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Jumento do Nordeste: símbolo vira foco de mobilização para evitar extinção

O jumento, animal símbolo do Nordeste brasileiro, volta a ganhar atenção nacional em meio a esforços científicos e produtivos para evitar sua extinção iminente. A princípio, pesquisadores, produtores rurais e ambientalistas destacam a importância histórica, ...
Eliseu Lins, da Agência NE9
12 de janeiro de 2026 - às 08:32
Atualizado 12 de janeiro de 2026 - às 08:32
5 min de leitura

O jumento, animal símbolo do Nordeste brasileiro, volta a ganhar atenção nacional em meio a esforços científicos e produtivos para evitar sua extinção iminente.

A princípio, pesquisadores, produtores rurais e ambientalistas destacam a importância histórica, cultural, ambiental e econômica do asinino para a região — ao mesmo tempo em que alertam para o risco de desaparecimento de sua população se medidas de preservação não forem intensificadas.

jumento
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Símbolo cultural e histórico do Nordeste

O jumento, também chamado de jegue ou asno (Equus africanus asinus), tem papel central na formação social e econômica do Nordeste desde a colonização.

Dessa maneira, forte, dócil e adaptado ao clima semiárido, ele foi amplamente usado para transporte de pessoas e cargas, acesso a água e alimentos e apoio ao trabalho rural nas comunidades mais remotas do interior do país.

A presença do jumento na cultura nordestina é tão forte que ele aparece em canções, literatura de cordel, poemas e manifestações artísticas regionais como símbolo de resistência e identidade popular.

Queda populacional alarmante e risco de extinção

Apesar de sua importância histórica, a população de jumentos no Brasil sofreu uma queda dramaticamente acentuada nas últimas décadas.

Estimativas baseadas em dados oficiais revelam que o rebanho caiu de cerca de 1,3 milhão em 1997 para apenas 78 mil em 2025, indicando uma redução de mais de 90% em pouco mais de duas décadas.

A principal causa desse declínio está associada ao abate em larga escala para a produção de ejiao — um composto de colágeno extraído de pele de jumento vendido no exterior, especialmente na China, com supostas propriedades medicinais que impulsionaram a demanda internacional.

Esforços de pesquisadores e produtores para garantir sobrevivência da espécie

Diante do cenário crítico, pesquisadores de universidades federais e instituições de pesquisa estão se mobilizando para reverter a tendência de extinção.

Projetos científicos buscam desenvolver alternativas que reduzam a necessidade de abate, por meio da produção de colágeno em laboratório e de biotecnologias inovadoras que possam substituir o uso animal desse recurso.

Além disso, iniciativas buscam reintegrar o jumento à economia local. Dessa forma, valorizar seu uso em práticas sustentáveis como agricultura familiar, terapias (como a “jumentoterapia”) e produção de leite de jumenta. Este alimento de alto valor nutricional que já é explorado em alguns países europeus.

Importância socioeconômica para o Nordeste

Embora a mecanização agrícola e o crescimento da frota de veículos tenham reduzido o uso tradicional de jumentos para tração, o animal ainda tem relevância para pequenas propriedades rurais e comunidades locais.

Sua robustez, baixo custo de manutenção e capacidade para trabalhar em ambientes de baixa infraestrutura tornam-no um aliado importante em locais de difícil acesso.

Especialistas ressaltam que a preservação do jumento também está ligada à manutenção de formas tradicionais de vida e produção no semiárido nordestino, promovendo sustentabilidade e geração de renda em áreas onde a agricultura familiar ainda é predominante.

Mobilização em prol do futuro dos jumentos

A mobilização contra a extinção do jumento já vem ocorrendo em frentes diversas. No III Workshop Internacional Jumentos do Brasil, realizado em Maceió (AL), foi divulgada a chamada “Declaração de Maceió — Estado de emergência: Extinção do jumento nordestino”, alertando para a urgência de políticas públicas de proteção e manejo sustentável da espécie.

Pesquisadores defendem ainda que o jumento vire patrimônio cultural brasileiro, em razão de sua importância para a história e a identidade da região.

Contudo, paralelamente, projetos de biotecnologia aplicada ao bem-estar animal buscam colocar o Brasil na vanguarda de soluções sustentáveis para a produção de colágeno e outros bioprodutos, reduzindo a pressão sobre a espécie.

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Caminhos para preservação e valorização

As perspectivas para garantir o futuro dos jumentos no Nordeste passam por combinação de medidas:

  • Alternativas tecnológicas que substituam o abate para produção de colágeno;
  • Programas de reprodução e manejo sustentável dos rebanhos locais;
  • Incentivo à utilização em agricultura familiar e produção de leite de jumenta;
  • Reconhecimento como patrimônio cultural, reforçando sua importância histórica e social.

Portanto, o jumento, além de símbolo cultural do Nordeste, representa uma parte da história e da economia regional que precisa de proteção.

O momento é de articulação entre ciência, agricultura e políticas públicas. Em suma, visa preservar esse animal e e que ele continue fazendo parte da vida e da identidade nordestina nas próximas décadas.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.