, representam um tipo de personagem que utiliza o humor e a astúcia para enfrentar situações de pobreza e poder.

Dessa maneira, o sucesso ultrapassou o teatro. A obra ganhou adaptações para o cinema e para a televisão e continua recebendo novas montagens.

Em 2026, inclusive, O Auto da Compadecida continua aparecendo na programação teatral brasileira, mostrando a permanência da obra décadas depois de sua criação.

2. Morte e Vida Severina — João Cabral de Melo Neto

Se O Auto da Compadecida levou o humor e a cultura popular nordestina para o palco, Morte e Vida Severina fez o caminho pelo drama social.

Escrito pelo pernambucano João Cabral de Melo Neto, o poema dramático acompanha Severino, um retirante que deixa o sertão em direção ao litoral em busca de uma vida melhor.

Durante a viagem, ele atravessa diferentes paisagens e encontra pobreza, fome, morte e desigualdade.

O caminho passa pelo sertão, Agreste e Zona da Mata até chegar ao Recife.

A obra foi publicada em 1955 e ganhou sua primeira montagem teatral no final daquela década. Em 1965, porém, uma montagem do Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA) transformou a obra em um grande sucesso.

A apresentação de estreia reuniu mais de mil pessoas e, ao longo de 32 espetáculos, o grupo chegou a 17,5 mil espectadores. A montagem também participou de um festival internacional de teatro universitário em Nancy, na França.

Assistaa peça:

Chico Buarque ajudou a transformar a peça

Outro elemento fundamental para a popularização da montagem foi a música.

Chico Buarque musicou o poema, criando uma trilha que passou a fazer parte da identidade da obra nos palcos.

A combinação entre poesia, teatro e música ajudou a transformar a trajetória de Severino em uma das obras mais conhecidas da dramaturgia brasileira.

A Biblioteca Pública do Paraná registra que a montagem do TUCA foi muito bem recebida pela crítica e teve apresentações em cidades brasileiras e na Europa, onde recebeu o Grande Prêmio do Festival Mundial de Teatro Universitário.

E a história continua sendo remontada.

A Companhia Ensaio Aberto, por exemplo, apresenta uma montagem da obra desde 2000, com temporadas no Brasil e no exterior. A produção recebeu indicações e prêmios em diferentes edições de premiações teatrais.

3. O Santo e a Porca — Ariano Suassuna

A terceira obra volta ao universo de Ariano Suassuna, mas com uma história diferente.

Escrita em 1957, O Santo e a Porca é uma comédia ambientada no universo nordestino e centrada na relação entre fé, dinheiro, avareza e relações familiares.

O protagonista é Euricão Árabe, um homem obcecado por dinheiro que guarda suas economias dentro de uma porca de madeira.

A peça utiliza o humor para trabalhar um tema universal: o apego ao dinheiro.

Ao mesmo tempo, Suassuna adapta para o universo nordestino elementos da comédia clássica Aulularia, de Plauto. Por isso, a obra consegue unir uma referência da dramaturgia antiga com personagens, linguagem e situações reconhecíveis na cultura nordestina.

Uma peça que atravessou gerações

A primeira montagem profissional ocorreu em 1958, com direção de Ziembinski e nomes importantes do teatro brasileiro no elenco, como Cacilda Becker, Cleide Yáconis e Walmor Chagas.

Décadas depois, a obra continuou encontrando público.

Uma montagem realizada em 1991, por exemplo, permaneceu dois anos em cartaz e circulou por escolas públicas de São Paulo dentro do programa Escola Aberta.

A peça continua atual. Em agosto de 2026, uma nova montagem de O Santo e a Porca estreou em São Paulo e permaneceu em temporada gratuita até setembro, mostrando que o texto continua sendo revisitado por novas companhias.

Assista a peça:

Três peças, três maneiras de mostrar o Nordeste

As três obras apresentam o Nordeste de maneiras diferentes.

PeçaAutorEstado ligado ao autorPrincipal característica
O Auto da CompadecidaAriano SuassunaParaíbaHumor, cordel, religiosidade e cultura popular
Morte e Vida SeverinaJoão Cabral de Melo NetoPernambucoRetirante, seca, pobreza e desigualdade
O Santo e a PorcaAriano SuassunaParaíbaComédia, avareza, fé e relações familiares

O resultado é uma representação do Nordeste que vai muito além de uma única imagem.

Há o sertão e a seca, mas também existe o humor, a religiosidade, a música, a literatura popular, a crítica social e a capacidade de transformar situações difíceis em histórias capazes de chegar a diferentes públicos.

O Nordeste que chegou aos palcos do mundo

O mais interessante nessas três obras é que nenhuma delas ficou restrita ao lugar onde foi criada.

O Auto da Compadecida passou do teatro para o cinema e a televisão e ganhou traduções e montagens em outros países.

Morte e Vida Severina saiu do Recife e dos palcos brasileiros para apresentações internacionais, incluindo o Festival Mundial de Teatro Universitário de Nancy.

Entretanto, Já O Santo e a Porca continua sendo remontada décadas depois de sua estreia, inclusive em grandes centros culturais fora do Nordeste.

Isso ajuda a explicar a força da dramaturgia nordestina: as histórias nascem de um território específico, mas conseguem tratar de temas que qualquer público reconhece.

Teatro também é memória do Nordeste

No Dia Nacional do Teatro, essas três obras mostram como o palco pode funcionar como espaço de memória e representação.

Portanto, João Grilo e Chicó, Severino e Euricão não são apenas personagens de peças antigas. Eles continuam sendo revisitados porque carregam questões que permanecem presentes: pobreza, desigualdade, fé, dinheiro, sobrevivência, esperteza, relações familiares e identidade.

Assim, mais de meio século depois de suas primeiras montagens, as histórias continuam encontrando novos atores, diretores e espectadores.

Afinal, talvez esteja aí uma das maiores forças do teatro: uma história escrita em determinado momento pode voltar ao palco décadas depois e ainda encontrar algo para dizer ao público.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.