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A Independência do Brasil começou antes de 1822 no Nordeste; entenda

A Independência do Brasil não aconteceu apenas no Ipiranga. Veja como Pernambuco, Bahia, Piauí, Ceará e Maranhão participaram desse processo.
Eliseu Lins, da Agência NE9
7 de setembro de 2026 - às 07:01
Atualizado 7 de setembro de 2026 - às 07:01
7 min de leitura

Muito antes do 7 de Setembro, Pernambuco já vivia uma revolta de caráter republicano; depois, Bahia, Piauí, Ceará e Maranhão entraram diretamente nos conflitos que consolidaram a separação de Portugal

Quando o Brasil comemora o 7 de Setembro, a imagem mais conhecida é a de Dom Pedro às margens do Ipiranga, em São Paulo, declarando a separação de Portugal. Entretanto, a história da Independência não começou naquele dia.

Nordeste teve participação decisiva antes e depois de 1822.

De fato, o processo envolveu diferentes projetos políticos, revoltas, disputas entre grupos locais e confrontos militares. Por isso, pesquisadores e instituições como o Arquivo Nacional tratam a Independência como um processo formado por diferentes experiências regionais, e não apenas como um acontecimento concentrado no Ipiranga.

Pernambuco já discutia novos caminhos em 1817

Revolução Pernambucana de 1817
Revolução Pernambucana de 1817 Foto: Domínio Público

Um dos principais antecedentes ocorreu em Pernambuco, em 1817. Em 6 de março daquele ano, uma revolta derrubou o governo provincial e criou um governo provisório com características constitucionais e republicanas.

A chamada Revolução Pernambucana durou pouco mais de dois meses, mas colocou em circulação ideias de autonomia, constitucionalismo e novas formas de organização política. Além disso, o movimento mostrou que setores da sociedade nordestina já questionavam a estrutura de poder do período colonial.

O Arquivo Nacional considera a Revolução de 1817 um dos grandes movimentos predecessores da Independência. O episódio também deixou uma forte herança política em Pernambuco, onde as disputas continuaram durante os anos seguintes.

No entanto, é importante fazer uma distinção: os revolucionários de 1817 não lutavam simplesmente pela Independência do Brasil que Dom Pedro proclamaria cinco anos depois. O movimento defendia um projeto próprio de governo e chegou a instaurar uma república em Pernambuco.

O que mudou depois de 1821?

A situação ganhou outra dimensão com a Revolução Liberal do Porto, em Portugal, em 1820.

As Cortes portuguesas passaram a pressionar pela reorganização política do Reino e pela volta de Dom Pedro a Portugal. Ao mesmo tempo, as províncias brasileiras começaram a discutir como participar daquele novo cenário.

O processo atingiu diretamente o Nordeste. Representantes de Pernambuco, Maranhão, Alagoas e Bahia chegaram às Cortes de Lisboa, enquanto outras províncias enviaram seus deputados posteriormente. O Ceará, por exemplo, só teve seus representantes em Lisboa em 1822.

Assim, 1821 e 1822 marcaram uma aceleração das disputas políticas. Em Pernambuco, por exemplo, as ideias liberais e constitucionalistas ganharam força e, posteriormente, uma articulação política aproximou a província do projeto de independência liderado por Dom Pedro.

Bahia transformou a Independência em guerra

Depois do 7 de Setembro de 1822, a separação de Portugal ainda precisava conquistar grande parte do território.

Na Bahia, a disputa ganhou dimensão militar. Tropas portuguesas permaneceram em Salvador, enquanto grupos favoráveis a Dom Pedro organizaram resistência no Recôncavo.

A partir de Cachoeira, formou-se uma estrutura política e militar de oposição ao comando português em Salvador. Além das forças locais, chegaram tropas de outras províncias, incluindo Pernambuco e Alagoas, que reforçaram o chamado Exército Libertador.

A guerra terminou com a saída das tropas portuguesas de Salvador em 2 de julho de 1823. Por isso, a Bahia celebra o 2 de Julho como sua data de Independência.

Piauí, Ceará e Maranhão entraram no centro da luta

Enquanto a Bahia enfrentava os portugueses, o conflito avançava pelo Norte.

No Piauí, a resistência ganhou força no início de 1823. Em 24 de janeiro, Manuel de Sousa Martins assumiu o governo provisório em Oeiras e declarou a adesão da província à Independência.

Pouco depois, em 13 de março de 1823, aconteceu a Batalha do Jenipapo, em Campo Maior.

O confronto reuniu piauienses, cearenses e outros combatentes contra as tropas portuguesas comandadas pelo major João José da Cunha Fidié. A batalha teve enorme importância estratégica para o avanço da causa independentista no Norte.

Além disso, tropas vindas do Ceará e do Piauí participaram diretamente dos combates que pressionaram o Maranhão a romper com Lisboa. O próprio Arquivo Nacional registra que milhares de homens dessas duas províncias apoiavam a causa da Independência no Maranhão em 1823.

Comando Militar do Nordeste celebra 200 anos da Batalha do Jenipapo
Comando Militar do Nordeste celebra 200 anos da Batalha do Jenipapo

Maranhão só aderiu em julho de 1823

O caso maranhense mostra por que o 7 de Setembro não encerrou imediatamente o processo.

São Luís manteve vínculos com Lisboa mesmo depois da declaração de Dom Pedro. A situação mudou com o avanço das forças independentistas por terra e a pressão naval comandada pelo almirante Lord Cochrane.

Finalmente, em 28 de julho de 1823, a Câmara Geral de São Luís oficializou a adesão do Maranhão ao Império do Brasil.

Ou seja: quase um ano depois do 7 de Setembro, o Maranhão ainda passava pelo processo de incorporação ao novo Império.

A Independência no Nordeste em uma linha do tempo

Ano/dataLocalO que aconteceu
1817PernambucoRevolução Pernambucana cria um governo republicano e coloca autonomia e constitucionalismo no centro do debate
1821Pernambuco e outras provínciasO movimento constitucional português e as eleições para as Cortes ampliam as disputas políticas
1822BahiaA resistência contra as tropas portuguesas ganha força no Recôncavo
7/09/1822São PauloDom Pedro declara a separação política de Portugal
1822–1823BahiaGuerra pela expulsão das tropas portuguesas
13/03/1823PiauíBatalha do Jenipapo
02/07/1823BahiaTropas portuguesas deixam Salvador
28/07/1823MaranhãoSão Luís oficializa a adesão ao Império do Brasil
O 7 de setembro é uma das datas mais lembradas pelos patriotas brasileiros.

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Então, a Independência começou antes do 7 de Setembro?

A resposta depende do que se entende por “começou”.

Se a pergunta tratar da declaração formal de separação entre Brasil e Portugal, o marco continua sendo 7 de setembro de 1822.

Por outro lado, se a pergunta considerar a formação das ideias, revoltas e disputas que prepararam o terreno para a ruptura, o Nordeste aparece muito antes. Pernambuco já protagonizava uma revolução republicana em 1817, enquanto, depois de 1822, Bahia, Piauí, Ceará, Pernambuco e Maranhão participaram de diferentes maneiras das lutas que consolidaram a separação.

Além disso, a própria documentação histórica mostra que o novo país não surgiu de maneira uniforme. Diferentes províncias tinham interesses, alianças e posições políticas distintas. O Arquivo Nacional destaca justamente essa multiplicidade ao estudar as chamadas “várias independências” do Brasil.

Por isso, neste 7 de Setembro, olhar para o Nordeste ajuda a entender uma parte menos conhecida da história: o Brasil não ficou independente em um único dia e em um único lugar. O processo começou com disputas políticas anteriores a 1822 e continuou com guerras e negociações que atravessaram o Nordeste até 1823.

Eliseu Lins

Eliseu Lins é baiano de nascimento e paraibano de coração. Jornalista formado na UFPB, tem mais de 20 anos de atuação na imprensa do Nordeste. É pós-graduado em jornalismo cultural e ocupa o cargo de editor-chefe do NE9 desde 2022.